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Podia ser diferente? Podia, mas nunca teria sido tão divertido

Sábado, duas semanas após a mudança (sim, mudei de casa, para o interior, como já alguém mencionou jocosamente). Depois do artigo sobre os after-eights e das reclamações do meu Mestre e do meu Editor (posso dizer isto Miguel, que és meu?), convidei ambos para jantarem no chez moi. Se há algo que faço bem, é planear estas coisas milimetricamente, para depois correr tudo ao contrário, algo que também já sei de antemão. Porém, o vício é maior e ainda não aprendi que não controlo absolutamente nada, como poderão constatar de seguida, mas adiante…

No dia antes, no início do meu ensaio, alguém comentava que, hoje em dia, prato de restaurante que se preze tinha de ser “em cama” de qualquer coisa. Apanhei aquela conversa e pensei que espinafres seria uma boa cama, para o que queria fazer para este jantar. Seria bacalhau confitado. Ainda não sabia muito bem como iria terminar aquele prato, mas o essencial já estava na minha cabeça. Dois dias antes, tinha ido às compras e, com a ajuda de um amigo, acabei por decidir fazer o leite-creme para a sobremesa. Ainda fiquei na dúvida entre essa e uma mousse de lima e manjericão do chef Avillez, que tanto admiro. Só que o leite-creme era meu, o amigo com quem me estava a aconselhar era tradicional e o jantar em minha casa. Fazia sentido cozinhar uma receita minha. Assim ficou.

A semana que até aí tinha corrido tão bem começou a descambar. O dia de Sábado foi um dia daqueles de enterrar a cabeça na areia. Ainda assim, não trocaria a minha vida por outra qualquer. Por isso, toca a esquecer as pequenas infelicidades e preparar a recepção dos convidados da melhor forma. Preparei as entradas, a sobremesa e fui arrumar a casa.

Quando faltava cerca de um quarto de hora para chegarem, ligo o fogão e… nada. Eu não estava propriamente concentrada no que estava a fazer. “Concentra-te miúda, o que estás a fazer mal?” Talvez seja bom esclarecer, que nunca tive gás de bilha. Por essa razão, o mais certo era ter rodado o botão ao contrário. Roda para o outro lado e volto a rodar o botão do fogão e… nada. Damn! A bilha já cá estava. Será que o gás acabou? Pois é, acabou mesmo. Precisamente quando ia começar a fazer o jantar.

Só tive tempo de olhar para o relógio e pensar no que poderia fazer com o equipamento que tinha à mão. Tinha a Bimby e poderia fazer um arroz, mas o que faria ao bacalhau? Como o faria? Olhei para o mini-forno eléctrico e nem pestanejei. Peguei numa travessa, coloquei nela duas cebolas médias às rodelas, desfiei 400 grs de bacalhau e pensei que tinha de o temperar. Dez minutos para chegarem.

Dois decilitros de azeite, sumo de uma laranja e uma colher de sobremesa de pimenta moída na altura, gengibre em pó, pimentão em pó e citronela. Misturei tudo, coloquei o bacalhau na travessa por cima da cebola, temperei com sal, coloquei a mistura líquida do azeite com as especiarias por cima e forno com ela. A 200 graus, para ganhar cor e sabor e… tocam à campainha. Uff, right on time.

Entretanto, já tinha descongelado 800 grs de espinafres, mas não tinha fogão. Decidi temperá-los com azeite, alho, sal e pimenta q.b. e cozi por sete minutos no microondas, na potência máxima. Coloquei o meu maior sorriso, que mais parecia o início do videoclip do Everybody Fool, dos Evanescence e abri a porta.

Sabem porque não trocaria a minha vida por nenhuma outra? Porque nela estão os melhores amigos do mundo. Aqueles que conseguem em cinco minutos fazer-me passar uma neura que outras pessoas provocaram. Começámos nas palhaçadas do costume e finalmente preparei-me para servir o jantar.

Fiz a tal cama com os espinafres, onde coloquei a cebola e, por cima, o bacalhau. Servi com arroz simples e uma salada de melão, meloa, melancia e tomate, com presunto, e temperada com azeite, limão e orégãos. Jantámos, tomámos café e a seguir veio a sobremesa para a mesa e eu pensava para com os meus botões: pelo menos esta vai salvar o dia, mas adivinhem? Nem a sobremesa se safou. Estava líquida, mas mesmo líquida. De tal forma que resolvi ir buscar uma chávena e bebê-la, ao invés de utilizar uma colher.

Querem saber qual foi a conclusão da noite? O jantar estava bom (q.b.), mas nada do que tinha imaginado. Da sobremesa sobrou muito pouco, pois, apesar de estar em estado líquido, estava óptima. No entanto, o verdadeiramente importante, foi a companhia. Com jantar, sem jantar, são os momentos com as pessoas que são importantes para nós que prevalecem. Obviamente que, se tivermos histórias destas para contar, melhor ainda.

Aos nossos amigos e companheiros de caminhada.

Cheers!

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Marisa Coelho

Eu, curiosa aprendiz de tachos e letras, inspiro-me nas referências do digníssimo trabalho de outros e dou-lhe o meu cunho pessoal. Conto estórias com personagens, tempos e espaços, condimentadas q.b.
E sempre em busca do ingrediente perfeito que muitas vezes se encontra na Dita paixão do que se faz.

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