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Os olhos que já não vêem

Ouviu a voz da avó a cantar entre risos que pareciam bolas de sabão, numa língua alegre que não era a dele. Ele comia uma torrada e a mãe preparava o almoço para levar para o trabalho. Pararam. A avó apareceu na sala: a anca debaixo da camisa-de-noite mexia ligeira e com cuidado, mas com vontade e alegria; a peruca de cabelo escarlate pelo ombro, a contrastar com a pele negra como café; e os pés empantufados a acompanhar o ritmo da música que só ela ouvia, que só ela repetia. O olhar passou por eles sem os ver. Entre palavra e palavra daquela canção, ela ria e juntava as mãos num aplauso à vida e levantava-as na euforia de uma prece, andava devagar à volta do sofá, pela sala e pela cozinha. Ajeitava a peruca brilhante. Por vezes parava, dançava no lugar de olhos fechados e expressão serena, e os lábios mal se moviam, mas a alma explodia de música e alegria.

Aquele era um bom dia, pensou satisfeito, e continuou a comer a torrada.

Há muito tempo que a avó não os via. Antes, tinha cuidado dele até aos quatro anos e ele tinha saudades dos passeios, dos bolos e bifes com batatas fritas que ela lhe fazia em segredo, das histórias da infância da avó, tempos que ele imaginava pré-históricos. Antes, ele adormecia no colo dela à tarde enquanto ouviam a missa em latim, a Ave Maria e o Pai Nosso repetidos e repetidos e repetidos, e ele a deixar-se levar por um transe delicioso e confortável. Antes, ele conhecia-lhe o orgulho nos olhos. Agora, ela já não os via. Agora, quando ela olhava sem ver, doía-lhe nos ossos lembrar-se do antes, dos abraços dela, da felicidade dela quando a mãe o deixava lá todas as manhãs, do deslumbramento e do brilho quando o tio os visitava. Agora eram ele, o pai e a mãe que cuidavam dela – dos momentos maus, dos momentos inexplicáveis, dos momentos tristes, quando falava sozinha ou com o tempo, e reclamava com quem eles já não viam ou quando era incapaz de sair da cama. Ele conseguia identificar o tamanho do vazio da avó segundo a peruca escolhida no momento.

Quando chegou da escola, o canto da avó estava mudo. A casa guardava o silêncio invulgar e incómodo do inesperado. Foi directamente ao quarto procurá-la. Encontrou todas as perucas espalhadas e o colchão no chão, do avesso. Não compreendeu. Percorreu a casa, procurou-a no quarto dos pais, na sala, na cozinha, na casa de banho. Depois, sentou-se no sofá entre o receio e a espera. Onde estaria ela? Tinha decidido que iria telefonar à mãe quando ouviu a porta da rua a abriu-se. A mãe trazia a avó, completamente nua, a cabeça careca destapada, banhada em lágrimas e mal-cheirosa. Queixava-se, desolada. A mãe levou-a para a casa de banho. Ele, ainda no sofá, ouvia a água a correr e sentia o bafo do vapor na pele. O lamento da avó:

«Pai, onde está o avô, pai? Pai, e a mãe? Pai, porque não voltas?»

E a voz dela parecia ser a de uma criança assustada. Sentiu-se infinitamente triste. O pai e a mãe nunca lhe tinham contado o que tinha acontecido, mas ele lembrava-se bem da noite em que tinha visto a mãe a chorar pela primeira vez, desesperada, perdida, a noite em que o pai lhe parecera tão quebrado e tão longe de um super-herói. Teve medo. O tio tinha morrido e ele só pôde ver a avó muitos meses depois, mas a avó nunca mais o viu. A avó não era cega, mas agora só via para dentro, vivia longe do tempo, mesmo parecendo estar ali, explicou-lhe a mãe com a voz tão dorida que foi nesse momento que ele descobriu que coisas terríveis podiam acontecer e os pais não o poderiam proteger para sempre.

Silêncio.

A mãe foi à sala dar-lhe um beijo na testa. Preparou-lhe uma taça de cereais para o lanche e pediu-lhe que tomasse conta da avó uns minutos, ela ia só comprar algo para o jantar. Com a testa enrugada de preocupação e cansaço, segredou-lhe que a avó estava deitada, que hoje era um dia dos tristes. Mas ele já sabia.

O som bizarro começou poucos minutos depois, como um animal ameaçador, um alfa no seu território a avisar que estava pronto para matar. O coração dava-lhe murros em todo o corpo, obrigava-o a suplicar por ar. Soube: não, afinal não era um dia dos tristes – era dos outros, dos inexplicáveis, daqueles em que a avó ficava com outras vozes e a sopa de letras mostrava-lhe mensagens em cada colherada. Ouviu as molas a avisá-lo que a avó estava a sair da cama. Esperou-a a tremer, já a adivinhava com a peruca de cabelo encaracolado e a expressão transformada. Ela apareceu de camisa-de-noite, a peruca encaracolada posta ao contrário, numa excentricidade mais assustadora que ridícula, a rosnar palavras que ele não entendia. O leite começou a borbulhar, os cereais a saltarem-lhe da taça. A avó mexia-se como quem não conhecia os limites daquele corpo velho. Ele teve medo. Não sabia do quê, já tinha visto acontecer várias vezes, só que teve tanto medo que se levantou para fugir. Mas o chão prendia-o, agarrava-o à volta dos tornozelos, e o medo era um frio que lhe subia pelo corpo. Sentiu-se tonto e o calor começou a descer pernas abaixo, o pânico a molhar-lhe as meias e a fazer uma poça no chão. Ouviu-se a chorar. A avó não lhe prestava atenção – escalava as paredes com as unhas. Quando a mãe voltou, encontrou-o sentado na poça de urina, soluçando de exaustão, e a avó deitada no chão da sala, as unhas em sangue, a dormir.

Nessa noite, ele pediu ao pai para adormecer com a Ave Maria em latim no rádio. Precisava dos velhos tempos, disse. O pai anuiu e sentiu no estômago a tristeza de saber que o filho tinha perdido mais um bocadinho da sua inocência, que se tinha feito mais um bocadinho adulto. A meio do sono, ele acordou sem conseguir respirar. Demorou a perceber que estava no meio de um abraço. Tocou na pessoa – na roupa, no pescoço, nos cabelos. Percebeu a peruca de cabelo liso e curto, aquela que a avó usava quando o levava a passear, quando fazia bolos, quando abraçava o tio. Aquela que a avó usava no antes. Ela soltou-o e olhou-o. Viu-o, os olhos a sorrir de orgulho. Beijou-o na testa e sussurrou: «queres ajudar-me a fazer um bolo? O tio deve estar mesmo a chegar!»

Sim, também havia estes dias. Os dias em que a avó voltava a ser a avó de antes, ainda presa no passado. E por mais que ele gostasse destes, por mais Ave Marias que rezasse todas as noites para que ela acordasse sempre nestes dias, eram os que mais doíam, eram os mais difíceis de ver passar.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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