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Os sonhos no ar como brisas

Os sonhos passavam no ar como brisas. Passavam como se passeassem. Ela olhava-os com uns olhos pretos gigantes e uma pele tão escura que se confundia na noite. Como se a noite fosse ela, como se os seus olhões fossem os olhos da noite. Os sonhos voavam para todo o lado, eram estrelas cadentes ou folhas num vendaval. Também reparou nas histórias nunca contadas, e nalgumas estórias cansadas de correr mundo, que se entrelaçavam a velocidades estonteantes, misturando-se com tudo aquilo que o vento leva nas tempestades – guarda-chuvas, toalhas, papéis.

Tudo perdido. Tudo aquilo que deixamos para trás e consideramos descartável.

Para onde vão as coisas quando se perdem?

Nunca tinha tido nada para saber como era perder qualquer coisa. Deitada no chão de terra da sua sala, observava as nuvens através do buraco no tecto. Olhou de esguelha para a panela velha que muitas vezes tinha de apanhar a chuva, como certificando-se que ali estava, firme. A sala estava escura, não havia luz na noite. A avó não tinha ainda chegado do trabalho com tostões, com comida, com futuro. Ela continuava a olhar para amores e tristezas, tudo o que o vento trazia, e a cheirar a curiosidade que começava a deixar-lhe a pele eriçada. Um turbilhão dentro. Uma faísca de… de quê? Esperança? Felicidade?

Levantou-se e saiu de casa. A porta velha, partida, cansada, não se fechou. E ela correu atrás dos sonhos, atrás das histórias, atrás das estrelas. Queria saber a resposta. Para onde vão as coisas quando se perdem?

As pernas sujas de terra, as roupas gastas. Correu pelo bairro atrás do vento. Seguiu as histórias e os guarda-chuvas. Continuou a olhar, a ver, a perguntar. O coração batia rápido – tum-tum tum-tum tum-tum. E pensou. Pensou com força, incitada pela faísca de sonho. Ela só tinha perdido o mais importante: família. Mas nunca coisas. Entendia que era possível – já tinha visto outros perderem canetas, roupa, sapatos. Já tinha testemunhado, até, perderem a visão, a memória, a dignidade. No seu bairro, perdia-se constantemente de tudo um pouco.

Correu por uma estrada vazia, de alcatrão. Os pés doridos e sangrando, mas ela não parava. Ouviu o choro de uma criança. Longe. Uma criança que estava tão longe que aquele vento poderia ter demorado séculos a trazer aquele som desesperado e perturbador.

“Também se perdiam bebés?”, lembrou-se.

Correu até chegar a uma estrada de terra. Até afastar as silvas que lhe picavam os braços e arranhavam a cara. Até pisar em água, poças, correr sobre os rios, sentir a relva nas feridas dos pés. Correu e correu e correu.

Até que o coração a massacrou: onde estava?

Parou. De repente, como se tivesse puxado um travão. Sentia que tinha acabado de se levantar do seu chão de terra. Pensou na avó, preocupada quando não a encontrou em casa. O peito ficou apertado e olhou à sua volta.

Não sabia para onde tinha ido. À volta, o mundo. À volta dela, o mundo cheio de papéis e meias perdidas. Meias solitárias, sem os seus pares. Canetas e borrachas, casacos e sapatos.

Deixou-se tocar na pele pelas emoções e os sonhos que a rodeavam. Deixou-se ouvir as histórias que dançavam à volta dos seus tornozelos. Viu os bebés, as pessoas, os animais. Os pedaços de tudo, de tudo aquilo que era mundo, ali, reunidos como se fossem uma nuvem de coisas perdidas. Ali, no limite do mundo, onde conseguimos observar o mundo à nossa volta mas já não somos dele. Apanhou alguns guarda-chuvas; eram tantos! A avó tinha-lhe dito que alguns guarda-chuvas perdidos iam parar a outras casas, mas aqueles, os verdadeiros perdidos, estavam também a fazer parte daquela nuvem.

Como ela.

Ela era também agora alguém que fazia parte da nuvem. Ela também era algo perdido no mundo. E não fazia ideia de como se voltar a encontrar.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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