Crónicas

Partiu e agora?

Estava à pressa, lavava a louça com rapidez e audácia e distraída como sou, quando ia a pousá-la eis que aconteceu o pior. Na minha cabeça ecoou um barulho idêntico a uma explosão nuclear. Estava nervosa. Com medo de como tudo podia vir a ser a seguir. Parti o prato. Ou ele quis partir-se.

Culpei o azar. A azáfama da vida. A velocidade a que ela corre. Havia cacos por todo lado. Mais dos que eu desejava. Alguns que nem eu própria conhecia ou que já me haviam ter sido apresentados.

Naquele dia foi visto com “o” prato e não como mais um dos milhares que constituem o enxoval. Não tinha marca. Deixaram que se desprovesse da sua inicial origem e passou a ser de marca branca como assim teria sido sempre. Do povo. Aquele que tinha proporcionado inúmeras vezes momentos de recarregamento de energia e que juntou diversas vozes à mesa, tinha partido.

Recordo-me hoje, com distância, que a princípio passei descalça no sítio onde tinha acontecido o sucedido. Mesmo depois de saber que não se anda descalça, quando se partem coisas. Os talheres, sempre únicos e marcados individualmente mantiveram-se no mesmo lugar. Mas para a questão existencial de muitos, não havia qualquer sentido para que lá estivessem.

Durante tempos e tempos os guardanapos deixaram de ser postos. O copo era vazio de palavras e a faca era escondida. Houve alturas em que a fome era nula, porque aquele era o prato e por mais que existissem outros milhares nenhum substituía cada lasca que aquele já tinha. Cada risco causado pelo barulho irritante da sociedade. Era um prato sim dizem vocês. O meu. O lugar ocupado deixou de ter cerâmica que o preenchesse.

Comia-se sobre a mesa, à presa para não recordarmos a falta que ele nos fazia. Do azar da vida guardei alguns cacos e fiz questão que ficassem pendurados na parede. Como aquelas senhoras que expõem a travessa da vista alegre uma vez que é importante para alguém que constitui uma casa tê-la. Mesmo os bocados mais pequenos foram guardados. Um por um.

Porque, quando se parte, não só ficam os cacos. Deixa-se também no chão todo o que já se comeu lá. As discussões geradas à mesa porque o jantar é peixe cozido. E o desejo da louça não ser frágil o suficiente para no momento em que caí não se voltar a levantar.

Aliás, mentiria se dissesse que tinha sido a primeira vez que tinha lavado a louça à pressa. Que me descuidava e deixava cair no chão. Mas como de todas as outras vezes ele se manteve em pé sem uma única lasca. Pensei que fosse assim para sempre. O meu prato onde antes teve bolos de chocolate gigantes, tartes magníficas de pastel de nata, lasanhas pré-compradas e fruta fresca cortada com amor, hoje tem a certeza que de todas as vezes que lavei a louça, aquela foi a mais enriquecedora.

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