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“Pés para que os quero, se tenho asas para voar?”

Muitos são aqueles que não acreditam em magia. Eu confesso que sempre fiz por manter acesa a centelha que me permite acreditar que numa noite me entrará o Peter Pan janela dentro, para me levar até à Terra do Nunca e me fazer voar, quando o relógio bater as 20h15.

A imaginação faz a magia acontecer.

Voltando ao Peter Pan, o mundo da Disney sempre me fascinou. Mais do que contos de fadas, são histórias de encantar. Tenho uma viagem guardada para fazer assim que me for possível. Uma ida à Disney e levar os meus filhos comigo, para lhes sentir os olhos a brilharem, para assistir à tal magia entranhar-se-lhes nos poros e transbordar em gargalhadas. É uma das minhas metas. Supérfluas, dirão alguns, utópicas, dirão outros. Mas o que importa é o que, a esta altura, me move a querer alcançar essa viagem: tão só a felicidade dos meus filhos. No fundo, é o que creio que todos os pais querem para os filhos. Que sejam felizes. Que estejam felizes na maioria do tempo.

Estava a caminhar numa rua larga com árvores de um lado e do outro a acalmar-nos o calor com sombra, quando os vi. Um homem a empurrar uma cadeira de rodas com um menino sentado.

Lembro-me de ter pensado que seria difícil estar ao calor, ainda que as árvores fizessem sombra, e, por isso, atirei a mão à minha mala para procurar a garrafa de água e dar algum tanto ao homem como ao menino.

Corri para os alcançar, já quase a hiperventilar. Quando cheguei ao encontro deles, fui surpreendida por uma imagem que nunca me passaria pela cabeça: o menino estava com patins em linha nos pés. Inevitavelmente não consegui controlar o meu ar de espanto. Pela reacção do homem, que mais tarde vim a saber ser o pai do menino, deve estar habituado.

“É normal, não se preocupe. Eu sei que não é muito comum e isso ainda me deixa mais satisfeito.”

Não tive capacidade de resposta. O meu cérebro demorou a entender o que estava a ver. As emoções fintaram-me e não sabia o que dizer. Logo eu que tenho sempre resposta para tudo, pronta na ponta da língua.

“Oh… Desculpe! Não é minha intenção incomodar. Tenho a garrafa na mão, porque pensei que poderiam estar ambos com sede. São servidos?”

“Obrigada, menina simpática! É a primeira que nos vê assim e não me chama de maluco ou olha para nós com ar de pena.”

“Pena?! Ah, não! De maneira nenhuma. Estou só a tentar perceber a razão do menino estar com patins, mas não é algo que seja obrigatório dizer-me. Espero que o menino não esteja magoado o suficiente para estar permanentemente na cadeira. Até para que o senhor consiga descansar. Acredito que seja demasiado cansativo.”

“Infelizmente, ficou paralisado da cintura para baixo, depois de um acidente de automóvel. Os carros são armas, sabe? Com eles, podemos matar alguém e poucos são os que levam isso em conta. O meu filho não morreu, mas podia ficar condenado para sempre. Não está, porque eu e a mãe fazemos tudo o que está ao nosso alcance para o ver e fazer feliz.”

“Entendo! Mas, e não me leve a mal, estando paralisado, não sente os patins, pois não?”

“Não. De facto, não sente. E claro que não levo a mal. Repare no seguinte: o Francisco não sente fisicamente que tem patins nos pés. Podia tê-los nos joelhos que a sensação seria a mesma: nenhuma. Mas o que conta – e o mais importante de tudo, afianço-lhe que aprenderá quando tiver filhos – é a emoção que isso lhe traz. Ele sempre quis andar de patins em linha. Eu e a mãe nunca deixámos, com medo que se magoasse. Veja bem a ironia…”

“Estou a tentar acompanhar. O Francisco ao saber que tem os patins calçados fica feliz. É por isso que sorri desta forma rasgada?”

“Não! O Francisco fica feliz, porque alcançou uma meta. Sempre quis andar de patins. Nós nunca deixámos e agora somos nós quem permite que tal aconteça. Porquê? Porque podemos e devemos acompanhá-lo em tudo quanto lhe traz felicidade. Quase que o perdemos. E isso muda tudo. Não são patins que ele tem nos pés. É magia!”

Entendi! Tinha conseguido entender. A felicidade não morava nos patins em linha que o Francisco calçava e orgulhosamente tinha a rodar no chão. Morava naquele sorriso que nem todos os meninos saudáveis conseguem alcançar. Na resiliência e perseverança dos pais. Adormecia e acordava na magia de poder, finalmente, andar de patins!

Naquele dia, tinha um alfinete ao peito com a Frida Kahlo.

Estive o tempo quase todo a conversar com o pai, não lhe perguntei o nome, enquanto admirava o ar de feliz do Francisco.

No final, falei-lhe da Disney. Contei-lhe que, para mim, chegar lá com os meus filhos é quase o mesmo que para ele estar com os patins. Perguntei-lhe se acreditava em magia. Respondeu que sim, porque era a magia que o fazia conseguir sentir os altos e baixos do caminho a baterem nas rodas dos patins. “Parece estranho, mas eu fecho os olhos e acho que estou quase a voar.”

Fiquei com o Francisco durante o dia todo no pensamento e com o pai dele também.

Despedi-me do pai e do filho, agradecendo aqueles minutos.

Pedi permissão para me baixar e abraçar o Francisco. Tirei o alfinete da Frida Kahlo e dei-lho.

“É verde, vês? Dizem que é a cor da esperança. Esta senhora que estás a ver chama-se Frida Kahlo. E uma vez perguntou o seguinte: ‘Pés para que os quero, se tenho asas para voar?’ Gostava que ficasses com o alfinete, para te lembrares que podes voar, mesmo sem sentires fisicamente os pés.”

Abraçou-me de volta. Agradeceu. O tempo estava a voar, eles tinham de ir embora, eu de ir trabalhar, mas sei que, por alguns momentos, nós os três conseguimos todos voar. E afianço que foi com magia que o fizemos.

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Sofia Fonseca Costa

Nasceu numa quarta feira de Novembro, no ano 1984, mas não gosta de meio termos. Desde que se lembra que quer ser escritora e mãe. Dizem que no canto do seu sorriso mora um arco-íris. Vive para as palavras e afectos. Não gosta de chocolate. É formada em jornalismo e fez teatro durante mais de uma década. Mãe de quatro filhos a quem chama de Soneto. É autora do livro Murmúrio Infinito. Chamam-lhe Sofes Marie.

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