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Porto turístico, até quando?

Todos sabemos que visitar Portugal está na moda. Em meia dúzia de anos as duas principais cidades do país viram-se renascer. Ora, a capital Lisboa será sempre a capital. No entanto, o Porto tem vindo a conquistar um enorme prestígio turístico, como explicitam as abordagens dos vários media internacionais.

Porto. Ou, por outras palavras, Porto Ponto. É assim que os cartazes da cidade invicta se vestem. Uma campanha que rapidamente se espalhou e que apaixonou os portuenses.

Hoje o Porto é uma cidade “renascida”. As aspas são para distinguir a vivacidade do povo com o florescer das estruturas urbanísticas. Se sonharmos com o Porto de há seis anos, caímos na real de pensar o quanto a cidade cresceu. Uma cidade rejuvenescida. Uma cidade reconstruída. Uma cidade movimentada.

A cada ano que passa, Portugal bate consecutivamente recordes de afluência turística. São cada vez mais. Vêm, gostam e voltam.

Contudo, é sobre o Porto que hoje vos falo. Do Porto Ponto. Sou portuense de gema e, felizmente, cresci e continuo a viver no meu berço. Confesso que sou uma apaixonada pela minha cidade que, todos os dias que saiu de casa, encontro novos sítios, espaços talvez remotos para muitos e que nunca pensaria que pudessem ser tão valorizados. Hoje, como disse, a cidade é outra. Não porque perdeu a sua magia (esta continuará sempre), mas porque sentimos um espírito renovado, alegre, mas, acima de tudo, vivo.

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Há 16 anos comecei a viver em Cedofeita (muito embora nunca tenha morado longe do centro do Porto). Desde então, principalmente de há seis anos para cá, o centro histórico do Porto sofreu profundas alterações, tentando dar nova vida a um centro não esquecido, mas descuidado. De certo, que o investimento pouco sorria para estas zonas, com centenas de casas abandonadas e pósteres de venda apoiados às respetivas varandas. Lembro-me, nos primeiros anos em que vivi nesta freguesia, da má frequência que por aqui passava. Não era aconselhado sair à noite sem companhia. Os assaltos eram significativos, pois o movimento noturno era reduzido. A rua de Cedofeita – um dos principais acessos ao centro histórico da invicta – encontrava-se num estado lastimável de abandono. Casas e prédios a ruir onde os delinquentes se refugiavam. Falo nesta rua como um modelo, pois toda esta zona (incluindo a rua onde vivo) também assinava as mesmas características. O tão conhecido Piolho – café centenário – onde todos os encontros de hoje lá chegam – era um dos únicos espaços onde jovens, estudantes (ou não) bebiam uns finos e davam duas de treta. A zona industrial, composta por um aglomerado de discotecas e bares, era o ponto de encontro para as saídas à noite. O próprio aeroporto Francisco Sá Carneiro passava despercebido pelos próprios turistas que talvez conhecessem a cidade associando-a apenas ao Futebol Clube do Porto.

Hoje tudo é diferente. Hoje o Porto é uma cidade nova. Hoje o turismo sorri para o Porto. O centro histórico é um local de fascínio por todos aqueles que visitam a cidade. De facto, a distinção de melhor destino da Europa fez crescer água no bico dos turistas que rapidamente invadiram a cidade. Hotéis, hostels, restaurantes – entre hamburguerias, pizzarias e espaços de sushi -, tascas, cruzeiros, percursos turísticos. Hoje o Porto é uma cidade onde a oferta é extensa. A cada dia que passa, nasce mais um espaço hoteleiro, nasce mais um estabelecimento que vende Nutella (porque não? É sempre boa uma ideia…). Claro que não nos podemos esquecer do poder do vinho do Porto que tantos e tantos turistas se apressam a experimentar e comprar. As taxas de ocupação refletem no entusiasmo dos empresários em investir na invicta. O movimento intensifica-se dia após dia. Os festivais, concertos, sunsets musicais e demonstrações culturais (e muitos deles ao ar livre e gratuitos) fazem aumentar a atração por aqueles que passam e que tencionam sempre voltar. Porque a paixão nasce e permanece. Em relação, ao Porto cresce todos os dias.

