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Perigo: Línguas em Extinção

No mundo são faladas mais de 7000 línguas diferentes, mas mais de metade irão extinguir-se nos próximos cem anos. Há línguas que não estão documentadas por escrito, sendo representadas unicamente pelos seus falantes, e, por essa razão, um idioma extingue-se a cada duas semanas. É quando desaparece o seu último falante que desaparece a língua, desaparecendo também o conhecimento acumulado pelo povo que a falava.

Não se sabe ao certo como nasceram todas as línguas do mundo, mas, no ano 8000 a.C, segundo o linguista Danny Hieber, estima-se que existiam mais de 20 000 idiomas e, actualmente, apenas existem cerca de 7000. Nas últimas três gerações, foram 200 as línguas que desapareceram e hoje, segundo edição do Atlas Internacional das Línguas em Perigo de 2009, 538 estão em situação crítica, 502 seriamente em perigo, 623 em perigo e 607 vulneráveis.

Tendo em conta o número de pessoas que falam o idioma e a quantidade de documentação existente, a tendência para o desaparecimento das línguas não é igual em todos os pontos do mundo. De acordo com o estudo elaborado para o Instituto de Línguas Vivas, são cinco as regiões do mundo em maior perigo de perderem riqueza linguística. Entre essas regiões está a América Central e do Sul, o norte da Austrália, a meseta noroeste do Pacífico, a Sibéria Ocidental e o sudeste dos Estados Unidos da América.

Segundo o investigador David Harrison, 80 por cento da população mundial fala 83 grandes idiomas, mas existem 3005 pequenas línguas que apenas são utilizadas por 0,2 por cento. O Atlas Internacional das Línguas em Perigo aponta para 199 línguas que contam com menos de dez falantes e não estando documentadas, quando desaparecerem esses falantes, acaba por desaparecer a língua. Em 2010, foi isso que aconteceu no dia em que morreu uma indígena das ilhas Andaman, a última sobrevivente da sua tribo, desaparecendo com ela a sua língua.

Um dos custos da modernidade é este desaparecimento das pequenas culturas. As línguas desaparecem, porque, para além de serem usadas por poucas pessoas que quase sempre empregam outras línguas, não têm gramática sistematizada. Para a UNESCO, as línguas estão ameaçadas por factores de ordem militar, ao haver dizimação de um grupo, mas também ameaçadas por factores psicológicos, como a vontade de um grupo de se submeter à língua dominante.

Observam-se, então, duas razões essenciais para o desaparecimento das línguas: a substituição de uma língua por outra, ou o desaparecimento da comunidade que a fala. Contudo, falar uma língua global não força ao abandono da língua materna do indivíduo. As línguas são perdidas, quando o processo de transmissão entre gerações é alterado, ou interrompido.

Este desaparecimento de uma língua, segundo os linguistas David Harrison e Gregory D.S., traduz-se directamente numa perda de conhecimento. A língua pode ser considerada a codificação verbal da cultura, o conjunto de conhecimentos adquiridos por um povo, e, por isso, ao desaparecer a língua, desaparece o conhecimento e o saber acumulado pelo povo ao longo da história. “Quando uma língua desaparece, com ela desaparece todo um universo, porque o universo é, em parte, a maneira em que ele é visto”, defende a autora do livro I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan, Eva Paulino Bueno. A autora afirma que, para uma nação, a língua é a sua forma de se representar junto ao mundo e que, ao ser usada, expressa toda a maneira de ver, sentir e de aprender.

Segundo o linguista Lyle Campbell, quando a língua morre, o conhecimento morre com ela, porque a sabedoria da humanidade está codificada na linguagem. No entanto, nem todos os linguistas concordam com esta perspectiva. É o caso de John McWhorter, linguista na Universidade de Columbia, que acredita que o idioma não está intrinsecamente ligado à cultura e que seria mais prático o uso e a existência de poucas línguas.

Apesar das diferentes perspectivas sobre a relação entre a língua e a cultura, a grande quantidade de idiomas em risco é uma evidente chamada de atenção para as consequências desse desaparecimento. “O desaparecimento de uma língua conduz ao desaparecimento de numerosas formas de património cultural imaterial, em particular do precioso legado constituído pelas tradições e expressões orais – dos poemas e lendas aos provérbios e gracejos – da comunidade que a falava”, diz o Director-Geral da UNESCO, Köichiro Matsuura.

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Marisa Mourão

Estudante de Ciências da Comunicação na Universidade do Minho. É apaixonada por uma boa história. Ainda é das que acredita que os media podem ajudar na construção de uma cidadania ativa.

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