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Outro Universo

De casaco comprido com a gola subida, Zeca tentava esconder a sua cara. A polícia circulava constantemente pelo recinto da festa e ele evitava a todo o custo ser notado. Não que o reconhecessem. Foi há mais de cinco anos que naquele local gritou por ajuda depois de ver o seu melhor amigo a desmaterializar-se. Provavelmente muitos ainda mantêm memória daquela história bizarra, mas daí a ser reconhecido ia uma distância assinalável.

Estava de volta e não queria que ninguém soubesse. Não por qualquer razão que se prendesse com quem ele foi em tempos, mas tão só porque ninguém iria dar pela sua falta se à partida nem soubessem da sua presença. Os cinco anos que passou no Instituto de Medicina Psiquiátrica foram os que sentiu serem suficientes para cortar raízes que o prendessem. Já não tinha amigos nem conhecidos, a família atingida pelo estigma de ter um dos seus institucionalizado foi aos poucos esquecendo-o. E depois de ver na televisão a imagem daquela construção de madeira, que ele sabia ser uma máquina muito especial, alterou a sua forma de ser. Rapidamente convenceu os médicos de que estava pronto para viver em plena sociedade e partiu, directamente para Munique, entrando nos carros que por ele paravam.

Ali no meio da multidão, agachado sob si próprio e protegendo-se dentro do seu casaco comprido, sentia-se mais lúcido do que alguma vez se sentira. Sabia exactamente onde estava, o que fazia e mais importante, para onde ia. Foi percorrendo o recinto da feira, tranquilamente como discretamente. Não se deixava distrair pelas inúmeras diversões que já conhecia, não se deixava lamentar por não sentir o gosto da cerveja na sua boca, não se deixava deslumbrar pelas belas mulheres com quem se cruzava. Tudo aquilo que ele foi há cinco anos não se manifestava agora nele. Pensava se seria outra pessoa mas sabia que a resposta não tinha qualquer importância.

Por fim deteve-se em frente àquela máquina. Viu as pessoas a subirem as escadas, e deixarem-se levar pelo rápido tapete até à torre. Depois desciam num escorrega circular em redor da torre. Tudo banal. Mas nada disso era o que ele sabia ser aquela construção de madeira. Ansiava a hora, o momento certo, o instante exacto. Esperou olhando o céu, desenhando constelações na mente. E então sorriu quando uma determinada constelação se alinhou na perfeição com a torre de madeira à sua frente. Sentiu a energia a fluir pela noite e a concentrar-se rapidamente no topo da torre. Tinha que se despachar. Subiu as escada, pagou a entrada, esperou a sua vez, o momento certo. Colocou um pé no tapete rolante, inclinou o corpo para a frente e equilibrou-se com a outra perna. Tantos caiam ali mas ele sabia que não podia vacilar. Manteve-se hirto enquanto o tapete o acelerava a uma velocidade estonteante, em poucos segundos as luzes à sua volta passaram de pontos luminosos a linhas de energia colorida. No topo, a energia que se acumulava cada vez mais aguardava-o. Então, no momento exacto em que atingiu o cume, abriu-se uma porta de luz branca invisível que se manteve aberta durante um único piscar de olho, o suficiente para Zeca a atravessar.

Logo tudo acalmou, as pessoas continuavam a subir as escadas, a caírem quando pisavam o tapete, a descerem pelo escorrega, sempre a sorrirem. Mas Zeca nunca chegou a descer por ali. Nem por lado nenhum. Sem que ninguém se apercebesse, Zeca atravessou uma porta para outro universo, e lá brindou sorridente com o Márcio.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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