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Palavras apunhalam, palavras incendeiam

“O alentejano não vê o suicídio, ou melhor, não o encara enquanto fenómeno ilegítimo ou passível de criar dilemas.” A frase faz parte do ensaio Alentejo Prometido, de Henrique Raposo e, em março de 2016, constituiu uma das ideias que gerou uma polémica mais social do que literária. Alentejanos, mesmo sem ter lido o livro, insurgiram-se contra as palavras do autor. Na apresentação da obra, um grupo de cantares entoou a moda Alentejo, Alentejo, em sinal de protesto, e, nas redes sociais, surgiu a fotografia de um indivíduo a queimar alguns exemplares do livro.

O livro “Alentejo Prometido”, de Henrique Raposo, gerou polémica

Ora, se, por um lado, podemos olhar para o episódio como uma reacção desproporcional de cólera, por outro, a situação criada torna evidente que escrever é um acto de irreverência. O poeta Eugénio de Andrade já há muito que nos mostrou o que está em causa: “São como um cristal as palavras. Algumas, um punhal, um incêndio.” E, em Portugal, não faltam casos em que se apunhala e incendeia através das palavras.

Facebook e Twitter não passam, obviamente, ao lado deste fenómeno. Aliás, são, nos nossos dias, espaços privilegiados para se manifestarem opiniões com um alcance nunca antes visto. Ao fazê-lo, quem escreve sujeita-se a comentários de apoio ou a críticas. E a actriz Maria Vieira é um grande exemplo desta realidade.

Elogiou Donald Trump, intitulou Salvador Sobral de “idiota encartado que não diz o que sabe nem sabe o que diz” e defendeu que Marcelo Rebelo de Sousa “ficará para a história como o pior Presidente que Portugal conheceu”. As palavras da “Parrachita” passaram pelo escrutínio público e houve quem a acusasse de não ser ela mesma a autora. Contudo, no final, tudo resultou na publicação do livro “Maria no País do Facebook“, que compila os textos mais polémicos da actriz.

Maria Vieira

De volta ao mundo das polémicas que têm a ignição na literatura, José Rodrigues dos Santos é a figura que, actualmente em Portugal, talvez melhor personifique a ideia de que as palavras são capazes de criar chama. Com efeito, na revista “Sábado” de 21 de Setembro de 2017, o jornalista Marco Alves dizia que o autor estava a “abalar a civilização ocidental”. E como é Rodrigues dos Santos capaz de tal? Fazendo protestos políticos? Juntando-se a manifestações espectaculares de organizações não-governamentais? Nada disso. José Rodrigues dos Santos “abala a civilização ocidental” através dos livros que escreve.

Neles, os diálogos criados servem para ensinar um leitor pretensamente ignorante, sendo que, através do deslindar das narrativas, somos confrontados com afirmações que dizem que Humberto Delgado foi salazarista, que o fascismo e o nazismo vêm do marxismo, que há ADN de Jesus ou que Maria não era virgem.

José Rodrigues dos Santos

Esta última onda de declarações literárias em torno da religião leva-nos para Abril de 1992 e ao acentuar da polémica em torno do Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago. A Igreja disse que o excomungaria, caso fosse católico, António Sousa Lara, sub-secretário de estado da cultura, excluiu o livro da lista de candidatos ao Prémio Literário Europeu e Saramago respondeu que estávamos a viver o “regresso da Inquisição”. Todos sabemos como a história acabou: Saramago mudou a residência para Lanzarote, em Espanha, e, em 1998, ganhou o Nobel da Literatura.

José Saramago

Histórias assim abundam no mundo de quem escreve e tal facto está muito relacionado com a nossa própria humanidade. Afinal de contas, sempre nos mostrámos resistentes à inovação. Houve quem resistisse a viajar de comboio com medo de ficar estrábico pela velocidade atingida de 20 quilómetros/hora. Houve quem desconfiasse que tomar banho abriria os poros causando doenças.

Serve esta analogia para mostrar que é perfeitamente normal que nos causem estranheza os ideais que abalam as nossas crenças. Ou que, no limite, tentemos silenciar as palavras que revelam a realidade que teimamos em velar. Porque primeiro mudam-se as ideias e depois transforma-se o mundo. E sabemos bem que as palavras são um meio poderosíssimo de manifestação de ideias. Ideias que podem desencadear a mudança.

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Florbela Caetano

Gosto dos mundos que se dizem contraditórios: a publicidade e o jornalismo. Gosto de pensar que os dois nos podem ajudar a viver num mundo melhor. Gosto de sentir que informar pode repor a serenidade no meio de caos. Deixo-me fascinar com a imagem e perco-me na escrita. Entre todas as alianças de universos ao nosso dispor, quero dizer as palavras e criar imagens com o som.

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