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Perfume a Paris

Encontrei na rua um velho amigo dela que me disse que ela se tinha suicidado uns meses antes. Não compreendi. Ou não queria compreender. Não sabia dela há anos, mas naquele momento faltou-me o ar. Não soube o que dizer, senti só um imenso frio e as pernas a tremer. O amigo dela ajudou-me a sentar-me num banco. Disse-me que sabia que eu tinha sido o único amante que tinha realmente gostado dela. Eu mal o ouvia, na minha incompreensão.

Quando ele se foi embora, senti-me completamente sozinho e incapaz de compreender um mundo a girar na ausência dela. Ela era ar e vida, com o seu ar boémio, cabelo escuro curto e maquilhagem muito carregada, para fazer sobressair os olhos verdes e os lábios vermelhos, enormes. Lembrei-me dela a sorrir e cheia de vida, quis apagar os momentos negros em que ela tantas vezes ameaçava matar-se. Perguntei-me pela filha que ela tinha decidido deixar, perguntei-me qual teria sido o motivo de levar a cabo essas ameaças, como teria ela estado nos últimos momentos. Pareceu-me que cheirava a tabaco misturado com um qualquer perfume que me lembrava Paris. Não sei como, porque nunca estive em Paris, mas era a única forma de explicar o cheiro dela.

Maggie era assim, um furacão de energia, tanto para o bem como para o mal. Conhecemo-nos num qualquer bar intelectual onde eu tinha ido ler algumas poesias minhas e acabámos a noite no meu quarto. Eu era solteiro mas sabia que ela tinha marido e filha. Por alguma razão, além da incrível atracção que sentia por ela, pareceu-me ridículo ela estar atada a qualquer conveniência da sociedade. Era uma alma ansiosa que não podia ser domada, por isso não era estranho a quantidade de amantes que ela já tinha tido e que, descobri depois, mantinha ao mesmo tempo. Amantizava todos os grandes amigos dela, numa teia tão complicada quanto simples. Eu era a excepção. Eu não tinha sido um grande amigo dela, nem me tornaria amigo depois de nos separarmos.

Maggie era a pessoa mais misteriosa, enigmática e magnética que já conheci.

Naquele banco chorei os momentos brilhantes que vivemos. Conhecemos e discutimos com vários intelectuais assuntos clandestinos, fizemos sexo em todos os locais onde nos apeteceu. Creio que nos apaixonámos, por isso discutíamos tanto e separavamo-nos tantas vezes, voltando sempre ao mesmo ciclo quando ela me telefonava, ébria, a assegurar-me que se ia atirar da janela ou deitar-se na linha do comboio. Era intensa e eu vivia numa dualidade medonha – por um lado, tinha medo que o meu amor nunca fosse suficiente para domar aquela liberdade toda que tanto me atraía; por outro, se eu a conseguisse domar talvez não a amasse tanto. Era uma espada de dois gumes. Mas eu pedi-lhe em casamento na mesma e ela decidiu que era hora de desaparecer da minha vida.

Agora, Maggie estava debaixo de terra sozinha, toda a vida e intensidade que a caracterizava tinham desaparecido dos olhos verdes e do sorriso contagiante. Ou talvez estivesse no ar, as cinzas a viajar para todos os lugares que ela queria conhecer. Talvez em Paris, de onde eu tinha a certeza que vinha o cheiro dela, como se a alma dela tivesse sido forjada na capital francesa. Imaginei-a como uma estrela, como a minha mãe me tinha explicado quando a minha avó morrera. Que era uma estrela no céu. Levantei-me do banco, ainda atordoado nas minhas perguntas. Uma estrela. Sim, fazia um estranho sentido que me arrepiava. Tal como uma estrela, a intensidade de Maggie tinha-a consumido até a extinguir.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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