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EuropaPolítica

Partir a casa comum Europeia

Sinto, com alguma regularidade, a necessidade de esclarecer a minha posição em relação ao projeto europeu, porque o critico sem pudor. A União Europeia é um dos maiores – e, passe a subjetividade, melhores – projetos políticos que existiu na história da humanidade. A base moral desta unidade radica numa lógica solidária, que deve {ou pelo menos devia} satisfazer o nosso íntimo intelectual, independentemente da cor partidária e posicionamento ideológico. Isso não significa que lhe devamos conceder uma irresponsável isenção de escrutínio, assumindo que a condução desta é sempre a melhor. A importância de ser exigente, sem que isso nos precipite obrigatoriamente para campos antieuropeístas, deve ser sublinhada e, diria eu, estimulada. A falta de uma frente de oposição europeísta à linha discursiva oficial da União Europeia é, muito provavelmente, uma das principais razões pelo crescimento das forças radicais e, em simultâneo, pela falta de ritmo na implementação de reformas essenciais para a nossa convivência.

Atualmente lidamos com um conjunto de desafios paralelos que desgastam a compreensão pública da União Europeia e do propósito desta. Falo dos grandes fluxos migratórios, requerentes de asilo e refugiados, dos problemas conjunturais da moeda única e o seu impacto nos diferentes Estados-membros, da subalternização dos princípios do direito e da democracia em alguns países… há muito por onde escolher e tenho a certeza de que nada disto é uma novidade. Infelizmente, ao eleitor comum sugere-se que a única alternativa ao atual é votar contra a União Europeia – e a culpa neste sentido é dos próprios partidos e não dos cidadãos. A criação de um cordão sanitário entre pró-europeístas e eurocéticos foi fomentada e, pior, enaltecida pelos primeiros. Qualquer discordância, qualquer crítica é recebida como uma radicalização do discurso hostil e não produtiva – o que não deve, nem pode ser verdade.

É verdade que o projeto europeu surge, sobretudo, dum consenso ao centro, duma cooperação longa entre os sociais-democratas de centro-esquerda e dos democratas-cristãos do centro-direita. Esta via tem muitos factores positivos, porque representa um certo acordo entre visões de sociedade, representa um compromisso entre classes para a construção dum projeto que seja universal e bom para todos – esta foi a lógica subjacente aos avanços consensuais na política europeia. Contudo, determinados períodos históricos não aceitam este ponto intermédio e exigem um posicionamento mais vincado. Todos conseguimos concordar em relação aos direitos humanos, todos conseguimos concordar em relação à democracia, mas dificilmente se reúne um consenso amplo em várias outras instâncias: destino dos fundos europeus, legislação laboral, impostos, etc.

Atenção, é evidente que isto não significa que eu seja um adepto do caos ou que excluo cooperação política ao centro. Na verdade, há temas que justificam uma base de apoio alargada, alguns a todo o espetro político-partidário, como os paraísos fiscais, por exemplo. O que não pode persistir é esta perversa tendência de catalogar qualquer crítica como um atentado, como extremismo e como antieuropeísmo – é essa prática que admite e promove a monopolização da oposição pelos movimentos de cariz manifestamente radical. Perante a ausência de respostas alternativas dentro do quadrante europeísta – que rejeitem o rumo atual mas se dediquem à construção da sua visão dentro da União Europeia – os eleitores são empurrados para as periferias do espetro político.

Eu posso arrumar a minha casa, posso mantê-la como está ou posso, numa explosão furiosa e inédita na minha pessoa, partir tudo. O problema é quando somos forçados a optar exclusivamente entre as duas últimas, quando nos dizem que não há arrumações possíveis ou que estas estão equiparadas às ações de vândalos que a querem partir. Gosto demasiado da União Europeia para sequer admitir esta última opção, mas também há muitos quartos que precisam de uma bela limpeza de Verão. Enquanto fingirmos que a realidade europeia se resume ao statu quo ou à revolução fanática, estamos condenados a lidar com populismo e com o sucesso de movimentos mais radicais. Isso não tem de ser verdade e contaminou por completo o debate europeu e, até agora, também o nosso progresso.

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David Gil Gonçalves

A política é o vetor que une os meus principais interesses: economia, sustentabilidade, comunicação e filosofia. Gosto de análises imparciais, de ouvir e ler um pouco de tudo, porque não acredito em preto e branco. Nos meus tempos livres podem encontrar-me a fazer desporto, ler ou, como todos os outros humanos do século XXI, a viajar.

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