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Pais Separados – Filhos Amordaçados

[O que Poderia ser uma carta de um filho(a)]

“Queria tanto que aqui estivesses. Eu entendo, ainda que nunca esteja pronta a perceber o porquê de tu não estares, mas isso não é importante. Eu amo-te. O que mais posso dizer se é a única coisa que importa realmente dizer? Fazes-me tanta falta pai. Oiço as discussões com a mãe, a forma como se tratam. Cada um esgrime opiniões. Ameaças, irresponsabilidades, tentativas de dizer quem e porquê um ama mais do que o outro. Engraçado…nunca pensei que o vosso amor fizesse de mim uma bola de futebol. Ando de um lado para o outro numa luta de desejos, de sentimentos, onde todos definem as suas regras.

O que merece mais e o que merece menos. Eu percebo a vossa separação, não entendo simplesmente é a ostentação dos egos no amor por mim. Não deveria ser incondicional? Eu não quero o vosso dinheiro, não preciso das vossas discussões. Eu não carrego ainda desonras, traições, palavras desmedidas. Eu não sou ainda irresponsável, não sou dente por dente, olho por olho. Eu não sou a vossa irresponsabilidade, eu sou a vossa responsabilidade.

Entendam… foram vocês que nos idos tempos do ‘Bem Bom’, me trouxeram ao mundo. Não pedi discussões, maus tratos, gritarias. Não pedi nem mais e nem menos daquilo que vocês levaram avante para vir ao mundo. Eu estou, eu sou e nada mais peço do que a limpeza das lágrimas, a manutenção dos sorrisos, a alegria de estar com quem amo. Não me interessa que façam, os dramas ou criem as dores. Não posso recriar amor, fingir amor ou crivar-me das vossas feridas! Ainda assim o faço! Todos os dias, a todas as horas!Seja com bonecas de farrapos, carrinhos ou olhares no vazio recriando os pais que desejo para mim. Substituo doses de amor não tidas ou dadas.

Não porque eu vos queira mal, não porque necessito mais do que vocês do que mim mesma. Uma ausência vossa é um grito de dor para mim. Uma lágrima vossa é um oceano infinito de bondade minha. Tenho para mim todas as vossas dores. Pena é.. ter para mim, migalhas de amor. Ainda assim… o meu amor por vocês difere numa coisa. Dispo-me de de dores e angústias. A minha liberdade reside no conceito de amar. Não carregam nem mais e nem menos da cruz que eu carrego pelos dois… e ainda assim… ainda assim… todos os dias tento correr para os vossos braços. Não amo o que são para mim, mas amo o conceito do que dou a vocês.

No meu quadro a vossa pintura é reles, mas no meu amor, o vosso abraço é arte.”

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Bruno Fernandes

Nascido a 29 de Dezembro de 1975, natural de Lisboa, Bruno Fernandes, bloggler ativo há já alguns anos, dedica-se essencialmente à luta pela mudança interior e novas formas de entender o ser humano através da sua experiência de vida. Cinéfilo ativo e leitor assíduo.

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