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Por que (nos) amamos mais no Natal?

No último fim-de-semana do mês de Novembro, o Banco Alimentar Contra a Fome conseguiu recolher cerca de 2.325 toneladas de géneros alimentares numa campanha realizada em várias superfícies comerciais. Ao sucesso desta iniciativa não é alheio o seu timing: os dados de campanhas anteriores revelam que é na época natalícia que as pessoas se tornam mais sensíveis às dificuldades do próximo e, como tal, mais predispostas a “dar”.

Cientes da vaga de compaixão característica desta época, muitas Instituições de Solidariedade aproveitam o Natal para efectuarem peditórios, arrecadarem voluntários para campanhas, ou até mesmo para captarem (finalmente) o interesse do público para as suas iniciativas. Este ano, no mês de Dezembro, por exemplo, só na página oficial da AMI podíamos visualizar sete iniciativas relacionadas com solidariedade natalícia, que vão desde a recolha de donativos para combate à pobreza até ao financiamento de cabazes de Natal para 2200 famílias, através de uma plataforma online. No entanto, não são apenas as instituições dedicadas aos seres humanos a fazerem uso da onda de solidariedade natalícia para cativar o interesse dos cidadãos. Muitos abrigos e canis para animais apostam fortemente em campanhas de adopção “natalícias”, pois sabem que é o momento em que as pessoas estão mais receptivas a este tipo de eventos. O Canil Intermunicipal de Beja é apenas um dos muitos que apelou à solidariedade natalícia. Segundo o site boas noticias.pt, “em vez de gastar dinheiro num presente, o Canil Intermunicipal sugeria que se oferecesse um animal de estimação a quem provasse ter condições para tomar conta dele”.

Porém, o que nos faz ficar mais generosos no Natal? O que nos leva a olhar mais atentamente para as dificuldades dos outros, nesta época? Que sentimento desconhecido brota repentinamente do nosso íntimo para nos fazer adoptar aquele gatinho? O que nos leva a querer os “nossos” reunidos à volta da mesa na consoada? Porque (nos) amamos, enfim, um pouco mais no Natal?

Podíamos começar pelo próprio sentimento que emana da palavra. É que “Natal” é um termo que tem a ver com nascimento, com renovação. Por isso, para muitos de nós, esta será certamente uma época de limpeza interior, de corte de “ervas daninhas”, enfim, o fim de um ciclo e recomeço de uma nova etapa. Dar, oferecer, partilhar e amar, serão posturas de vida que talvez façam sentido nesta fase de recomeço. Afinal, quem começa uma etapa quer fazê-lo nas melhores condições, certo? Para isso, é preciso “livrar-se do mal”. Por outras palavras: é preciso amar mais e odiar menos. Em segundo lugar, podíamos explicar este súbita generosidade baseando-nos nas orientações católicas. Olhando para as escrituras bíblicas, Jesus disse “amai-vos uns aos outros” e esse conselho é seguido por muitos católicos, com mais ênfase no mês de Dezembro, por ser o mês em que acreditam ter nascido Jesus. A figura de Jesus representa a capacidade de ser humilde, de compartilhar, de preocupar-se com o outro e respeitar todas as pessoas de modo indiferenciado. Nesta época, estes valores atingem o seu expoente máximo na consciência das pessoas, em particular as católicas, mas é um sentimento que acaba por contagiar os restantes, quase como uma onda de um tsunami.

Finalmente, uma explicação científica: evolução é a sobrevivência dos mais aptos e os mais aptos são… os mais generosos. Esta é, pelo menos, a explicação avançada por Luís Naves no dn.pt, num artigo sobre Evolução. Nesse artigo, de 2009, o jornalista referia que os cientistas americanos estavam cada vez mais próximos de comprovar que “a generosidade compensa mais do que o egoísmo, ou seja, são conferidas vantagens evolutivas aos seres com comportamentos altruístas. Na espécie humana, a cooperação e a empatia parecem ser as melhores estratégias para conseguir passar os genes para a geração seguinte”, afirmavam os cientistas responsáveis pelo estudo.

E você? Sentiu-se mais generoso neste Natal? Se leu este artigo até ao fim… já deu um pouco de si. E eu, ao escrevê-lo, já dei também um pouco de mim. Está feita a troca. Boas festas!

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Ana Raquel Soares

Um dia acordei a achar que podia mudar o mundo com as palavras. Hoje sei que as palavras (só) não chegam. Mas continuo a escrever.

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