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Os passos dos nossos pais

Quando abri a porta do teu camarim, vi os teus olhos fixados no espelho. A tua cara estava preta do rímel escorrido e o azul dos teus olhos parecia-se muito com uma solidão que eu desconfiava. Eram um mar tingido, as tuas lágrimas, aquelas que me tinhas confessado não conseguir chorar.

“Não consigo mais” anunciaste. Sem pena na voz, disseste como quem diz o dia da semana. Peguei num dos bolos que exigi que tivesses no camarim e dei uma dentada. Eu já sabia que este dia chegaria, mas não estava preparada. “Estou cansada” e a tua voz era de uma exaustão resignada e finalmente assumida.

Acendeste um cigarro e, lentamente, quase filosoficamente, deixaste o fumo partir. Observavas o fumo como se te despedisses dele. Estendeste-me uma fotografia do teu pai, que eu tinha conhecido tão bem. Que o mundo conhecia tão bem. Eu aceitei-a e pareceu sair-te um peso de cima. Tu e ele, um pouco antes da sua morte. Que idade terias, três anos? Pareciam felizes os dois. Também eu acendi um cigarro. Sorri enquanto te devolvia a fotografia, mas tu não a aceitaste. Só olhaste para mim enquanto fumavas. Vi nos teus olhos a inveja de eu ter conhecido o teu pai e de tu não teres tido a oportunidade de o fazer. Vi em ti o peso de ser filha de um pai que toda a gente conhecia menos tu. Que toda a gente idolatrava e chorava a sua perda. Pensei em todos os segredos que só tu e a tua mãe dividiam com ele, os segredos que mais ninguém no mundo sabia, e que deveriam ser sagrados para ti. Mas adivinhei a resignação de serem segredos contados e partilhados, não segredos feitos pelos dois.

“Eu percebo” disse estupidamente, como se fosse tua irmã e partilhasse a dor. Não era mentira, eu percebia, embora essa dor fosse muito tua e eu nem pudesse imaginar o buraco que terias dentro.

Ficámos em silêncio. Eu teria de informar toda a gente nos cinco minutos seguintes mas não conseguia organizar a minha coragem para pensar nisso. Lembrei-me de quando conheci o teu pai, num bar de jazz onde fui à procura de emprego. Ele de cigarro na boca e cabelo preso atrás das orelhas, os olhos fechados e a cabeça quase encostada às teclas do piano. Como se falasse com ele. Muito jovem, muito antes de se tornar no que todas as pessoas pensavam conhecer. Afinal, talvez tu o conhecesses muito melhor, nesses segredos contados por mim e pela tua mãe, do que todo o mundo que tu pensavas que tinha tido uma oportunidade que, a ti, te tinha sido roubada.

Ficámos em silêncio, porque mesmo que eu te dissesse isso, nunca preencheria essa lacuna no teu coração. Compreendi que tinhas crescido e que tinhas percebido que precisavas de te encontrar, que neste momento precisavas de te afastar daquela vida tão parecida à dele. Da mesma forma que tinha compreendido que tinhas escolhido a mesma vida que ele só para te sentires mais próxima de alguma forma, tal como quando vestias o pijama dele, fumavas a mesma marca de cigarros, vias obsessivamente todas as fotografias e vídeos que restavam. Compreendi, e por isso apaguei o cigarro, abracei-te e beijei-te o cabelo, o cabelo tão parecido ao dele.

“Então, hoje vamos para casa” disse-te.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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