Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!
CulturaMúsica

Out & Loud – Dezembro 2018

Fique a conhecer três dos álbuns mais marcantes do mês. Por Liana Rego

Maria (Carminho)

Capa do álbum "Maria", lançado a 28 de novembro de 2018
Capa do álbum “Maria”, lançado a 28 de novembro de 2018

Neste novo trabalho da fadista portuguesa, não é só a estética da capa que impressiona. Carminho está num trajeto de reinvenção, que parece já fazer parte da sua forma de existir artisticamente. Depois de provar que alinha numa onda mais jazzy e que a música popular brasileira lhe fica bem, nos seus últimos projetos, a fadista entrega-se a um registo renovado, que traz fragrâncias tão modernas quanto clássicas.

Maria chega plena. Não conta com instrumentais dignos de orquestra, mas apenas porque não faz uso de muitos instrumentos. É um disco quente, como “Estrela” tão bem demonstra — uma faixa sem percussão, cujo canto é praticamente só coberto com dedilhado de guitarra elétrica. Conta com canções que nos levam a uma profundidade transcendental, provavelmente (mas não apenas) graças ao uso da pedal steel guitar.

composição poética de Carminho e de Joana Espadinha (autora de “As Rosas” e de “O menino e a cidade“) consagra-se ainda mais. Além da escrita, os restantes destaques do álbum são “Pop Fado“, dono de uma sublime e crítica letra de Fernando de Carvalho; “A mulher vento“, um elogio autêntico e comovente à mulher cantora e ao canto; e “Se vieres (Fado de Sta. Luzia)“, de instrumental riquíssimo. Os poemas falam da espera romântica, de amor e de ser artista. Parece, em alguns momentos, uma espécie de autodescoberta de Carminho, ou, para ser mais exata, Maria do Carmo.

Este é um álbum que gera emoções: tristeza, comoção e esperança são apenas algumas delas. Vale a pena ouvir, nem que seja pela facto de ser uma lufada de ar fresco dentro do que se pode considerar popular. Além disso, é um disco que rima bem e sai da banalidade. Trata-se de um verdadeiro elogio ao Fado.

I love (Natiruts)

Capa do álbum "I love", lançado a 7 de dezembro de 2018
Capa do álbum “I love“, lançado a 7 de dezembro de 2018

Está de regresso a banda de reggae brasileira mais internacional de Brasília. Não demoraram muito: em 2017, lançaram Índigo Cristal. Agora chega I love, oitavo álbum de estúdio, que funde os sons africanos com o registo já habitual do grupo. Para abraçar este disco, é fundamental que se interprete o conceito, que começa a aparecer na própria capa do CD e se prolonga até cada canção.

Os momentos de alegria, tão familiares para quem ouve Natiruts, não são tão gloriosos como em alguns trabalhos anteriores. Quando relembramos canções como “Sorri, Sou Rei” ou “Me namora“, percebemos que não há, neste álbum, nada do género. Ou melhor, do mesmo género há, porque a banda preserva notoriamente a identidade reggae que sempre teve; mas as canções não impactam tanto. Trata-se de um registo mais ameno nesse sentido. Por outro lado, transporta uma riqueza cultural incontestável, que assinala uma espécie de fusão de géneros e, também, um elogio à lusofonia.

Não é um álbum sublime. Tem algumas faixas muito bem elaboradas, mas registos como “Xaxado do Amor” — que, embora seja uma música preenchida, tem pouca vida — e “Mergulhei nos seus olhos” — de sonoridade cansativa — impedem uma total entrega por parte de quem ouve. Felizmente, e como sempre, a energia das palavras permanece intacta: feliz, positiva, otimista e com a boa vibe que costuma imperar.

A bonita colaboração com Gilberto Gil, para cantar “O verde do Mar de Angola“, faz diferença — pela positiva — e desvenda um dos grandes achados do álbum. “Serei luz” é outro desses casos: além de transparecer a influência africana duma forma absolutamente bela, é, a par de “O silêncio virou som“, um dos temas com a mensagem mais bonita. Por cá, lutaremos por cumprir o objetivo cantado no refrão: Aonde quer que eu vá serei luz.

Plástico (Glockenwise)

Capa do álbum "Plástico", lançado a 7 de dezembro de 2018
Capa do álbum “Plástico”, lançado a 7 de dezembro de 2018

É oficial: os Glockenwise passaram a fronteira entre o que se podia julgar efémero ou definitivo. É, também, oficial que essa travessia evidencia a conclusão de que o grupo barcelense está, efetivamente, mudado. Plástico, quarto álbum de estúdio, é uma maturação enorme no trajeto da banda, que prova como o crescimento e a evolução pode trazer consequências tão mais diversas do que alguma vez achamos possível. Depois do álbum de estreia, Building waves (2011), da reafirmação de Leeches (2013) e da ousadia de Heat (2015), que já posicionava o grupo numa tendência mais melódica e pop, o quarto trabalho discográfico superou todas as expectativas.

Talvez a inspiração venha, também, do percurso de Nuno Rodrigues, que iniciou, em 2014, o seu projeto a solo, Duquesa. Neste registo, o vocalista dos Glockenwise apresenta-se intimista e canta, não exclusivamente, em português. Escusado será dizer que, em Plástico, como o nome poderá indicar, a banda trocou a língua inglesa pela materna e arriscou. Ora, se for para correr riscos, ao menos que valham a pena. Parece que este valeu e uma “escutadela” básica permite perceber, minimamente, o caminho menos convencional que trouxe o grupo barcelense até aqui. “Bardamu Girls“, de Building waves, as homónimas dos segundo e terceiro álbuns, “Leechese “Heat“, e “Moderno“, vindo do mais recente conjunto de faixas, reunido em Plástico, bastarão para elucidar.

Não é, de todo, um disco intimista, mas tem uma pitada de nostalgia. O próprio tom de Nuno Rodrigues transformou-se, adocicou, e esse canto contribui para a sensação nostálgica confirmada em canções como “Muito para dar“, “Sempre assim“, “Plástico” e “Dia feliz“. As letras são críticas, bem-humoradas e inteligentes. Abrem espaço para alguma introspecção e, de certa forma, pela maneira como se desenvolvem, parecem resultado do trabalho de alguém que andou a pensar um pouco sobre a vida. Atrevo-me a dizer mais: as letras soam, por vezes, como que vindas de elaborações típicas da geração da qual os músicos fazem parte. Chamemos-lhes as exaltações millennial.

Plástico traz simplicidade, desde as rimas até ao vocabulário, mas torna-se complexo por todo o contexto. Certamente renova expectativas diferentes quanto ao comportamento da banda em palco; será interessante ver como irão agir, depois de tanto tempo num registo mais frenético, cuja sonoridade agora se acalma e vira pop. Às vezes aparecem numa vibe que relembra memórias tão distintas como Capitão Fausto, Tiago Bettencourt e Manel Cruz. Mas há uma essência Glockenwise que se mantém, nem que seja pela aceleração rítmica de algumas das canções.

When it’s out, put it loud.

Tags

Liana Rego

Licenciada em Jornalismo, pela Universidade de Coimbra, e Mestre em Cultura, Património e Ciência, pela Universidade do Porto. Jornalista na Conexão Lusófona e crítica musical nos tempos livres (que são todos, porque não gosta de se sentir enclausurada). Ativista. Vegetariana. Apaixonada: por música, pela interpretação da vida e pela Arte de revolucionar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Back to top button

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: