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Overdose de felicidade

Quando olhava para ele ainda se admirava de como era possível gostar tanto de alguém. De como era tudo tão calmo e confuso ao mesmo tempo, em como se sentia mais ela própria quando estava perto dele. Era a primeira pessoa em quem pensava quando queria fugir, era nos braços dele e no apoio dele onde conseguia descansar a sua mente, a sua alma, a sua inquietação.

Quando olhava para ele enquanto ele dormia, a respirar devagar e em paz, boca entreaberta e serena, sentia o coração a aumentar tanto que podia explodir, sentia a alma tão grande e completa que transbordava, sentia-se tão feliz que quase morria. Overdose de felicidade, como já tinha ouvido dizer.

Apercebeu-se pela primeira vez do que ele significava para ela quando ele, no banho, cantou baixinho algo que a ela lhe pareceu puro conforto. Uma melodia que ela nem reconheceu, mas que a encheu de calor por dentro e que a fez entender que o lugar dela era com ele. Soube, nesse momento, que a felicidade dela só existia se andasse abraçada à felicidade dele.

Nem sabia como se tinha apaixonado dessa maneira, mas sentia-se completa e feliz.

Fez-lhe festas no cabelo, nas orelhas, enquanto ele se virava no sono, afastando-se em sonhos daquelas carícias que lhe faziam comichões. Ela sorria, completamente abismada por ele, por estar ali com ele, a dormir com ele.

O telefone tocou, e ela fingiu-se adormecida.

Ele acordou com dificuldade, piscando muito os olhos como se não percebesse bem onde estava. Viu o número e atendeu. Falou baixinho, com carinho. Ela sentiu um choque no corpo, na alma, uma facada de ciúmes. Sentiu as unhas magoar as palmas das mãos, mas não queria saber.

Ele levantou-se e vestiu-se rápido. Nem sequer lhe tocou; apenas um leve roçar dos seus lábios na bochecha dela, que ardia. Ela sentia que ia explodir. Em lágrimas, em insultos, em confusão, em asneiras. Overdose de raiva.

Sabia quem era ao telefone. Sabia que era ela. A mulher, a primeira dele, a que ele amava mais. Ela sabia que era a outra, claro que sabia; mas nunca pensou importar-se. Até àquele momento em que ele cantou e ela sentiu a felicidade dele, sentiu a sua própria felicidade, ela pensou que conseguiria sempre dividi-lo.

Mas no segundo em que ele fechou a porta ao sair do quarto, ela soube. Ela soube que faria qualquer coisa para o ter só para ela. Sim. Qualquer coisa.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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