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[Outubro] A Rosa de Outono de Janis Joplin

“Ela anda descalça, quando lhe apetece, vai para as aulas usando uns Levis, porque são mais confortáveis, e leva a sua auto-harpa para qualquer lugar que vá, para o caso de sentir o impulso de cantar. O seu nome é Janis Joplin.”

(The Daily Texas, 27 de Julho de 1962)

De todos os músicos dos anos 60, não existe nenhum que consiga personificar o espírito tumultuoso e a natureza destrutiva dessa era como Janis Joplin o fez. Durante 5 anos, a cantora foi uma estrela em ascensão meteórica na constelação do Rock ‘n’ Roll, até à sua morte com uma overdose de heroína. Joplin levou a sua voz repleta de poder e blues do Texas para o cenário psicadélico de São Francisco, onde passou de estrela em ascensão a superestrela. Considerada por muitos como sendo a melhor cantora branca de blues e soul da sua época, era dona de uma intensidade vocal que provou ser a perfeita combinação para o estilo musical repleto de energia da banda Big Brother and the Holding Company, com quem criou músicas que misturavam o blues com o folk e o rock psicadélico. Não era apenas a sua voz que emociona quem a ouvia, era também o seu espantoso alcance e a sua inigualável força. Observá-la em palco era como ser sugado para uma tempestade de sentimentos que eram difíceis de serem expressos em palavras. Era uma cantora dinâmica que tanto desfiava as suas cordas vocais na condução de composições de rock psicadélico (“Combination of the Two”), como cantava de forma delicada e empática uma leitura de George Gershwin (“Summertime”).

“Eu sou uma vítima da minha própria pessoalidade. Houve uma altura em que queria saber tudo… O que me costumava deixar muito infeliz, por causa de todos os sentimentos que me causava. Simplesmente não sabia o que fazer com esses sentimentos, mas agora aprendi a usá-los a meu favor. Eu estou cheia de emoções que quero libertar e, caso esteja num palco com uma plateia a sentir o que pretendo transmitir, é a sensação de unicidade que toma conta de mim.”

(Janis Joplin)

Apesar da fama que alcançou, Janis Joplin acabaria sempre por ceder às inseguranças que viu florescer na sua juventude e recorreria recorrentemente à companhia de dois velhos amigos: as drogas e o álcool, sendo o Southern Comfort e a heroína os seus demónios de eleição. A sua morte a 4 de Outubro de 1970, com uns jovens 27 anos, deixou o mundo da música em choque e totalmente abalado. A sua personalidade abertamente frágil, vulnerável e perturbada, que se fundia na perfeição com uma das vozes mais apaixonantes da História do Rock, transformaram-na num dos icons do reino do lendário. Joplin é uma das poucas figuras pop cuja relevância deve-se tanto aos seus traços característicos, como à sua música, que era um símbolo da mitologia sobre a qual a sua geração gravitava. Ela expressou perfeitamente os sentimentos e as ambições das raparigas da geração eléctrica – ser totalmente mulher, mas com direitos iguais aos dos homens; ser livre, mas uma escrava do amor verdadeiro; rejeitar todo o tipo de convenções e, mesmo assim, regressar constantemente ao essencial da vida.

“Ela era tão vulnerável, consciente de si mesma e repleta de sofrimento. Desfazia-se por dentro, mas, quando subia a um palco, transformava-se em algo diferente, sem amarras, livre, visceral e sem medo de demonstrar o seu lamento. Quer-me parecer que o sofrimento e a intensidade das suas actuações andavam de mão dada e eram indissociáveis. Nos seus espectáculos, existia sempre uma sensação de ânsia, de procura por algo. Janis Joplin, penso eu, conseguiu comprovar que a alma é algo que ganha significado quando transformamos a nossa dor em algo belo.”

(Florence Welch)

Joplin é uma filha do movimento Flower Power, que impressionou a audiência branca com a sua vontade de ser bem sucedida no blues, um território que era dominado pela comunidade afro-americana. O mesmo se pode aplicar a Bett Midler, no filme de 1979, The Rose, que a viu ser nomeada para o Óscar de Melhor Actriz Principal, nesse ano.

O filme situa-se nos finais dos anos 60, início dos 70, enquanto decorria a guerra do Vietname, e em que, nalgumas zonas dos Estados Unidos da América, os hippies eram desprezados. Quando Rose (Bette Midler) sobe ao palco, dá voz a todos estes sentimentos turbulentos, gritando, dizendo asneiras e rindo extremamente alto, numa explosão de energia pura, inadulterada. Rose enfrenta a multidão de frente, dando-lhes o que tanto desejam, através das suas interpretações, em que expõe o seu coração destroçado. Ao sair do palco, enterra a sua cabeça debaixo dos braços e sussurra: “estou tão cansada”. Realmente, observá-la nos seus espectáculos é cansativo – com as drogas, o álcool, os espectáculos que nunca acabam, as noites sem dormir e as discussões constantes com o seu manager (Alan Bates), numa tentativa de fugir ao título sufocante que construiu para si. Contudo, a tensão mais intrigante em Rose é a dicotomia entre a vontade de abandonar a vida que tem e a constante fuga para o refugiu que é o seu (enganador) nome de flor. Esta ideia de que a protagonista se sentia mais viva, enquanto actuava, é perfeitamente visível na sua interpretação de “When a Man Loves a Woman”, uma balada exaustiva, na qual, ao aproximarmo-nos de Rose, apercebemo-nos cada vez mais de que ela está a fazer amor com o microfone, com os seus lábios a envolvê-lo, numa intimidade que nunca consegue ter com um ser humano.

“A ironia em The Rose – a estrela que se destrói aos poucos ouve uma notícia no rádio sobre o uso de Napalm, no Vietname, e faz o seguinte comentário: ‘Eu não percebo como é que os seres humanos conseguem ter este tipo de comportamento’.”

(Robert Horton)

The Rose é basicamente a história de uma mulher talentosa, mas insegura, que é devorada pela fama que alcançou. Ao contrário de muitos filmes sobre o imaginário do mundo da música, que se baseiam no relato da luta para alcançar o estrelato, este filme apenas apresenta ao espectador a parte do meio deste processo, do apogeu da carreira de Rose, e é nesse ponto que nos mantemos até ao seu fim. A sua luta interior é a história motora e o seu percurso profissional é algo puramente acessório, nunca nos sendo apresentado uma razão clara para a sua queda. Ela é claramente uma pessoa auto-destrutiva, que é explorada pela ganância do seu manager e pela incapacidade do seu namorado machista em aceitar os seus defeitos, mas não existe uma razão que explique o caminho repleto de demónios pessoais que decide seguir até à sua morte.

“Agora vou cantar uma canção que irá resumir toda a minha vida.”

(Dewwy Cox)

As vidas de Rose e de Janis Joplin fundem-se numa história de auto-destruição, repleta de vícios, de relações voláteis e de ressentimento para com os seus locais de origem. The Rose começa com uma cena que serve de prenúncio para o destino da personagem de Bette Midler, na qual é possível ver-se o pai de Rose a abrir a garagem da sua casa, onde guarda, numa parede, recortes de jornais com notícias da sua filha. Apercebemo-nos, desta forma, que, apesar da mágoa da filha em não ter o seu apoio explícito, ele acompanhava a sua carreira com muito orgulho. Num claro paralelismo com o documentário Janis, onde, ao som de “Me and Bob Mcgee”, podemos ver emocionados fotografias em que Janis Joplin, que, se actualmente fosse viva, teria 63 anos, pôde ser ela mesma – livre para sentir o mundo à sua maneira.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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