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Outono, berço das Estações

Será apenas impressão, um tremendo engano, ou há mais textos sobre o Outono do que sobre outras Estações? Pergunto-me porquê, numa questão que já tem muitos anos.

Para mim, umas décadas andadas, agarro-me um tanto, a esta Estação que não é a minha, por não ter nenhuma, mas por nela ter nascido e me trazer alguma reflexão, uma procura de um certo silêncio. Com ele, as suas cores, no início dos tempos frios, cores quentes. Já agora, por deformação da minha formação, as cores devem-se à paragem da fotossíntese, violentamente provocada nas folhas pelo ciclo biológico natural, um misterioso relógio que não se sabe como se auto-regula e que, pela condução do ácido abscísico nos pecíolos das folhas, interrompe o fluxo de seiva, essencial à manutenção da função fotossintética. Assim, sem os fluxos normais que alimentam as funções nas folhas, ou seja, que interrompem a criação de matéria vegetal e crescimento, as coitadas das folhas acabam por cair, por esse efeito e pelo do malvado ácido que lhes decepa a vida.

Isto, de científico, até nos interrompe o romantismo da Estação. Contudo, ali atrás há algo de simbólico e apenas isso, simbólico. Com a paragem do crescimento, vem a morte…

Serve-me a metáfora muito bem, no caso. O crescimento que me agrada é o interior, não celular, não biológico, se bem que… todo o pensamento tem uma razão química e bioquímica, quero dizer, biológico, mas isto é pesado e nada propício a uma estação de crescimento, ou recrudescimento introspectivo, intelectual e, mesmo, romântico.

Gosto do Verão e da Primavera brilhante no meu país. Uma explosão de vida, seguida por uma mansidão que nos retarda o passo, pela preguiça ou pelo cansaço e nos chama pelo repouso, a um sol único e um mar fantástico. Contudo, o Outono…

O fresco que ele nos traz, parece que nos deixa pensar no que ficou, lá atrás e nos empurra, para o ciclo, tão à frente que há quem prefira saltar por cima dele e do cinzentão invernoso, e tudo adiar para a Primavera seguinte. Já se pode ver o que tal acarreta de pausa no tempo, digo, na vida.

Não. O Outono é chuvoso, verdade, mas é lindo pelas cores e atentem nos aromas… uma vez serei maçador. O aroma da terra molhada, que nos chega às narinas, porque umas tais de bactérias filamentosas, actinomicetas, libertam esse seu aroma (terra molhada) e estão, pois, no solo. Pois é. É parte das nossas vidas detalhes e mistérios que sentimos, mas desconhecemos.

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E não são mistérios também, os das nossas nostalgias? Que nos assolam, ou até ensombram por vezes, ou por muitas vezes. E de onde vêm? Dizem os mais destemidos investigadores em neuro-ciências que a nostalgia outonal nos pode vir da influência de um céu menos brilhante, mesmo cinzento, ou do cansaço do descanso que o Verão já terminado nos deixa. Ou da lembrança desses tempos de muita luz e actividade (em tudo, desde já na natureza, que tanto nos influencia, mas em silêncio, geralmente). Ou ainda, do ciclo que começa, e que não parecendo, tal como as folhas das árvores, que protegem do frio fatal as árvores, mães delas, e se atiram ao chão, evitando as temidas queimaduras nos seus frágeis tecidos que as podiam deixar em muito maus lençóis (interessante expressão esta, dos “lençóis” para onde somos chamados tantas vezes precisamente no Outono. Oh diacho!), isto é, não o fim de um ciclo, ou sim, mas é pelo fim de um que outro pode começar.

Lembro-me de outro início de ciclo, por esta altura do ano. O ano escolar. Era o fim das férias que já eram demais, os livros novos do ano que ia iniciar, a curiosidade do que me podia esperar. E esse era um sinal que eu não sabia, que, a cada Outono, algo se podia renovar, renascer, ou tão-só, iniciar. Nos nossos empregos, profissões diversas, também se (re)começa por estes momentos. Na agricultura, ele traz o início do clico do pão, esse alimento que mantém gente viva e a pensar, pelos seus hidratos de carbono, há século e séculos. Um dos mais antigos de que reza a história desde a tecnologia de produção alimentar.

Não pode esta estação que, até a chuva que tanto limpa e lava traz, significar o que alguns pretendem, de mais triste, por mais cinzento. Não. É sempre na outra perspectiva que temos de entender estes tempos. Pelo repouso de um ciclo se pode iniciar um novo. Gosto de ver assim esta minha, que não é minha, estação. E junto a este sentimento as cores douradas e laranja forte que contrariam o fresco da chuva que sempre aí é prometida. Com ela, a lavagem, essencial. Com o fresco, o repouso do calor extenuante. Com a tendência para o recolhimento, a reflexão, a leitura, a introspecção de que carecemos e até o sentimento e o amor. Com ele, ainda, os renovados planos nas empresas e serviços, os orçamentos, as propostas para ano que se segue. E as lareiras e os chás quentes e as guloseimas adiadas em tempo de recolhimento de barriguinhas que no Verão nos envergonham? Até os copos se bebem melhor. Será que os beijos também são diferentes? E as belas paisagens que todos queremos registar?

Recordo uma frase atribuída a Einstein, tentando simplificar a ideia de Relatividade. “Se estivermos cinco minutos à lareira, parece-nos que passaram duas horas. Se estivermos duas horas na companhia de uma mulher bonita, ir-nos-á parecer que passaram apenas cinco minutos”. Sem o Outono e as lareiras, nem esta explicação seria viável, pois não? Calma, não estou a pensar na lareira como desculpa para as companhias com gente bonita. O Einstein sabia o que dizia.

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Não me digam que esta estação de cores fortes não é uma tentação. Um momento do ano para ser bem vivido. No quentinho, mas com a certeza do fresquinho renovador lá fora. Vai um chá?

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Alexandre Bazenga

Licenciado em Agronomia e com uma pós-graduação em Gestão. Leitor adicto, a escrita é uma inevitabilidade. Música, Literatura, Pintura, Fotografia, Culinária e a demanda do Conhecimento, são outros dos meus trajectos.

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