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Paulo Sá: “O papel da filosofia é o de contribuir para nos libertarmos dessas ideias feitas”

Professor de Filosofia, Paulo Sá sobe ao palco da TEDx FigueiroDosVinhos para falar da utilidade desta área do saber. Ao Repórter Sombra, o Professor falou acerca do ensino da Filosofia em Portugal e do lugar que esta ocupa na vida de todos nós.

Qual é, na verdade, a utilidade da Filosofia?

A Filosofia proporciona, ou deve proporcionar, uma abertura de horizontes, o desenvolvimento da reflexão, do pensamento crítico, devidamente fundamentado, bem como das acções que deles derivam. Implica uma tomada de posição, um compromisso com valores, uma actividade que se deve manifestar no exercício da cidadania, na defesa dos direitos e no cumprimento dos deveres que temos enquanto elementos constituintes de uma sociedade.

Acredita que o ensino da Filosofia em Portugal ainda não está suficientemente evoluído?

Este é um caminho que tem de se estar sempre a percorrer, pois constantemente, num mundo acelerado como o em que vivemos actualmente, vão surgindo novas questões e problemas. Julgo que se poderiam abordar mais vezes estas “questões actuais”, mas evitando que os assuntos se tornem meras “conversas de café”, em que se dão várias opiniões, muitas vezes, pouco fundamentadas, presas a preconceitos e a estereótipos. O papel da filosofia é, entre outros, o de contribuir para nos libertarmos dessas “ideias feitas”.

Por que é que há tanta dificuldade em levar os alunos para a Filosofia, especialmente no secundário?

Não partilho totalmente desse ponto de vista. Ainda assim, julgo que o desinteresse pela Filosofia pode derivar de alguns conteúdos leccionados serem considerados pouco atractivos, por parte de alguns alunos, bem como da sua indiferença face à realidade que, aparentemente, não lhes é próxima. Para além disso, a reflexão, a procura das causas, implica esforço intelectual; para alguns, é mais fácil decorar, armazenar informação do que assumir uma posição crítica face à realidade. A quantidade de informação imediata e mediática com que somos “bombardeados” através dos mass media e das plataformas digitais é, de certo modo, inimiga da reflexão que a Filosofia exige.

Quando dá aulas a alunos de primeiro ano na faculdade, sente que eles vêm preparados para discutir?

O meu trabalho com alunos da faculdade acontece quando eles estão a realizar o estágio pedagógico, após terem terminado o curso e se têm de submeter à parte prática – a da lecionação da disciplina no secundário. Neste contexto, não há grande lugar para a discussão, uma vez que a sua grande preocupação é lecionar os conteúdos da melhor forma, centrando-se nos recursos e nas estratégias a utilizar. O facto do professor orientador e avaliador ser, por estes, considerado “um mestre”pode inibir a discussão, pois poderia ser visto como a questionação da sua posição.

Na sua opinião, porque é que há muitas pessoas que ainda não conseguem apreciar e compreender a Filosofia?

Há várias razões para tal acontecer. Em primeiro lugar, há um preconceito que a considera como algo desligado do mundo, da vida, como algo que não tem interesse nem traz qualquer proveito. Em segundo, porque uma boa parte do discurso filosófico é hermético, de difícil acesso, cujo sentido não é imediatamente captável – exige um esforço de interpretação que muitas pessoas não têm disponibilidade para realizar. O problema que se coloca na filosofia é o mesmo que se passa em relação ao cinema ou à música – as preferências vão, de imediato, para aquilo que é fácil de absorver e que nos entretém, nos distrai e nos aliena.

Gostaria de saber a sua opinião: Michel Onfray tem um projecto que representa uma certa concepção de filosofia – aquela que a encara como um modo de vida, por oposição a tomá-la por uma disciplina teórica entre outras tantas. Considera possível tornar a filosofia um modo de vida, uma vez que ela segue sempre sendo uma actividade teórica, inseparável da argumentação e da análise conceitual?

A filosofia, na minha perspectiva, implica sempre uma dimensão teórico-prática e, nesse sentido, não pode deixar de interferir no modo como se vive. Vou dar um exemplo – A relexão sobre os valores da justiça ou da honestidade assume a sua importância na medida em que, nas minhas acções eu pretendo ser justo e honesto. É claro que para defender a minha ideia de justiça, ou que é justo que algo seja de determinado modo, tenho de argumentar, isto é, de apresentar as razões justificativas da minha posição.

De que forma o poderíamos fazer?

Julgo que há que agir de acordo com os valores que consideramos correctos, aos quais devemos aderir após uma análise reflexiva, livre e despreconceituada. Há, igualmente que ouvir e compreender pontos de vista diferentes e examinar os seus fundamentos. Assumir a liberdade e a diferença, a responsabilidade, os direitos, o respeito pelo outro e pelo mundo parecem-me ser bons princípios

Qual a força da filosofia dentro de uma sociedade profundamente massificada?

A tarefa da filosofia é, como já disse anteriormente, sempre inacabada. É sempre necessário combater a indiferença, o conformismo, o “espírito da carneirada” ou, como disse Nietzsche, “a moral do rebanho”. As forças instituídas, os poderes dominantes, tentam constantemente produzir mecanismos conducentes à manutenção dos seus privilégios, mas temos exemplos, desde a luta pelos direitos civis nos E.U.A. aos movimentos ecologistas, que mostram que determinados princípios filosóficos podem mudar o mundo.

Hoje em dia, as pessoas continuam a procurar na filosofia uma sabedoria, uma orientação de viver, ou procuram nela outras questões?

O campo filosófico, pelo menos na sua forma espontânea, é inerente ao ser humano, quanto mais não seja quando se coloca o problema da morte, ou da avaliação da correção ou da incorreção de determinado acto. Nesse sentido, nunca sabemos se a nossa resposta é verdadeira, ou se, na verdade atingimos algum grau de sabedoria. Não há certezas, neste campo, apenas convicções que a filosofia pode ajudar a sustentar.

Em que sentido é que a Filosofia é um tópico fundamental no desenvolvimento do ser humano?

Julgo que as respostas às questões anteriores bastam para responder a esta.

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Joana Veríssimo

Licenciada em Jornalismo e Comunicação e com uma paixão enorme pela escrita.

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