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Os Rarámuris, uma tribo corredora

Basta dar uma volta pela cidade e pelos seus parques para ver que, tanto no início, como no final do dia, homens e mulheres de várias idades, calçados com os seus ténis e vestindo roupas desportivas, saem para correr. O running está na moda e, segundo um estudo realizado pelo IPAM The Marketing School, estima-se que é praticado por cerca de 1.45 milhões de portugueses, tornando-se o quarto desporto mais popular no país.

É um dos desportos mais simples, que tem vários benefícios físicos e psicológicos e, para além disso, criou um grande negócio à sua volta, com a oferta de diferentes tipos de calçado, roupas leves e anti-transpirantes e de diversos acessórios, como cronómetros digitais, aplicações para o telemóvel e produtos alimentares, entre muitos outros. Porém, há no mundo uma tribo corredora, que tem esta tradição desde há muitos séculos e que não precisa de todos estes complementos de corrida.

Os Rarámuris, também conhecidos como Tarahumaras, são um povo indígena do México, que habita no sudoeste do estado de Chihuahua, nas altas montanhas da Sierra Madre Ocidental, onde se estima que vivam cerca de 85.316 indivíduos desta etnia. A palavra Rarámuri, no dialeto deste povo, significa “pé corredor”, o que faz alusão à mais antiga tradição e maior característica deste povo – correr.

O primeiro contacto realizado com esta tribo aconteceu em 1606 e, para fugir ao trabalho de escravo nas fazendas e nas minas dos espanhóis, estes indígenas fugiram para as altas montanhas, isolando-se do mundo. Vivem em pequenas famílias, que estão espalhadas pelas montanhas, e, para terem uma relação com outras famílias da tribo, ou saírem à procura de alimentos, precisam desde pequenos de andar pelos complicados e tortuosos caminhos das montanhas. Para poupar tempo nestas viagens, correm.

Devido ao ambiente tão isolado em que vive, esta tribo conservou grande parte da sua cultura de forma extraordinária. Mantiveram bastantes aspectos religiosos dos antepassados, tendo como deus a Onorúame, que nada mais é do que uma deidade que é uma mistura de Cristo com os deuses ancestrais. Alguns Rarámuris vestem-se como ocidentais, mas muitos deles ainda conservam a vestimenta tradicional, em que tanto homens, como mulheres vestem blusas e camisas coloridas. As mulheres costumam usar longas saias e os homens usam uma espécie de cueca de pano, chamada Tagora. Ambos usam sandálias de couro, confeccionadas por eles mesmos.

MG_osraramurisumatribocorredora_1O Jogo da Bola (chamado Rarajípari para os homens e Ariweta para as mulheres) é a tradição mais marcante destes indígenas e que se realiza para festejar a colheita e também para socializar. O ritual começa uma noite antes da corrida, as famílias reúnem-se para beber licor de milho e para comer e, assim que amanhece, cinco corredores de cada comunidade formam uma equipa para correrem pelos complicados terrenos da montanha, chutando uma bola de madeira, enquanto competem contra outras equipas. A competição termina, quando o cansaço vence todas as equipas, restando apenas um grupo vencedor. As equipas de Rarámuris mais resistentes podem chegar a percorrer 200 Km e correr durante 3 dias sem parar, para ganharem o jogo. Toda a comunidade participa, apostando nas suas equipas e ajudando os corredores, oferecendo-lhes água e alimentos, ao longo do caminho, e chegam a correr com eles, durante parte do trajecto, para lhes fazer companhia.

Na cultura ocidental, procura-se muitas vezes perseguir o reconhecimento individual e, há alguns anos, caça-talentos de todo o mundo levam estes indígenas para competirem em diferentes corridas. Entre os resultados mais destacados está, em 1994, Juan Herrera, que entrou para o Record Guinness, durante a ultramaratona de 160 Km de Los Angeles. Outro caso foi o de Ciro Chacarito, um ancião Rarámuri, que foi campeão numa corrida de 100 km na Califórnia, superando e vencendo todos os jovens que participavam do evento. A fama de corredores dos Rarámuris, levou também a que a Nike incluísse a imagem destes seculares desportistas no lançamento da linha de ténis Nike Free Flyknit e a que atletas do mundo todo façam-lhes visitas, para conhecerem as suas técnicas de corrida. Chama bastante a atenção o facto destes corredores utilizarem para as corridas cuecas de pano, camisas coloridas de manga comprida e pés protegidos apenas por sandálias de couro.

Apesar de toda essa curiosidade em torno deles e da fama de corredores, os Rarámuris acreditam que a sua resistência nestas longas corridas expende-se além da questão física, ou genética, já que para eles, correr, é algo espiritual.

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Maria J Gutierrez

Bióloga de profissão, amante da natureza e de todas as suas formas de vida, desde os seres mais gigantes até aos mais pequeninos. Não há nada como estar com a família, descobrir o mundo, aprender, ler um bom livro e cervejinhas com os amigos.

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