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Com o ano passado a terminar nos 8 milhões de passageiros chegados ao Aeroporto Francisco Sá Carneiro, o ano de 2016 promete surpreender. A intensidade em que se vive agora no Porto fala por isso. Os hotéis ou até mesmo os restaurantes são bons exemplos disso: “Olá, boa noite. Queríamos uma mesa para quatro pessoas, é possível? – Têm reserva? – Infelizmente não…. – Então pedimos desculpa, mas temos a casa cheia.” E assim acontece em sucessivos restaurantes, mesmo a meio da semana. As ruas inundam-se de pessoas, muitas delas trazidas pelo metro da cidade, que tem desempenhado um papel essencial na mobilização. As máquinas fotográficas ou os selfie stick combinam sempre com as fotos de grupo ou mesmo as selfies tiradas junto à Torre dos Clérigos. Ou então as filas intermináveis ao sol para entrar na Livraria Lello, espaço que há semanas serviu de lançamento do novo livro da saga do Harry Potter. Já para não falar da tão privilegiada vista na mais alta tábua da Ponte D.Luís sobre o Rio Douro. Podia estar aqui todo o dia a enumerar os imensos espaços de encanto da cidade do Porto. Todo este boom de requalificação, de investimento e, consequentemente, de turismo trouxe a noite da zona industrial até ao centro histórico da invicta. Hoje, o Piolho é o ponto de encontro das saídas noturnas, passando pela famosa Adega Leonor e pela tão movimentada zona das Galerias de Paris. Os bares e restaurantes são a cada virar de esquina. Abertos até “às tantas” da manhã, oferecem animação a todos que por ali passam. Várias despedidas de solteiras(os) escolhem a invicta para a grande noite. Ora, depois disto é fácil perceber a intensidade (louca) que se vive no Porto nesta altura.

Eu, como portuense, emociono-me sempre que passo. Olhar para trás e ver uma cidade completamente remodelada e ativa como nunca antes. É o Porto Ponto. O que se quer mais?

Contudo, nem toda esta vaga de turismo é ouro sobre azul. Traz todo um conjunto de problemáticas que, muitos de nós, apaixonados pela movimentação que se vive na cidade, nos esquecemos de calcular. Se em cinco anos, o Porto recebeu 1,7 milhões de habitantes (dados relativos entre os anos de 2010 e 2015, dados do Jornal de Negócios), os efeitos deste boom turístico também trazem as suas mazelas e que obrigam a um debate urgente.

Todas as nações distinguem-se pela sua identidade. Ora, como turista, quando visito uma localidade pretendo estabelecer contacto com a cultura de origem, costumes, com as pessoas da terra, ou seja, com tudo aquilo que caracteriza esse local. Neste momento, e como já tem sido constatado, o turismo no Porto tem crescido a uma velocidade descontrolável. O centro histórico, onde em tempos abrigava espaços tradicionais (restaurantes, tascas, drogarias, mercearias…), tem dado lugar aos hotéis, aos grandes empresários que pagam aos antigos senhorios para poderem abrir lá os seus negócios. Fecham-se portas a locais típicos da cidade e aos moradores portuenses, que passaram toda uma vida no centro histórico, vêem o seu negócio ameaçado e as suas casas vendidas por qualquer preço. Agora, dá-se lugar aos espaços comerciais, globalizados e de produção massiva. Expulsa-se o tradicional e abraça-se o comercial. É desta, e de muitas outras formas, que o Porto tem vindo a ser descaracterizado pela “expulsão” do povo e comerciante da cidade. A ameaça ao património e a inflação dos preços são outros aspectos que têm de ser discutidos, dada a desproporção face aos residentes locais. O turista pode tudo. “Paga” tudo. E o portuense? Aquele que enche as ruas com o espírito à Porto, que ensina tradições, que abraça sempre quem chega.

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Há que pensar e tentar planear uma forma de parar com este abandono do que é “Porto” da própria cidade. E se boom turístico estagnar? Se a moda de visitar o Porto for ultrapassada? Há que refletir sobre o que pode ser feito nesse sentido e não deixar que o comum, descaracterizado e conhecido por turístico – como as cidades mais turísticas da Europa – seja sinónimo de Porto. Porque Porto (e desculpem lá o amor à pátria) há só um e mais nenhum. E tem de ser sentido e vivido tal como ele é.

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1 thought on “Porto turístico, até quando?”

  1. Subscrevo por completo esta reflexão.

    Aliás, já aqui escrevi sobre a temática e a pergunta foi exactamente a mesma: o que será do Porto quando o turismo deixar de ser a “galinha dos ovos de ouro”? A resposta é negativa,… Muito negativa se bem que a nossa CMP parece estar a querer fazer alguma coisa quanto a isto dado que começam a aparecer por cá (no Porto) empresas de grande nomeada que não estão ligadas ao turismo.

    Um aparte. Eu tive uma vida académica muito preenchida e era habitual sair à noite. Ora tendo eu estudado na Faculdade de Direito da UP era usual andar na Rua de Cedofeita madrugada adentro. Nunca tive problemas com nada nem com ninguém e ia muitas vezes sozinho e a rua completamente deserta. Não digo que não haja quem tenha sido assaltado, mas há muita gente que tem sempre pouco – ou nenhum – cuidado quando anda na rua à noite. É que para ser assaltado tanto faz que seja na Cedofeita dos tempos de hoje como nos de antigamente.

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