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Os Passos da Primeira Guerra Mundial

Estabelecer um resumo da Primeira Guerra Mundial não é fácil. Se considerarmos apenas as datas começa com o assassinato do Arquiduque Francisco Fernando e termina com o Armistício a 11 de Novembro de 1918, mas até isto é disputado. Há quem defenda que, dadas as tensões que se viviam na Europa e a corrida às armas, a Primeira Guerra Mundial começa ainda no alvor do século XX. Para além disso, dado que o último tratado de paz só foi assinado em 1923, pode alegar-se que a Grande Guerra durou quase 23 anos. O período que se considera a Primeira Guerra Mundial representa apenas o período em que houve uma efectiva luta armada entre os vários intervenientes.

Comecemos pelo início. As tensões nacionalistas que se viviam na Europa, a corrida às armas que existiam, juntamente com as potências centrais altamente militaristas e com as associações anarquistas, são consideradas as causas distantes desta guerra. As tensões iam-se acumulando e o armazenamento de armas também. Havia um sentimento de superação militar, o que gerava um ciclo vicioso, em que um país tinha que ter um melhor exército que os restantes países europeus. Nesta altura, o padrão (e a potência militar) era o Reino Unido, um claro o alvo a abater.

O assassinato do Arquiduque Francisco Fernando em Sarajevo, a 28 de Junho de 1914, é considerado a causa próxima. Segue-se um mês e meio conturbado. A 5 de Julho, a Áustria-Hungria pede apoio à Alemanha, que o garante. A 23 de Julho, é enviado à Sérvia um ultimato exigindo a remoção da propaganda que incitava ao ódio e ao desrespeito pela monarquia austro-húngara e pela sua integridade territorial, a dissolução da organização “Defesa do Povo” e de todas as sociedades semelhantes, a remoção do exército sérvio e da administração civil de oficiais cujos nomes serão providenciados pelo Governo austro-húngaro, entre outros pontos descritos e destinados a humilhar a Sérvia. A resposta Sérvia é considerada insatisfatória e, a 28 de Julho, exactamente um mês depois do assassinato, a Áustria-Hungria declara guerra à Sérvia. A 31 de Julho e em resposta, a Rússia mobiliza-se, sendo avisada pela Alemanha para cessar essa movimentação. No dia seguinte, a 1 de Agosto de 1914, a Alemanha declara guerra à Rússia, assinando simultaneamente um tratado secreto com o Império Otomano, e a Itália declara a sua neutralidade.

O primeiro combate (Joncherey, França) dá-se a 2 de Agosto, entre forças alemãs e francesas, ainda antes de os dois países entrarem oficialmente em guerra, o que viria a acontecer no dia seguinte. Como resposta a Alemanha, invade a Bélgica, ignorando a sua neutralidade e forçando a entrada do Reino Unido na Guerra. Os Estado Unidos da América declaram a sua neutralidade a 4 de Agosto de 1914 e, dois dias depois, a Áustria-Hungria declara guerra à Rússia. No dia seguinte, a Força Expedicionária Inglesa desembarca em França e começa a primeira batalha oficial da Primeira Guerra Mundial, a Batalha de Frontiers (7 de Agosto a 13 de Setembro), em que os exércitos ingleses, franceses e belgas batem-se contra o exército alemão e são derrotados.

Até aqui, a guerra tinha apenas uma frente, a Frente Oeste, mas, a 9 de Agosto, estende-se até África, com o começo da Campanha da Togolândia. A 11 de Agosto, a França declara guerra à Áustria-Hungria e é seguida, 24 horas depois, pelo Reino Unido na mesma acção. A 20 de Agosto a Alemanha ocupa Bruxelas e, dois dias depois, a Áustria-Hungria declara guerra à Bélgica. No dia seguinte, a 23 de Agosto, o Japão declara guerra à Alemanha e, três dias depois, a Áustria-Hungria declara guerra à potência do oriente. Termina assim o mês e meio mais conturbado da História.

Neste momento, ainda se achava que a guerra não ia durar muito tempo e pensava-se que os impérios centrais sairiam vencedores. Os Aliados sofreram duas pesadas derrotas logo no início da Guerra (Frontiers e Tannenberg) e, um pouco devido à arrogância Inglesa, mais derrotas se avizinhavam. Havia claramente um desequilíbrio na balança da Guerra, mas o que os Aliados perdiam em terra ganhavam no mar. Às mãos da Marinha Real Inglesa, o Império Alemão perde a Primeira Batalha da Baia de Heligoland, no Mar do Norte.

A 1 de Novembro, a Rússia declara guerra ao Império Otomano. No mesmo dia a Marinha Real Inglesa perde o primeiro confronto naval para o Império Alemão, na Batalha de Coronel. No dia seguinte, começa o bloqueio naval à Alemanha. Na mesma altura (19 de Outubro-22 de Novembro), decorre a Primeira Batalha de Ypres, uma vitória dos Aliados, impedindo o acesso alemão às cidades portuárias de Calais e Dunquerque.

O ano de 1915 começa e, com ele, a Alemanha começa a guerra submarina sem restrições no Atlântico, atacando indiscriminadamente os navios que encontrava. Fossem eles navios de guerra, ou mercantes. A 19 de Fevereiro, começa uma das mais conhecidas campanhas da Primeira Guerra Mundial, a Campanha de Gallipoli, que opunha o Império Otomano ao Império Britânico e à França e que culminou com a vitória do primeiro interveniente.

