Desporto

‘‘Por Paços, Esforço e Vitória’’ e Fonseca

Do futebol, bom, do futebol, ali, em Paços de Ferreira, na eterna capital do móvel, pode dizer-se (os números provam-no!) que é um mundo complementar à vida do concelho. É o próprio presidente da Câmara Municipal, Pedro Pinto, que ressalva esse ponto. ‘‘O Paços de Ferreira, não só pelo que está a fazer esta época, tem dado excelente ajuda na promoção do concelho e (…) vamos procurar envolver os empresários no sentido de ajudarem também o clube, pois esta é uma relação que beneficia todas as partes’’. Talvez por isso, já haja acordo para a mudança do clássico Mata Real, nome actual do estádio, para Estádio Capital do Móvel, cimentando todos os interesses. Ainda assim, o percurso evolutivo do clube foi relativamente lento, ou, analisando por outro prisma, sustentado, estando, desde o início, regido por um apertadíssimo orçamento.

A viagem desde os distritais até à primeira divisão levou quarenta anos a ser feita. O clube, fundado exactamente a meio do século, denominava-se então como Vasco da Gama – isto depois de já ter sido, quando abraçava o profundo amadorismo, o Sport Clube Pacense –, só se tendo afirmado como Paços de Ferreira na década de 60. O amadurecimento foi o natural, as conquistas em escalões inferiores, de alguma forma, sucediam-se e o hino do clube profetizava um ‘vais ficar sempre na primeira/ para a vida inteira’. Esse sonho só seria alcançado em 1990. Vítor Oliveira, que leva mais de quarenta anos de futebol, actualmente a treinar o Arouca, foi o obreiro de outrora e marcava no mapa cronológico do clube o maior feito da história do Paços, na altura com quatro décadas de existência.ima154ges

O hino tinha de vaticinar as melhores esperanças para o emblema pacense. Porém, traíram as esperanças dos sócios, adeptos e simpatizantes em 1994, com nova queda para as ligas mais sombrias do futebol profissional português.  O destino, para os crentes nele, havia ainda de trocar mais vezes os passos deste clube com nome de gente. Artimanhas, essas, que não vêm escritas em qualquer profecia, mas que puseram a figura de José Mota no caminho do clube. O encontro com este homem da casa estava marcado para um dia longínquo de 1999, estava o Paços na segunda divisão.

Seria também a assunção deste antigo jogador em treinador. Sem grandes expectativas, Paços de Ferreira – a terra –  celebraria, no final da época, o êxito dos sonhos do Paços de Ferreira – clube – a subida ao primeiro escalão de futebol. Não se tratava de revolta, ou vingança pelo sucedido meia dúzia de anos antes. Era simplesmente, no coração daquelas gentes, na razão de um desporto com pouco de explicação e muito de emoção, o endireitar do que devia ser sempre norma e nunca excepção.

O novo milénio tem definido mais sorrisos do que tristezas. O esforço do clube (que atravessa a meia idade) tem, por fim, dado os seus frutos. Vitórias, quer-se dizer. Os primeiros anos adivinhavam a estabilização desportiva – os resultados obtidos por José Mota foram sucessivamente melhorados no período 2000-03 –, mas o fantasma da descida bateria novamente às portas da Mata Real. Foi nuvem de pouca dura a que se instalara ali, naquele isolado ano. O futebol de primeira liga voltaria, imediatamente, no ano seguinte à descida.

José Mota era, por esta altura, já estátua local, símbolo máximo da elevação do Paços ao estatuto que todos os clubes querem ter, em Portugal. A velha Taça UEFA tornara-se nova, em 2007, para este clube que, graças a um inédito 6º lugar, ganhara o feito de se mostrar continente fora. Teve pouca sorte. Ou azar, precisamente. Calhou-lhe logo o que se chama, na gíria, de tubarão futebolístico – o AZ, da Holanda. Aquela força do destino que parece sempre aparecer nos marcos do Paços fez com que a eliminatória fosse do maior dos equilíbrios, deixando a Europa boquiaberta. Depois do empate no país do adversário, o golpe final era para ser dado no Bessa, no Porto, estádio emprestado pelo Boavista ao Paços. Sem aviso, com a maior das friezas, o azar ofereceu-se ao AZ, no último minuto do jogo, eliminando os pacenses.

Parece sequela de filme, o que se vê em 2009, com mais uma estreia saborosa, fruto de esforços e vitórias do Paços. O clube atingira a final da Taça de Portugal, desta vez com Paulo Sérgio no comando do clube. Perdera-a, contudo, sob o olhar de dez mil olhos amarelos no Estádio do Jamor, para o Porto, por 0-1, mais uma vez. Serve quase como compensação a viagem que o clube faz, novamente, no ano seguinte, Europa fora, por direito natural de quem atinge a final da competição em causa. Agora, a renovada Liga Europa sorriria para o clube. Põe-lhe, em fases eliminatórias, o Zimbru Chisinau da Moldávia (desafio superado) e o Bnei Yehuda, de Israel, que atiraria o Paços de Ferreira para fora da estrada, na sua segunda tentativa de ser feliz na Europa.‘‘Não há duas sem três’’ é o lema preferido de muitos os que vêem histórias repetirem-se, como que um karma que é carregado irresponsavelmente. Terceira final, terceira derrota. Três vezes a ver o seu nome gravado sobre medalhas que espicaçam o orgulho e motivam a maior das alegrias. Agora, para completar o rol de competições, na Taça da Liga. Agora, frente ao Benfica, por 1-2.imag888es

Ao falar-se de glória, fala-se também da derrota. Ao falar-se de luz, reconheça-se igualmente a importância da sombra. É de luz o momento por que brilha o Paços. Motivo? Paulo Fonseca, treinador a atingir os 40, que se notabilizou em divisões inferiores, com o Pinhalnovense, ou o Aves. Treinador que enverga o honroso ‘‘chegar, ver e vencer’’, perante todas as dúvidas, legítimas, ou não, sobre o seu nome. Treinador que viu, na Mata Real, espaço e potencial, homens desejosos de continuar a inscrever o Paços de Ferreira nas páginas de elite do desporto nacional. Treinador que, em oito meses, só perdeu, oficialmente, com o Porto e o Benfica. Treinador que, quase sem querer, se vê, numa batalha que não é sua – a do 3º lugar, veja-se. Treinador que faz do suor a motivação e, da vitória, um hábito sem esforço. Treinador que disse, na passada semana, à UEFA, já se ter imaginado a ouvir o hino da Champions na Mata Real. Real Paços de Ferreira que parece condenado ao destino, mas com uma pena das boas – a do sucesso.

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Vítor Teixeira

Gosta de letras e do que se pode fazer com as mesmas. Interessa-se por compreender e comunicar tudo o que se passa à sua volta, exactamente um género de repórter-sombra, solto, por aí.

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