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Perfeição Inacabada

‘Aquele’, poderia ser apenas mais um momento. ‘Aquele momento’. Poderia ser apenas mais um na multidão. Poderia ser apenas mais um qualquer cidadão do mundo.

‘Aquele’, poderia ser só mais uma criança a nascer. Poderia. Porém, jamais o será. Um filho que se traz ao mundo, jamais será apenas ‘mais um’. Jamais será uma mera e distante estatística, que satisfaz os conceitos demográficos que ajudam políticos e políticas de circunstância.

Pensemos, agora, como um teorema matemático. Se o nascimentos de um filho é de tão indistinta dimensão, este apenas existe se, e só se, existir um coração e um abraço para o amar. E sim, é de facto verdade.

E O Momento chega. ‘Aquele’ momento. Uma vida nova nasce com o nascimento de um filho.

Pretérito mais que Perfeito

Deixemos, agora, a matemática. Gramática e conjugações verbais confluem em catadupa no instante em que a realidade faz esbarrar perante um filho com uma particularidade além da norma, a que a socialmente se chama de deficiência.

Os se’s tornam-se alfinetes na vida de pais e famílias de um cidadão com uma deficiência, quando esta se lhes é revelada e percebida. Mais que uma nova vida, perante uma deficiência, abraça-se uma vida além da vida dos demais.

Instantes idílicos, de perfeição, dissipam-se. Escapam-se da realidade como bolinhas de sabão, subindo magicamente para o nada. Na verdade, toda a vida toma a dimensão de uma gigante bola de sabão.

Não se sabe onde, como, quando, ou por quanto tempo durará essa magia. Todavia, está cheia de cores que mudam a cada centésimo de segundo, tornando-se um condimento aleatório ao conceito de ‘uma nova vida’.

As emoções colidem umas contra as outras. Uma imensa reacção físico-química acontece dentro de um coração repleto de expectativas e sonhos, defraudados pelo confronto com todo o tipo de deficiência que possa existir.

O ruir do castelo sonhado acontece. Uns, mais que outros. Todos os que amam sentem o castelo ruir.

Todos os valores pessoais são postos à prova. Racionalizar é palavra de ordem, mais do que nunca. É preciso perceber, compreender, interpretar a notícia da existência de alguém com uma deficiência, que mora no próprio coração, além da vida comum em família e sob o mesmo tecto.

Pode ser ainda in útero, no momento de nascimento, dias, meses, ou mesmo anos depois. A verdade, é que receber a notícia da existência de uma deficiência, faz tremer os conceitos humanos para que fomos treinados durante toda a educação.

Toma-se a consciência que se viverão instantes de excepção à regra, onde se aprenderá a amar além da perfeição.

Retempera-se a vida. Os dias tomam outra velocidade. E se algum dia se sonhou com um filho perfeito, abraça-se, então, um ser mais-que-perfeito, que elevará os demais a extrapolar as condutas da normal perfeição, a um patamar superior, repleto de particularidades excepcionais, em todos os campos da vida.

Seja uma deficiência motora ou cognitiva, implicará sempre a tomada de consciência de que existe alguém que precisa e precisará de nós invariavelmente.

‘Aquele’ momento em que a deficiência é revelada, faz nascer e renascer vezes sem conta. Cada instante é um suspiro de desafio à normal conduta.

Ser Especial

Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), a “deficiência é o substantivo atribuído a toda a perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatómica”.

Conceptualizando de modo mais estreito, a atribuição deste nome acontece, quando existe alguém legalmente dependente de outro alguém, por ordem a alterações na locomoção, movimento, percepção, pensamento ou relação social. Mais concisamente, as deficiências dividem-se em visuais, motoras, auditivas, mentais e intelectuais.

Além de definirem alguém para lá da norma, a verdade é que identificam o seu portador dos demais, por algo particular.

A semântica da palavra ‘deficiente’ tornou-se motivo de debate. Denotando uma minoria mais vulnerável e passível de julgamento, levou a que muitos especialistas das áreas da saúde, pais, familiares e até os próprios portadores, começassem a abandonar o termo ‘deficiente’, sendo, muitas vezes, substituído por ‘ser especial’.

Inequívoca é a educação particular que o ‘ser-se especial’ implica. Quem cuida, tem sobre as mãos colmatar a ordem em desajuste, ou incapacidade implicada na deficiência.

Se ser-se deficiente é ser-se especial, quem cuida é-o igualmente. Mais que especiais, tornam-se autênticos Masters da vida, trabalhadores de inteligência emocional imbatíveis, extrapolando as expectativas que algum dia haviam sonhado e conceptualizado. Porém, é algo que se trabalha todos os dias, a cada instante, recordando que o mais difícil dos degraus, é mesmo o primeiro.

Subindo a Escada

A notícia da existência de uma deficiência em alguém íntimo, tem implicações que podem ser de ordem muito profunda a nível psico-emocional.

O modo como se lida com a realidade depende dos valores cultivados, crenças e, até mesmo, da religião. Ainda assim, e apesar das diferenças, algo de comum e transversal acontece: o confronto com a realidade.