Entre 22 de Abril e 25 de Maio, dá-se a Segunda Batalha de Ypres. O resultado é uma vitória táctica alemã, mas, no panorama geral da Guerra, não muda nada. A 25 de Abril, enquanto os Aliados invadiam a baia de Anzac e o Cabo Helles, como parte da Campanha de Gallipoli, assinava-se em Londres um Tratado entre os Aliados e a Itália, destinado a quebrar a neutralidade italiana e a faze-la juntar-se aos Aliados. A 23 de Maio, parte dos termos do Tratado são cumpridos com a declaração de guerra da Itália à Áustria-Hungria. A restante parte do Tratado só seria cumprida em 1916, quando a Itália declara guerra à Alemanha. Até ao final do ano, o centro da Guerra vai mudando. Ora dos Balcãs para Gallipoli, da frente oeste para a este, da frente italiana para a africana. É considerado que este mudar do centro da Guerra corrigiu o seu desequilíbrio.

Em 1916, vemos o término da Campanha de Gallipoli, com a vitória Otomana e vemos também o Almirante Scheer ser nomeado comandante da Frota de Alto Mar alemã. A 27 de Janeiro, a Grã-Bretanha introduz o serviço militar obrigatório, em que todos os homens entre os 18 e os 45 anos são obrigados a participar na guerra (os objectores de consciência eram colocados em postos de administração). A Batalha de Verdun começa a 21 de Fevereiro e estende-se até 20 de Dezembro, sendo uma das mais famosas batalhas da Primeira Grande Guerra. Em Março, Portugal entra oficialmente em combate, após ser-lhe declarada guerra pela Alemanha. Já tinham ocorrido umas escaramuças em Moçambique entre soldados alemães e portugueses, mas que não são consideradas como parte da Guerra. No fim de Abril, entre 24 e 29, dá-se a Revolta da Páscoa na Irlanda, que irá dominar o pós-guerra inglês e levaria à formação do Estado Livre Irlandês. Entre 31 de Maio e 1 de Junho, luta-se a Batalha da Jutlândia, entre a Marinha Real Inglesa e a Marinha Imperial Alemã, cujo resultado ainda hoje é disputado. Não se pode falar do ano de 1916 sem referirmos a Batalha do Somme, que começa a 1 de Julho e só terminaria a 18 de Novembro, sem um resultado definido e com mais de 1.1 milhões de mortos. É também a primeira vez que se usam tanques num confronto.

Durante o Verão de 1917, mantém-se o status quo da guerra, não havendo grandes movimentações. A excepção é a declaração de guerra da Itália à Alemanha, cumprido finalmente a totalidade do Tratado de Londres. A 21 de Novembro, morre o Imperador Francisco José da Áustria, considerado por muitos o ponto em que a balança da guerra perde o equilíbrio e começa a pender para o lado dos Aliados.

Entramos em 1917 e assiste-se, em Março, à abdicação de Nicolau II da Rússia e, em Abril, à tão esperada entrada na guerra dos Estados Unidos da América, com as tropas a chegarem a 25 de Junho. A 31 de Julho, começa a Batalha de Passchendaele, também conhecida como a Terceira Batalha de Ypres e que se prolonga até 10 de Novembro, terminando com uma vitória táctica e estratégica dos Aliados, mas um falhanço das operações também da sua parte. Em Novembro, dá-se a Segunda Batalha da Baia de Heligoland, que, ao invés do que aconteceu no início da guerra, termina com um empate.

1918. O ano final da guerra. A moral das Potencias Centrais começa a esmorecer. Em Janeiro, o Presidente dos EUA apresenta os seus famosos 14 Pontos. Entre 15 de Fevereiro e 2 de Março, os alemães avançam na Frente Este, capturando cidades ucranianas, mas, a 3 de Março, é assinado o Armistício entre as Potencias Centrais e a Rússia. Termina a guerra para a Rússia e acaba-se a Frente Este. De 21 de Março a 5 de Abril, luta-se a Operação Michael. O sucesso inicial do Império Alemão é rapidamente desfeito e os Aliados conseguem uma vitória pírrica. De 7 a 29 de Abril, luta-se a Batalhe de La Lys, em que os alemães vencem tacticamente, mas a vitória é considerada um falhanço a nível operacional e estratégico. A 18 de Julho, termina a Ofensiva da Primavera com uma vitória alemã, mas mais um falhanço operacional e estratégico. A 8 de Agosto, começa a Ofensiva dos 100 dias, que culmina, a 11 de Novembro, com a vitória dos Aliados sobre o Império Alemão e termina, na prática, a Primeira Guerra Mundial.

A 18 de Janeiro de 1919, começa a Conferência de Paz em Paris. A Frota de Alto Mar Alemã afunda-se em Scapa Flow e as 9 vítimas mortais deste acontecimento são consideradas as últimas mortes da Primeira Guerra Mundial. A 28 de Junho, assina-se o Tratado de Versailles, sendo ratificado pela Alemanha a 8 de Julho e pelo Reino Unido a 21 do mesmo mês. Com a primeira sessão da Liga das Nações a 10 de Janeiro de 1920, termina oficialmente a Primeira Guerra Mundial.

Nunca houvera antes um conflito tão sangrento, nem tão destrutivo para o mundo. Na sua totalidade, foram 10 milhões de soldados mortos, 20 milhões de soldados feridos, 8 milhões de soldados desaparecidos. Ainda hoje é possível encontrar nos campos da Bélgica restos mortais de soldados. E tudo por causa de um tiro. Um tiro que se ouviu pelo mundo inteiro.

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Manel Gabirra

Estudante da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa no Curso de Línguas, Literaturas e Culturas. Grande apaixonado por automobilismo e política.

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