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Parenthood

Confesso: chorei aproximadamente nove vezes, enquanto via o final de série de Parenthood. Quatro dessas vezes foram causadas pela combinação entre a luz do ecrã com computador e os maravilhosos momentos entre os vários Bravermans. Outras quatro vezes foram choros sentidos, repletas de saudades e alimentadas por seis temporadas em que me apaixonei por completo por estas personagens e por todos os acontecimentos que viveram.

Até que chegou… chegou um momento em que as lágrimas me caiam pela cara abaixo, durante 5 minutos, ininterruptamente. Um momento que começou com a palavra “Zeek” e só parou até que todos os flash-forwards terminaram e o meu ecrã ficou totalmente negro. Um momento que Parenthood mereceu ganhar ao fim de 103 episódios, que a transformaram no drama televisivo com mais compaixão e mais subestimada da actualidade.

Tal como muitos fãs da série criada pelo maestro das emoções, Jason Katims, o podem afirmar, esta era uma série especial. Soube desenvolver temas relacionados com o cancro, o autismo e o envelhecimento com toda a dignidade possível. Soube tratar das relações inter-raciais, a adopção e o divórcio com respeito, uma escrita espectacular, uma produção intimista e actuações sem paralelo. Desde o momento tocante no episódio piloto, em que Adam diz, em lágrimas, ao seu pai que acha que o seu filho tem algo de errado, ao casamento de Sarah com Hank neste final de série, Parenthood parecia entender algo na perfeição. Ele entendia na perfeição os nossos sentimentos.

Por isso, quando o episódio final começou a dar e os primeiros acordes da música de abertura (“Forever Young”) começaram a tocar, fazendo eco do título perfeito que lhe foi dado (“May God Bless and Keep You Always”), o nó na minha garganta começou a formar-se, preparando-se para o momento semanal de catarse em que a série se havia transformado para mim e para muitos outros fãs. Afinal de contas, o ritual de choro era um dos principais motivos que nos levava a seguir as aventuras da família Braverman. A sua capacidade de nos fazer chorar era tão grande que admiro-me que não existisse um contrato com alguma companhia de lenços, como a Renova.

No entanto, focar os elogios na forma como nos conseguia fazer chorar é um pouco redutor para a qualidade que a série apresentou constantemente, quando o seu grande objectivo sempre foi fazer-nos estar em contacto com as nossas emoções. É incrível como uma série consegue capturar numa história o que nos torna humanos e as nuances e a complexidade emocional do que significa fazer parte de uma família – a alegria, a brutalidade, a proximidade, a tensão e, claro está, a tristeza. Era algo de que estava perfeitamente ciente, sendo que vivi, ao longo de todas as temporadas, as alegrias, as tristezas e tudo o que as separa em simultâneo com cada uma das personagens.

No seu último adeus, Parenthood conseguiu ser um deleite em vários momentos. Ao mostrar-nos todos a correrem freneticamente de um lado para o outro, para estarem prontos para o casamento de Sarah a horas. Na forma desoladora como Craig T. Nelson disse a frase “You take care of my daughter”, quando Hank pede autorização a Zeek para casar com a sua filha. Ou o momento em que Zeek se apercebe que o casamento está a ser apressado, de forma a que seja possível ele estar presente. Foi praticamente impossível não sorrir, com lágrimas nos olhos, ao ver Max a, finalmente, dançar com uma rapariga, enquanto Kristina e Adam observavam-no à distância, felizes com esta conquista do filho. Porém, nada se compara à conversa entre Zeek e Sarah no carro. “Have I been a good father?”, perguntou o primeiro. “The very best”, respondeu a filha.

Este é um outro ponto com que é possível relacionarmo-nos com o argumento e o desenvolvimento destas personagens: elas têm as conversas que todos gostaríamos de ter com a nossa própria família. Ou as conversas que nos arrependemos de nunca ter tido. Ou fazer-nos desejar que tivemos este género de relação com os nossos entes queridos. Ou, então, reconhecemos nesta família o tipo de relação especial que temos com alguém, apesar de nenhumas palavras de apresso nunca terem sido ditas.

É, portanto, normal que, ao longo das várias temporadas, algumas histórias tenham criado uma ligação pessoal com os espectadores, tornando, por vezes, difícil o seu visionamento. É possível que alguém tenha tido um parente que tivesse lutado contra o cancro com a mesma força, elegância e humor que Kristina teve. É possível que alguém conhecesse o caso de um casal que enfrentasse os desafios inerentes à criação de uma criança com Autismo. É possível que alguém se revisse no realismo existente no casamento de Joel e Julia, ou na complicada beleza entre a relação entre mãe e filha, como a que Sarah e Amber tinham.

Esta é uma série que conseguia juntar, milagrosamente, uma família com mais de uma dúzia de pessoas para um lanche e, de repente, damos por nós a chorar, enquanto os vemos a interagir. E o que poderia acontecer num lanche, que fosse assim tão tocante? O amor entre estas personagens. É o amor. Será que alguma vez existiu um conjunto de actors que aparentavam estar tão profundamente apaixonados pelas suas personagens? Será que alguma vez existiu um conjunto de actores tão bons a transmitir emoções genuínas?

No que toca aos actores, era possível passar uma eternidade a falar sobre o talento que todos demonstraram ter. Sobre a assombrosa interpretação de Max Burkholder de uma criança com autismo. Sobre o brilhantismo da representação de Monica Potter, como Kristina (que viu sempre a sua performance nunca ser nomeada para um Emmy), uma personagem a quem imbuiu uma emoção palpável e uma força inspiradora. Sobre a revelação que Dax Shepard foi na pele de Crosby e sobre a forma genial como Ray Romano nos conquistou com a sua interpretação cheia de alma com que deu corpo a Hank. E no que toca ao imenso talento de Craig T. Nelson, que conseguiu roubar-nos e partir-nos o coração vezes sem conta nesta última temporada, não há palavras que o consigam descrever.

Este foi uma série excepcional, que soube criar um final incrível. Pode ter terminado da forma mais expectável, com a morte de uma personagem que foi sempre o elo de ligação entre todos os elementos da família, mas soube demonstrar a resiliência de uma família que conseguiu continuar o seu caminho, após essa morte.

É bom ver que o final de Parenthood acontece, quando os fãs ainda conseguem fazer-lhe largados elogios e elevar-se para aplaudir a sua excelência. Aplausos e uma mão cheia de choros. Tantas lágrimas a eles dedicados, que nos ensinaram que o Amor está sempre ao nosso lado.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

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