Este olhar de frente, olhos nos olhos na deficiência e tudo o que ela possa implicar numa mudança na vida, impõe um penetrante reajustamento pessoal, e consequentemente familiar e social. Neste momento, é como uma despedida da realidade, preparando o estender de uma passadeira vermelha a algo desconhecido e desafiante.

Podendo parecer simples, é de uma enorme complexidade. Como o montar de uma teia como rede num salto para o desconhecido.

Este processo implica uma adaptação e tal ordem intrincada, que se compara, e fica a par, de um processo de luto. E para que se perceba, não do luto de outrem, mas do luto pela interiorização de uma realidade para a qual não se foi preparado, sem anúncio ou treino prévios. A negação e a revolta, depois de processadas, trazem a aceitação. Cada um a seu tempo, ritmo, sem que se perca a noção da grande responsabilidade de cuidar de alguém diferente.

Mães, pais e cuidadores de alguém ‘especial’, perdem a conta às inúmeras vezes que ouvem a frase (que nas suas vidas quase se torna um cliché), “mas tu és forte”. Pois é. E alternativas a estas forças? Uma frase que começa com um ‘mas’ como que enaltecendo as capacidades de resiliência dessa pessoa que cuida, educa, defende uma pessoa portadora de deficiência.

Quando a rotina é ser-se especial, todos os dias se tornam tão naturais como os de qualquer outra pessoa dita ‘normal’. A mente humana tem por hábito conceptualizar e racionalizar até ao tutano, esquecendo-se que todos somos diferentes e os ajustes acontecem a cada contacto com os demais. Assim, ser-se diferente torna-se, e é tão natural, como ter todos os órgãos e sentidos no lugar, com a diferença viver de regras e prioridades menos comuns. Afinal, enquanto famílias, todos temos condutas e regras distintas.

Além do mais, torna-se fatigante ouvir vezes sem conta um “mas tu és forte” ou um “coitadinho”, ou um silêncio de olhar cabisbaixo. Que alternativa existe a amar alguém especial com todas as forças e ferramentas? Amar mais ainda!

E a escada vai-se subindo pelo atingir de objectivos pouco vulgares e indispensáveis à vida, enquanto ser individual e social de alguém ‘especial’.

Imagino que agora alguém questione: e com os deficientes profundos? É exactamente o mesmo. Regras e prioridades particulares que promovam o maior equilíbrio possível na saúde. Já socialmente, a prioridade é o respeito sem demagogias e artifícios.

É nestas diferenças que crescemos e nos tornamos mais cientes das nossas limitações enquanto seres ‘normais’, e quantas, e quantas vezes nos sentimos pequenos ao lado de feitos extraordinários de alguém deficiente.

Sou Especial *

Sou especial.

Nasci especial. Cresço especial. Tornei-me especial.

Mesmo sendo especial, temos muito em comum.

Partilho o mesmo mundo que tu.

Preciso de proteção como tu.

Necessito de tanto carinho quanto tu.

Mereço a oportunidade de aprender como tu, mas à minha medida.

Tenho direitos, como tu tens os teus.

Tenho ideias, como tu. Posso ter dificuldade em expressar, mas tenho.

Acima de tudo, sou tão gente quanto tu.

Tenho manias, defeitos e teimosias, como tu.

Tenho qualidades, como tu.

Tenho gostos e preferências, como qualquer outra pessoa.

Aborreço-me e zango-me, como tu.

Preciso de alimento e água, como tu, como todos.

Preciso de aconchego, como tu.

Tenho desafios, como tu.

Como vês, sou tão especial, ao ponto de sermos todos tão parecidos.

Tu és perfeito e ‘normal’ todos os dias. Eu, uma ‘perfeição inacabada’. Sabes por quê? Porque nunca saberás onde poderei chegar. Porque a minha bolinha de sabão muda de cor a todo o momento… por “ser especial”!

Minha mensagem

# Na família, em amigos, na vida profissional, tenho contacto estreito com a realidade de seres especiais. Sinto orgulho em todos eles e nos seus cuidadores, maioritariamente ‘mães’. Quando o castelo parecer ruir, que a força de uma bolinha de sabão faça acontecer um palácio dentro dos vossos corações. Só esse Amor Incondicional é capaz de tamanho feito. Todos, sem excepção, tornais a minha pessoa mais rica em valores. #

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Ana Cláudia Domingos

Talvez por ter nascido na Guarda, a cidade mais alta de Portugal, vivo com a cabeça nas nuvens (quase) a tempo inteiro. Para quem vive na cabeça nas nuvens, só isso, não chega. Falta o charme de exprimir emoções e sensações. Enquanto escolha, foi na saúde a minha aposta de vida. Na escrita e outras artes, como na música, encontro aconchego e pó mágico para esta vida. Longe de ser perfeita, enfim.... sou eu!

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3 Comments

  1. Ana Claudia só posso dizer parabéns e obrigado por seres como és!!! Muito especial és também tu, beijinho grande.

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