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Partilhar não é favor. Ou não saberás tu o que é amor?

Não posso deixar de te dizer o quanto estou desiludido contigo. Eu desiludo-te assim como tu a mim. E não aches que cai sobre nós algum tipo de desonra. Queremos lá nós saber disso. É preciso é fazer o que queremos, é imperativo ter o que desejamos. Eu quero guardar o que não posso perder e tu não queres perder o que te custou tanto a ganhar. Não deixa de ser uma simbiose, perfeitamente humanista, que se veste de um egoísmo adornado por laivos de atitudes que equilibrem a balança. Fazemos um pouco daqui, tiramos um pouco dali e aguardamos pacientemente que nos seja consagrado um lugar no céu. Andamos pois nesta tremenda luta de guardarmos o que na verdade nos é tão desnecessário, que a própria desnecessidade é um utilitário. Partilha o pouco que tens é frase melindrosa para dezenas de milhares de ouvidos. Mas atenta: Ninguém se casa com carros ou casas. Ninguém se casa com televisões ou telemóveis. Ninguém se casa com restaurantes ou bares. Ninguém se deita e se deleita com vestidos ou sapatos de marca. Mas todos casam com o dinheiro e deixam o verdadeiro amor a meio.

A nossa grande preocupação é guardarmos, ir amealhando, ir semeando e colhendo para nós. É a história do ir fazendo, do ir tentando, do ir ajudando ou simplesmente, ir passando e jamais olhando. A inconstante insatisfação paira em todos os momentos, por todos os lados. Há uma certa teimosia do não à partilha que tantas vezes acontece. Este pressuposto grito de não ao cuidado, apenas demonstra a fraca qualidade como humanos que muitos de nós ainda carregamos. O medo de tirar de nós reveste o outro com o mais belo caixão…de papelão. Em cada negação, em cada desvio do olhar, cresce a presunção de que valemos muito mais do que algum pobre desgraçado que caiu nas malhas da sua própria inconstância. Na verdade e em verdade estamos pouco nos lixando maioritariamente para o outro. Afinal quem é o outro se não é nada do que eu mesmo sou?

Esta presunção de que o que me custa tanto a ganhar ou ter é o meu sinónimo de felicidade pessoal.

Há um medo de que nos falte mais do que um pedaço de pão na mesa, mais do que um naco de carne, mais do que uma dose de amor, mais do que um abraço sentido ou um beijo roubado. Há um receio de perda, que nos tira o juízo e nos deixa sem piso.  Tornamo-nos solidários, não com o outro, mas connosco mesmos. É uma solidarização criminosa e tanto ou quanto gulosa, para a manutenção do nosso eu, em detrimento do outro. A regra geral que se aplica é um rotundo não ao nosso sofrimento! Abaixo o nosso sofrimento! Que a desgraça seja a pertença do outro! Jamais em tempo algum, tirar o pão da minha mesa, para partilhar com o outro. Ele que se arranje. O medo de ficar no vazio é constante. Agradecemos ao alto o que temos na mesa, mas esquecemo-nos de dizer muitas vezes, que na porta ficou aquele que suplicou e que não se honrou.

Nesta arte da partilha, quantas vezes não ouvimos em conversas com amigos ou outros, aquando das nossas desgraças, da nossas tristezas, dos nossos infortúnios, das nossas súplicas a frase do “pois”. “Pois é difícil”. “Pois é chato”. “Pois, deve ser duro”. O pois é a consagração do: “Não quero saber disso para nada.” Ou nada posso fazer. It’s your life…not mine.

Porque de contrário o verdadeiro resumo da partilha, de um sentido que se deduz como cuidado seria transformar este “pois” que é tão desonroso e escabroso no: “Em que posso ajudar-te?”. Esta ideia de ouvir o outro na partilha da sua dor e solidarizar-me com ele com um “pois”, é a desclassificação total, tanto do termo “amizade” como cuidado ou devida atenção que carece de atos de ação. Por isso mesmo o desenrolar entre quem faz a sua suplica e entre quem escuta com um “pois”, nada mais é do que o silêncio do vazio. É a história do nada. Daquele que suplica e nada obtém e daquele que escuta e nada faz. Há uma noção de partilha que parece que muitas vezes é classificada mediante uma troca de favores. Partilha não é um negócio, é um ato de amor, perante a dor.

Existe um medo enraizado de dar a mão com a ideia do pressuposto, de que ficarei em maus lençóis, em sofrimento tal com o outro, se me predispuser a ajudar. O cuidado pelo amigo acaba por ser ridicularizado. Esse chamamento de amizade, versus amor a ter pelo outro como ato solidário de se escutar, nada mais é do que o próprio descalabro humano. Aquele que apena ouve sem puxar da sua espada para entrar em ação na suplica do outro é testemunha do seu próprio crime e do assassinato do outro.

Sabemos ir a restaurantes de escolha “gourmet” muitas vezes, ir a um cinema, passeios, viagens, juntar doses e doses de dinheiro como forma de alimentar tantos desejos nossos. É justo atribuirmos a nós uma certa qualidade de vida? Com toda a certeza que sim. O único problema com este tipo de justiça do “eu” é a demasiada atenção que damos a nós mesmos, como deuses do Olimpo, imortais e necessários no mundo. E aquando da pergunta imposta, tantas vezes requerida por nós como: “Serei eu uma pessoa boa?” A constatação da mesma é traduzida sempre numa afirmação que se impões como de inteira justiça ao sim! Bons? God says: “ Please do your accounts again…” A moralidade e ética humana num pressuposto cientifico na tentativa para encontrar esse teu sim á bondade junta-se para te dizer: “ Algo vai errado no teu plano de partilha…”

Em tantas situações somos incapazes de nos despirmos dessas necessidades materiais que temos como nossos grandes amores, para vestir de alegria, ajudar com mestria aquele que lágrimas verte e que deduzes “A mim nada me compete”. Como forma de nos mostrarmos solidários, emprestamos o ombro que dizemos amigo. Emprestamos a presença como ato de suavizar a dor do outro. Chamamos de partilha e vivemos nessa mentira.

E o que é partilha afinal? O que significa realmente ajudar o outro?  É preciso que se entenda que te despires de toda a tua roupa como forma de ajuda ao outro, consagra o teu crescimento, consagra a abertura do teu espírito para uma visão mais solidária. Preocupas-te tanto com as roupas de marca, onde podes ir comer, que lugar escolher, que objeto podes comprar que te distraia durante semanas ou meses, mas muita vezes somos incapazes de nos despirmos dessa ideia material e ajudar aqueles que mais necessitam. Porque o que interessa é que o nosso mundo brilhe. Diretamente temos pena, compreendemos. Indiretamente, vamos procurar numa loja mais próxima o verdadeiro sentido para a nossa vida e pressupomos nós sistematicamente que partilhamos o sonho, mas na verdade abandonamos os olhos. Porque olhos que não veem… é coração que não sente…

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Bruno Fernandes

Nascido a 29 de Dezembro de 1975, natural de Lisboa, Bruno Fernandes, bloggler ativo há já alguns anos, dedica-se essencialmente à luta pela mudança interior e novas formas de entender o ser humano através da sua experiência de vida. Cinéfilo ativo e leitor assíduo.

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