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ArtesCultura

Os Trastes ou os Professores que não sabem escrever.

Traste significa “pessoa considerada de pouco valor”, “pessoa em quem não se deve confiar” e tem como sinónimos canalha, tratante, velhaco. Socorri-me do dicionário para ser mais preciso sobre o que  escrevo e reflito. Esta semana soube-se que muitos professores não são aptos a lecionar, uma vez que cometem demasiados erros ortográficos. Para alguns, os professores que não sabem escrever são trastes, por deles se poder dizer que não tem tanto valor, ou que neles não devemos confiar, enquanto profissionais.

Quanto lidamos com trastes, não há direita, nem esquerda. São trastes, têm pouco valor e neles não devemos confiar. O dicionário é imparcial e apolítico. Para o caso, na opinião de milhares de pessoas em Portugal, o Sr. Crato será um traste e não os professores que não sabem escrever. Porque não lhe atribuem muito valor. Porque consideram que nele não devem confiar. Não estou a dizer que é, ou que deixa de ser, apenas a escrever aquilo que ouço, utilizando justificadamente este vocábulo e uma lógica simples.

Contudo, eu apelidaria de trastes os jornalistas que vêm dar notícias sobre os professores e sua prestação na prova de avaliação, porque, sobre este assunto, neles não confio e a eles e ao seu trabalho não atribuo muito valor. Porque estão a papaguear aquilo que o Sr. Crato quer veicular, ajudando-o a convencer-nos de que o que este diz é que é. Esta prova, ela própria com questões mal elaboradas, que mais não é do que uma súmula de contas de merceeiro – cálculos simples – e a aferição da capacidade de compreensão e expressão em língua portuguesa, pretende separar e classificar professores. Os que reprovam não estão aptos a leccionar. Os que escrevem com muitos erros ortográficos são alvo de penalização e de notícia na Televisão e na Internet. E serão estes erros do novo acordo ortográfico, que apenas Portugal implementou no outro dia e que metade do país não quer adotar? Penso que há erros e erros, mas para todos os efeitos são erros.

Porém, pergunto: Será que escreve bem o ministro? E os outros membros do governo e deputados? E os médicos e os advogados? Não precisam todos eles também de saber interpretar bem, para nos governar e exercer as suas profissões? Ponho as minhas mãos no fogo em como haveria bastante erro ortográfico naquele hemiciclo e em muito hospital, por este país fora. Ah, mas com aquelas cadeirinhas em escada e consultórios apertados pode-se perfeitamente copiar. O melhor seria pôr todos os profissionais nos banquinhos das escolas, a prestar provas. Ou estão com medo de ser avaliados? Dirão que avaliados já são, em vários momentos. Mas sê-lo-ão em cálculo de merceeiro e língua portuguesa? Ah, isso não! Mas então, não é essa a base de tudo, que muito prova acerca da aptidão para exercer uma profissão? Assim parece considerar o Sr. Crato. Então, vamos lá todos para a escolinha fazer uma prova, que é para sermos todos iguais. Que ninguém quer ir ao médico e vir de lá com uma receita errada, devido a uma má interpretação da bula ou da última edição do “Anatomia Humana Básica”. É que pelo andar da carruagem, já não são apenas alguns os licenciados cada vez mais ignorantes e que não sabem escrever. Em vários cursos e várias faculdades isso é notório. Basta falar com os professores.

Diria que as outras profissões devem também prestar provas idênticas.  Vamos todos divertir-nos, então! Ou só o bobo da festa é que tem direito a andar na corda bamba? Gente medíocre há em todo o lado, mas nenhuma outra classe profissional é tão numerosa e considerada, de modo tão descarado, uma despesa, em vez de um investimento. Regalias a mais, todos queremos evitar, mas falsos pretextos e bodes expiatórios, recusamo-nos a aceitar.

Ora, cada um diz aquilo que lhe é mais conveniente e o ministro fala de quem errou para justificar a sua prova sob este falso pretexto. Isso eu posso compreender. Não aceito é que os jornalistas, ou outras pessoas, não o interroguem seriamente. Por exemplo, noticiando e perguntando sobre aqueles professores que sendo muito bons ou excelentes, na avaliação de escola e da prova, estão desempregados. Não ouvi ainda falar deles, mas conheço vários. Um desperdício, como muitos outros que andamos todos a pagar.

Creio assim ser fácil demonstrar que a qualidade do ensino não é a meta final. Nem sequer a poupança, já que gente bem qualificada e formada em universidades portuguesas está desempregada. Logo, se ambas não se verificam, não podemos sequer dizer que é uma solução de compromisso entre qualidade e quantidade. Então o que é isto?

Entre experimentalismo, egocentrismo e laxismo, eu diria que isto não é nada.

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Ricardo Jorge

Lisboa, 1978. Licenciado e mestre em Arquitectura pela Universidade de Lisboa, estudou também Design e Ensino das Artes. Paralelamente a estas áreas desenvolve trabalho em Ilustração e Desenho com exposições regulares em Portugal.

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