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Penso, logo existo

Dezasseis anos depois do virar do milénio, contam-se os dias para o final do ano e alinham-se as notícias para lembrar tudo aquilo que foi pódio durante os últimos 365 dias. E numa data em que as retrospectivas fazem manchete, importa lembrar que a crise foi, provavelmente, a palavra mais referida. Mas afinal, porque se fala tanto de crise? Porque se culpam tanto os dirigentes políticos? Porque se desespera perante a economia agoniante? Estará a crise somente nesta esfera ou estender-se-á a outros campos?

Para Martha Nussbaum, uma filósofa Norte-Americana, a resposta é clara: sim, a crise estende-se a outros campos e deve denunciar-se esse alcance: a crise encontra-se na educação e na cultura, pela forma como (não) chega aos indivíduos. Que reformas educativas foram feitas no sentido de melhorar o raciocínio criativo? A avaliar pelos documentos do Ministério da Educação, nenhumas: reduziu-se o número de horas em disciplinas como as artes e a educação visual ou tecnológica, a educação artística continua no fundo da tabela em relação ao número de horas semanais leccionadas e a partir do 10.º ano denota-se uma inexistência quase total ao nível da oferta educativa relacionada com artes e ciências humanas que são, para Martha, dois elementos obrigatórios na resolução da equação do progresso.

Se é agnóstico em relação a esta temática, é provável que se esteja a interrogar sobre as artes e as ciências humanas como sinónimo de progresso. Martha Nussbaum esclarece-o: “Promover a democracia através das artes é a onda do futuro.” E porquê? Porque “um sistema de educação precisa de preparar os estudantes para a cidadania activa. Para que a democracia sobreviva, os jovens têm de aprender a discutir e a deliberar.” Analisada a questão resta-nos uma dúvida: quantos de vocês apontam o dedo a quem não intervém? Quantos culpam a actual juventude da falta de valores e da descrença perante o sistema político e democrático?

Mantida a incógnita da resposta, a veracidade da questão não se pode negar. A educação continua a ser pautada pelo sistema da rentabilidade que promete equipar as gerações vindouras com ferramentas úteis à resolução de problemas. E sim, a juventude de hoje é, talvez, a mais bem qualificada de sempre. Mas será a mais crítica, a mais interventiva ou, até, a mais livre? Quando só os números importam, ensinam-se (apenas) os alunos a ser economicamente produtivos, esquecendo-se de que, antes de mais, eles devem ter conhecimento e ser intelectualmente críticos. Nas escolas esquece-se esse caminho e a ignorância senta-se no lugar da crítica, onde pouco se cultiva o espírito de debate ou mesmo a livre discussão de ideias. Assim, privilegia-se o programa e cumpre-se o sumário à risca, sem espaço para intervenções conjecturais. Martha lembra que o caminho do progresso se tem feito no sentido errado e defende “um tipo de educação que solicita a reflexão e a imaginação.” Posto isto, será muito mais fácil atingir a unificação social, o desenvolvimento intelectual e a intervenção de todos para que a democracia o seja, realmente.

Para garantir a sobrevivência de um espírito interventivo e o desenvolvimento da inteligência emocional dos indivíduos, é preciso alertá-los para o investimento na aceitação do outro, na liberdade e na curiosidade saudável pelo desconhecido. Para lá de todas as matérias, existem outros assuntos a estudar, outros temas a pesquisar e outras culturas a conhecer. Perscrutar os campos densos da democracia é fundamental para que se construa uma cidadania activa e Martha confirma esta realidade: “Para ser um cidadão responsável necessita de algo mais: de ser capaz de avaliar os dados históricos, de manipular os princípios económicos e exercer o seu espírito crítico, de comparar diferentes concepções de justiça social. Dispor de uma série de factos sem ser capaz de os avaliar, pouco mais é que ignorância.”

E apesar de 2013 continuar a ser um ponto de interrogação a todos os níveis, desde o económico ao social, podemos edificar a ideia de que é urgente agarrar as artes para alcançar uma democracia em pleno. Por isso, e se o poder de encaixe ainda o permitir, propõe-se uma reflexão sobre as mesmas, como forma de eliminar as lutas de classes e promover a integração de todos. Apenas através do reconhecimento de uma diferença conseguimos definir uma qualidade e somente através da aceitação da mesma conseguimos coexistir com o outro. Para isso, Martha deixa a receita: “A ideia de que cada um possa pensar por si próprio e relacionar-se com os outros num espírito de respeito mútuo é essencial à resolução pacífica das diferenças, tanto no seio de uma nação como num mundo cada vez mais dividido por conflitos étnicos e religiosos.”

Para lá das barreiras da cidade, do país e da nação, há coisas a acontecer, ideias a formarem-se e governos a serem derrubados. Para construir um regime é necessário edificar ideias, promover a cultura e olhar para as artes com menos desprezo do que aquele que ainda existe. Regar a juventude desta seiva permite fomentar a disciplina, a responsabilidade e o diálogo. Mas terá sido 2012 rico neste desenvolvimento? A par do número de fábricas que fechou, quantas mentes seguiram esse caminho? A par do número de estradas que se fizeram, quantas rotas para novos destinos foram fomentados nos indivíduos?

Se o destino não falhar, as redacções dos jornais já se preparam para as previsões do PIB para 2013, vários economistas já foram convidados para ir a estúdio falar sobre o crescimento económico para o primeiro trimestre do ano e já existem teorias sobre as subidas ou descidas de indicadores básicos, como o desemprego, a saúde ou a educação. É provável que a imaginação se ponha à prova para construir análises (quase) perfeitas destes indicadores, mas será que eles realmente importam, numa altura em que as carências sociais e educativas aumentam? Martha salienta que “se o produto interno bruto de um país crescer a cada ano, mas a percentagem de pessoas privada de educação básica, saúde e outras oportunidades também, estará esse país a fazer, realmente, um progresso?”

Não há resposta concreta para este problema, da mesma forma que nenhuma vidente consegue ler os traços das mãos do ano do próximo ano. Espera-se que no campo do amor os indivíduos se aceitem melhor e resolvam os problemas de comunicação, que no trabalho o desenvolvimento e a cooperação sejam tópicos do dia e que na saúde se construa um bem-estar e uma qualidade de vida coesos. É urgente repensar o progresso, a evolução e a participação activa dos cidadãos para que 2013 seja um ano feliz e próspero.

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Ana Guedes

Entre o Porto e Leiria, estou sempre de malas feitas para partir, para ficar ou para conhecer. Apaixonada por letras, cultura, fotografia e o mundo, tenho como fio condutor vital as histórias: as que ouço e quero contar, as que vivo e quero escrever

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