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“Os problemas de expressão” do Governo

“Nos 15 minutos que Passos Coelho demorou para anunciar o seu esquema na televisão, no início do mês, conseguiu a notável proeza de unir não só os partidos da oposição contra o seu plano ‘intolerável’, mas também os sindicatos, os patrões e os economistas.”

Assim, descreve a revista britânica “The Economist”, o discurso do Primeiro-Ministro português, Pedro Passos Coelho, no inico do mês de Setembro, em que anunciou mais medidas de austeridades ao país. Parafraseando a publicação, no artigo podemos ler que Portugal passou de um “aluno modelo” para um “exemplo de perigos”, pois os sacrifícios que se pedem já ultrapassam os limites do tolerável. Porém, não são só as medidas de austeridade que estão a deixar os portugueses indignados, mas também o próprio discurso do executivo.

Para se identificar o discurso do governo, as palavras “Cortes”, “Austeridade” e “Sacrifícios” são palavras-chaves que têm presença obrigatória nos seus comunicados de imprensa. Tendo a sombra da Troika sempre a pairar, cada vez que um membro do governo se dirige ao país estes termos nunca faltam e são o rastilho para uma série de manifestações, greves e desabafos enfurecidos nos cafés, ou nas redes sociais: frase como “Passos emigra”, “Gatuno” e “Que se lixe a troika” são alguns dos exemplos que demonstram o descontentamento geral.

Especialistas em comunicação afirmam que a revolta do povo português não se prende apenas com o conteúdo do discurso, mas com aquilo que não é dito pelos ministros. Segundo o comentador Marcelo Rebelo de Sousa, o discurso de Passos Coelho pode ser definido como “no mínimo descuidado e no máximo desastroso”, Que Portugal tem (e deve) pagar a ajuda externa que pediu aos mecanismos internacionais não é uma questão que seja problemática, mas o que está a faltar é a explicação por de trás de cada medida adicional. Porque é que as primeiras medidas de austeridade não deram o resultado esperado? Para quê mais medidas? Para onde vai o dinheiro arrecadado dos impostos e dos cortes nos subsídios? Quais foram os cortes nas despesas do executivo? Estas e muitas outras questões são alguns dos temas que o país não consegue entender e que o executivo tem falhado em transmitir.

Para além de a mensagem não ser objectiva e clara para que qualquer português entenda, dos diferentes membros (e mesmo dos ministros de cada partido) do governo existem discursos contraditórios e que demonstram a confusão e a instabilidade que se vive no seio do governo. Se numa semana o Ministro-Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, dá uma declaração polémica para a imprensa, na semana a seguir, ou mesmo no próprio dia, o Primeiro-Ministro vem e desmente, ou tenta atenuar as afirmações anteriores. O caso RTP e as declarações de Relvas que davam conta que o caso já estaria definido e as declarações, quase imediatas do primeiro-ministro a desmentir o ministro são representativos da desarticulação entre os membros.

A incerteza e “problemas de expressão” que ameaçam a coligação, que governa, é mais uma prova que o executivo já foi mais unido. Para evitar estas correcções públicas da parte do Primeiro-Ministro é necessário homogeneidade no discurso político, concordância e esclarecimentos claros e objectivos por parte de todos os membros do executivo que espelhem o aparelho politico como um todo e não uma coligação instável entre dos partidos.

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Estela Tavares

Sem dúvida, que a comunicação é uma paixão inegável e que me define como pessoa, por isso, a licenciatura em jornalismo, na Escola Superior de Comunicação Social foi um passo natural. Poder escrever sobre o mundo, que nas suas múltiplas manifestações nos fornece a matéria-prima, que nos rodeia é um privilégio.
Quanto a mim, os vícios por porta-chaves, sapatos e o Nadal (um grande tenista) são algumas das características, que segundo os meus amigos me conferem uma loucura q.b

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