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CulturaMúsica

Out & Loud by Liana Rego – Janeiro 2019

"Human" de dodie, "Assume form" de James Blake e "Duro" de Xutos & Pontapés

Human EP (dodie)

Capa do EP "Human", lançado a 18 de janeiro de 2019
Capa do EP “Human”, lançado a 18 de janeiro de 2019

Dorothy Clark (dodie) é uma daquelas artistas, neste caso inglesa, que ganhou visibilidade através do Youtube. As suas covers e doçura parecem, de facto, a desculpa perfeita para ter sucesso, porque é difícil resistir-lhes. Num meio que, tantas vezes, se apresenta saturado com edições eletrónicas e frases feitas, dodie é um grão de areia cor-de-rosa: de composição honesta, poucos efeitos e zero show off.

Human é o seu presente deste ano, um extended play (EP) com pouco mais de vinte minutos — o terceiro da sua ainda curta carreira. Como não poderia deixar de ser, o grande destaque vai para a composição escrita e as mensagens que dodie deixa através desta. “Arms Unfolding” é o início perfeito, onde paira uma voz praticamente acappella e uma reflexão sobre a superação das dificuldades numa relação que não se quer abandonar – “I’m going to try to fall in love with you again”. É o presságio para um disco intimista, vulnerável e honesto, mas também nada surpreendente para quem já conhece o seu repertório.

É por causa dessa mesma composição que algumas faixas sobressaem: “Not What I Meant“, com a participação sublime de Lewis Watson “maybe I’d sound a little better if my features were more sweet”; “She” — “she tastes like birthday cake and story time and fall, but to her I taste like nothing at all”; e, claro, “If I’m Being Honest” e “Burned Out” — as duas canções mais envolventes deste EP.

Em resumo, este é um registo que explora as vulnerabilidades da autora, com um toque de escuridão à mistura — mas a fragilidade humana é isso mesmo, certo? Talvez Dorothy tenha “apenas” isto para dar, no sentido em que sempre aproveitará a sua introversão e simplicidade para, à boleia da sua coragem (porque é preciso tê-la), se abrir com honestidade sobre os seus mais profundos pensamentos. Há quem se possa cansar da falta de inovação na ousadia de ser a girl next door. Por cá, continuamos a ouvir estas canções com entusiasmo, porque são imperfeitamente belas, como dodie.

Assume Form (James Blake)

Capa do álbum "Assume Form", lançado a 18 de janeiro de 2019
Capa do álbum “Assume Form”, lançado a 18 de janeiro de 2019

O prodigioso está de regresso. Praticamente três anos passaram desde o lançamento do seu último álbum de estúdio, The Colour in Anything (2016), e agora parece que James Blake chega com mais clareza. É até bastante simbólico, embora talvez despropositado, que, de todas as capas dos seus álbuns, este Assume Form tenha aquela em que a imagem do artista inglês se apresenta mais focada e aproximada. Estará ele a assumir forma?

Este registo é inegavelmente maravilhoso. As colaborações, que são bastantes, abrilhantam o repertório de uma maneira perfeitamente alinhada com a derradeira função que lhes compete em trabalhos conceptuais: elevar a mensagem que o autor pretende transmitir. No caso de Assume Form, falamos quase de uma ode à existência de parcerias.

Mile High” é certamente a colaboração mais aborrecida, junto de Travis Scott e Metro Boomin, não por ser fraca enquanto canção, mas por se enquadrar num registo mais previsível. Ainda assim, não causa grande ferida na apreciação geral do álbum. Os seus momentos de magia acontecem constantemente, com “Tell Them“, junto de Metro Boomin e Moses Sumney, “Barefoot In The Park” (com ROSALÍA) e “Where’s The Catch“, momento precioso partilhado com André 3000. “Into The Red“, “I’ll Come Too“, “Power On” e “Don’t Miss It“, sendo muito diferentes entre si, trabalham em sintonia para dar a este álbum uma identidade tão marcante quanto virtuosa — cujas sensações provocadas oscilam entre a pura comoção e um inspirado transe. Não são canções de sad boy, como lhe chamam; são canções de alguém que pensa profundamente sobre o seu próprio estar, sendo que esse inclui a depressão como realidade.

