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Os media e o mundo satírico

Usar os media no sentido de fazer sátira é uma realidade dos nossos dias. A verdade é que, desde sempre, foi um costume intrinsecamente indissociável do ser humano, que, por sua vez, é um ser social, sentido necessidade de buscar formas de ver retratado o meio em que vive, de forma crítica.

De forma mais abstracta, pense-se, primeiro, numa situação provável. Considerando a extrema visualidade que nos assola diariamente, pense-se num dado programa televisivo, visionado numa dada posição, num dado canal. Imaginando um retrato satírico de um episódio real o qual acompanhamos através da televisão, pode ser vista uma reconstrução constituída por uma série de objectos, ideias, características que nos transportam para a realidade daquele caso. Se existe humor, ou algum grau de concordância, significa que o consumidor se identificou.

De forma mais concreta, analise-se uma situação específica. Um grande exemplo de programação televisiva portuguesa deste tipo era o Estado de Graça, transmitido pela RTP1 até ao ano passado, tendo, porém, terminada a sua produção há cerca de três anos. O sketchSegurança Social – a funcionária ninja’ mostra uma trabalhadora da dita instituição que recebe um indivíduo vitimizado por um conjunto de penhoras. A mesma senhora, numa tentativa de ver solucionada a sua situação, descobre mais exemplares daqueles, ao que aquele se enerva e ela reage pela fala, fazendo com que aquele volte a aguardar por novo atendimento. Na verdade, em jeito de comentário, entendendo a situação em causa, pode tornar-se num momento bastante cómico: primeiro, a indignação do queixoso; segundo, numa tentativa de atender a esta abordagem, descobre que ainda tem mais alvos de penhora; terceiro, a frustração transformada em luta, a partir da qual se gera um clima tenso e o retorno do cidadão à interminável fila de espera.

Feita esta análise, tenha-se em conta a tese de mestrado de Rita Soraia Deodato, do Instituto de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), da Universidade de Lisboa, intitulada de ‘A comunicação política no entretenimento – O caso dos programas de humor em Portugal 2007-2008’. Esta fonte explica que “a sátira ajuda o espectador a ver as outras pessoas de forma diferente e quando se refere à sociedade permite o espectador reflectir sobre o seu próprio comportamento, uma vez que este faz parte do grupo retratado.” Consequentemente, tendo em consideração a sátira uma forma de fazer humor, em que “a ideia que está por trás do que fez rir é muito mais importante do que a sua consequência imediata”, envolvem-se “dois aspectos: a ridicularização enquanto meio e a mudança social enquanto fim”.

Tendo em conta aquelas palavras e complementando com a temática da ideia anterior, regresse-se ao conteúdo programático da televisão portuguesa de 2011-2012 ‘Estado de Graça’. Uma das suas paródias era designada de ‘Querido, Mudei o Orçamento’, na parte da política. Aqui, aparece Maria Rueff como Assunção Esteves, presidente da Assembleia da República, que apresenta uma proposta de ajuda aos portugueses, buscando o programa ‘Querido, Mudei a Casa!’, sendo que, neste caso, se pretende mudar o orçamento de Estado do ano de 2013. O tema passa pelas finanças públicas, metaforizadas pelos adornos decorativos ao documento em causa. Como pode ser isto alvo de comédia? Primeiro, por uma Assunção Esteves figurada, pela sua carga de sotaque e pela sua actuação formal. Segundo, pelas figurações do apresentador do original, Gustavo Santos, assim como do carpinteiro coordenador das obras, onde a tendência reside na jocosidade. Terceiro, pela metaforização atribuída ao Orçamento de Estado.

Voltando à tese anteriormente mencionada, ligada à comunicação de entretenimento em contexto político e na sua parte humorístico-satírica, de Rita Soraia Deodato, atente-se no seguinte excerto: “o humor, visto muitas vezes como fútil, é uma forte arma de denúncia, reflexão da sociedade e do poder político e pode em muitas ocasiões ser o único espaço aberto para a crítica e reflexão em algumas sociedades.” Com efeito, a autora destaca a importância de conteúdos humorísticos ligados a este tipo de temáticas, “numa época em que os programas televisivos sobre humor político proliferam e têm cada vez mais sucesso entre as camadas mais jovens da sociedade”, sem esquecer das habituais deixas de despreocupação da massa juvenil com estas matérias sociais. Assim, questione-se se não poderá este tipo de conteúdos captar a atenção pública e mostrar a necessidade de uma maior intervenção cívica.

Finalmente, podem aglomerar-se algumas características: a necessidade de identificação com a realidade, a obtenção do riso, a promoção das reflexões sobre a sociedade e, por último, o contributo dos media na mudança da visão sobre a cidadania. A mestranda referida lança, no seu trabalho, uma frase, que deixo no sentido de repetir a ideia de humor satírico, mas também de incitar ao pensamento: “[…] a sátira assume um papel relevante na nossa sociedade na medida em que nos permite olhar para essa mesma sociedade de forma analítica e crítica.”

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Pedro Ribeiro

Nascido em 1996, por terras vimaranenses, tem como principal ocupação os estudos na licenciatura de Ciências da Comunicação. Apreciador das relações Media e Sociedade e Sociedade e Cultura, o seu objetivo passará por se especializar na área do jornalismo. Nesse sentido, conta com várias colaborações, a desenvolver atualmente, de forma simultânea: para o jornal 'ComUM', no qual é redator nas secções de Cultura e de Sociedade, para o jornal 'Académico', juntamente com a sua participação semanal no 'Repórter Sombra', onde opina nas áreas de Sociedade, Cultura e Política. No seguimento desta última área, milita na Juventude Socialista, tendo-se revelado publicamente ativista da candidatura de António José Seguro. Além disso, desenvolve um certo carinho pela sociologia, a que se junta a filosofia e, ainda, uma enorme paixão por viagens.

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