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Os WACK “Sem Pés Nem Cabeça”

Virtuosismo musical pode rimar com WACK? Pode. Rima com WACK, um quarteto de virtuosos? Sem dúvida. Depois de cantarem que “Contra Fracos não há Argumentos”, os WACK regressaram agora “Sem Pés Nem Cabeça”, o seu no EP. Não raras vezes, um trabalho de fusão do Rap com Jazz, Funk e ainda um pouco de Rock resulta num produto final inconsistente e esquizofrénico. O que este grupo conseguiu fazer com este EP é excepcional nesse sentido. Aproveitando o que cada um dos artistas acrescenta ao pote, nunca fica a sensação de que se sobrepõe a sua personalidade à do EP. Num mundo quase perfeito, todas as colaborações seriam como as deste registo, maiores do que a soma das partes. Realmente, os WACK têm razão, quando dizem que “once you go WACK you never go back”.

WACK é o apêndice que separa o bonito do feio, o certo do errado e o infeliz do musical. TANB, Dikas, Muzik e Ketzal são os quatro membros deste novo projecto, inteiramente português, e, como os seus próprios nomes sugerem, em Hip Hop, mas não é só de Hip Hop que aqui se fala. Falamos aqui também de um pouco de Funk e de Jazz sem adereços e simples. E aqui falamos de limpeza, porque é isso mesmo que nos transmite o Rock que é misturado, perseguindo sempre o seu groove descontraído e despido de preconceitos. Num trabalho em que a “palavra dita” se substituiu à melodia cantada, a língua portuguesa é a convidada principal que acompanha os WACK e a participação de César Correia e Pedro Rodrigues, dois novos elementos, este elenco de nomes empresta a voz a versos repletos de história, sentimentos e ideias. Versos e palavras mais urbanas, do que tradicionais, mais vivas do que escritas.

Admito que não costumo falar de Hip Hop, porque, apesar de perceber e respeitar a sua cena, não é nunca escolha própria, quando procuro algo para ouvir. No entanto, desta vez, “Sem Pés Nem Cabeça” veio-me parar às mãos, ou melhor, aos ouvidos, numa missão clara para ser ouvido com atenção. O disco composto por 5 composições inicia a sua viagem com uma “Intro” fala com clareza da fusão de géneros que inspiram este projecto, mas é com “Once You Go WACK” que as palavras ocupam o espaço das melodias e conquistam a nossa atenção, numa apresentação sem dúvidas da identidade do que são os WACK. Embora denso na forma como, através, não da sua sonoridade, mas das palavras que entram pelos nossos ouvidos, “Sem Pés Nem Cabeça” não deixa de ter um delicado toque de quem tem algo a dizer, com urgência, mas que não deseja que o saibamos com frases reduzidas. Há que compreender o importante, sem nunca temer a beleza na forma de quem o transmite.

Dou por mim a cantarolar o single de apresentação do EP, “Carta de Amor”, onde provam que não querem ser como toda a gente, que não querem crescer de repente, mas as histórias que vivem dentro deles são a expressão do sucesso que está (certamente) para chegar. É a demonstração de que o tempo carimba sentimentos muito específicos em alguns temas e as inúmeras audições já cravaram nos ouvidos os versos transformados em música que este primeiro single apresenta. Um excelente exemplo de um trabalho robusto, pleno de dedicação e que nos mostra que, quando algo vem do íntimo e é tão visceral, mais facilmente estabelece uma conexão connosco.

Os WACK são uma bonita alcateia que se reúne neste “Sem Pés Nem Cabeça”. Cada um sabe o seu lugar e não se dá por egos a lutar por espaço. Não são as colaborações que fazem com que o álbum resulte, é o álbum que faz resultar as colaborações.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

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