Assume Form é um trabalho discográfico cheio de pormenores e complexidades. Difícil seria deixar alguém indiferente. As letras são partilhas que surgem de algum trabalho de introspecção — e algo nos leva a acreditar que esta chegou naturalmente, com as dores de crescimento. Fomos avisados/as desde o início, com a entrega e sensibilidade da faixa homónima do álbum, que é também a primeira do alinhamento. O que esta prometeu, o registo soube cumprir: James Blake assumiu forma e, por isso, “now you can feel everything” (agora consegues sentir tudo).

Duro (Xutos & Pontapés)

Capa do álbum "Duro", lançado a 25 de janeiro de 2019
Capa do álbum “Duro”, lançado a 25 de janeiro de 2019

Uma lista de grandes referências do rock português jamais dispensaria  o quinteto (agora quarteto) de Xutos & Pontapés. Para os maiores seguidores do seu trabalho, a pergunta mais urgente aquando do lançamento de Duro terá sido sobre a ausência de Zé Pedro — sente-se muito, em termos sonoros? A resposta, felizmente, é não. O já desaparecido e tão querido guitarrista lusitano participa em grande parte das faixas do novo trabalho, uma vez que foram gravadas em estúdio antes do seu falecimento.

Depois de Puro, anterior álbum do grupo, lançado em 2014, o sucessor que chega cinco anos depois não é particularmente interessante. O seu maior fator de interesse prende-se com o processo criativo da banda, que certamente passou por tempos conturbados depois da perda que sofreram com a morte de um companheiro tão especial. Aliás, Duro não é um nome acidental — foi duro, de facto, como os próprios já disseram, sem pudores.

Os destaques positivos vão para o  saxofone de Gui, que se aprimora em cada uma das suas participações; de forma tal que já é impossível conceber a música de Xutos sem esta sonoridade. “Mar de Outono” é prova disso mesmo, canção que vem com o grau certo de nostalgia, num toque bem português. Além dessa nota, a colaboração com Capicua e Jorge Palma em “Imprevistos” também merece aplausos. Trata-se de uma canção inteligente, fruto de um trabalho bem pensado e harmonioso. Há, no entanto, faixas desapontantes. “Espanta-Espíritos“, com aquele registo rock previsível e absolutamente Xutos, em tom de revolução, é prova de que não há nada de realmente novo aqui. A homónima do álbum também não impressiona: vem com uma ideia do que é ser duro com a qual é difícil concordar, sendo que o instrumental aborrece.

Claro que “Fim do Mundo” — “Aquele corpo tão fino / O choque não suportou / A voz é só um murmúrio / Que o vento já levou /E a sombra daquela estrela / Ficou mais leve e voou” — e “Às vezes“, de saxofone elegante — “Não é fácil / Nunca é fácil” (…) “Tu sabes / eu tenho saudades / ó tantas saudades / de te ver sorrir” — deixam uma marca indelével, uma vez que é impossível ouvi-las sem pensar no eterno guitarrista dos Xutos. Nesta última, o acústico faz maravilhas e torna-a uma das faixas mais envolventes do disco.

No geral, Duro é um trabalho necessário para a banda, que quis honrar Zé Pedro com o trabalho que este deixou, além de garantir a continuação do quarteto. Infelizmente, enquanto resultado final, não é um registo que valha a pena voltar a ouvir na íntegra.

 

When it’s out, put it loud.

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Liana Rego

Licenciada em Jornalismo, pela Universidade de Coimbra, e Mestre em Cultura, Património e Ciência, pela Universidade do Porto. Jornalista na Conexão Lusófona e crítica musical nos tempos livres (que são todos, porque não gosta de se sentir enclausurada). Ativista. Vegetariana. Apaixonada: por música, pela interpretação da vida e pela Arte de revolucionar.

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