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Os invisíveis

É velha. Adivinho-lhe a miséria nos gestos, cabeça baixa, ombros decaídos, murmúrios impercetíveis e mão estendida em forma de concha. Há quem vasculhe no fundo do bolso ou da mala uma moeda condescendente, escolhida com cautela, porque a crise obriga a cuidados redobrados. E tenho vergonha de mim, porque apresso o passo, recolho o olfacto e endureço as feições à sua passagem para que não se atreva a interpelar-me. Minutos depois esqueço-a. No dia seguinte, porém, lá está ela a avivar-me a memória e a vergonha. Mesmo quando indicia falsidade na lentidão excessiva dos passos a combinar com a cabeça baixa. Mesmo quando lhe descodifico os murmúrios e descubro neles uma raiva escondia que vem em forma de impropérios. Os palavrões saem num jacto, como um vómito necessário para expurgar as humilhações diárias. À noite recolhe os vagos pertences e a mão que aperta cautelosamente as moedas vai vazia, sempre vazia, porque o que ela reclama nenhuma moeda ocasional pode dar. Alguém a espera?

A coreografia é sempre nova embora os gestos pareçam repetidos. Normalmente é um jogo de braços, o direito de indicador erguido a apontar ou a fazer círculos, e o esquerdo mais recuado, a dar apoio. Convocado por um estranho imperativo de ordem que lhe habita, ele, que aparenta ter a vida bastante desordenada, arruma carros. Alto, magro, dentição irregular e olhar aflito. Muitas vezes desnecessário, sinalizando o óbvio, e em resposta uma mão que recua e torna a confirmar que o veículo está devidamente trancado. Noutras alturas, porém, ganha dimensão divina, descodificando lugares obscuros, nem sempre seguros, mas absolutamente necessários, pelo que a moeda quente lhe chega aliviada às mãos. Com os clientes habituais troca algumas conversas de circunstância, conversas antecedidas e precedidas por um aperto de mão de aparência cordial. Claro que temas não superficiais estão fora da equação, afinal, da ordem dos carros para a ordem da vida há uma distância que a indiferença não permite estreitar.

Dantes tinha a máscara. Chamava-se juventude e tudo era mais fácil com ela no rosto. Hoje que a máscara caiu tem-se a si próprio e o ‘si próprio’ não é muito. Uma reforma magra recolhida com raiva e ansiedade nos correios ao final de cada mês, uma prótese a flutuar em torno do maxilar que dificulta a fala e outras tantas maleitas que o tornam presença assídua na farmácia do bairro onde a parca reforma se dilui. Duas alianças na mão esquerda e um telefone fixo que raramente toca senão para campanhas publicitárias, tão desnecessárias como a vida que leva. Levar a vida, é tudo o que lhe resta. Levar a vida e agradecer o facto de ainda ter autonomia, de ainda poder tomar decisões e de todos os ‘aindas’ que a curto prazo, sabe, se perderão. Não tem sonhos. Sonhar como quando se tem a espada da morte a roçar a nuca? As tardes são passadas no jardim onde poucos anos antes partia baralhos com outros que, entretanto, partiram. Hoje parte o pão aos pombos. Só eles o vêm.

Teve filhos, mas nunca chegou a ser mãe. Tem o cabelo ressecado pela tinta loira de má qualidade, as raízes negras a combinar com as sobrancelhas, corpo cansado, rosto amarrotado. Amarrotadas também as mãos de onde despontam unhas compridas e vermelhíssimas. Pernas finas a escapar da mini saia, braços marcados por veias doridas e higiene duvidosa. Encontro-a muitas vezes pela manhã, coberta de brilhos e maquiagem, a chegar vinda não sei de onde e a partir igualmente para o incerto, cheia de vazio nos olhos.  É da vida, mas não parece ter muito domínio sobre a sua. No inicio impunha limites, que foram caindo um a um à medida que o vício aumentava. Conhece a matemática do prazer, mas são sempre contas de subtrair, subtrair o medo, o pudor, a dignidade. O telefone frenético auxilia nas marcações. Do outro lado vozes sempre iguais, graves, discretas, às vezes ansiosas, aflitas, hesitantes, outras vezes determinadas, arrogantes. Para quando do outro lado uma voz que a chame pelo nome próprio, ‘mãe’.

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Telma Santos

Licenciada em Direito e apaixonada pela comunicação. Entendo que o olhar para o mundo e para a actualidade deve ser feito, sempre que possível, por dentro.

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2 Comments

  1. Muito bem escrito.

    O gosto que sinto ao ler este texto contrasta com a dureza desta(s) realidade(s).

    (…) “E tenho vergonha de mim, porque apresso o passo, recolho o olfacto e endureço as feições à sua passagem para que não se atreva a interpelar-me. Minutos depois esqueço-a. No dia seguinte, porém, lá está ela a avivar-me a memória e a vergonha.” (…)

    Quantos de nós não sentimos, não fizemos o mesmo ?

    (…) “Claro que temas não superficiais estão fora da equação, afinal, da ordem dos carros para a ordem da vida há uma distância que a indiferença não permite estreitar.” (…)

    (…) “Conhece a matemática do prazer, mas são sempre contas de subtrair, subtrair o medo, o pudor, a dignidade.” (…)

    Muito perspicaz e consciente do que se passa á nossa volta. Forte. Impactante. Vivo. Consciente.

    Obrigado pelo «abanão» . Obrigado por me fazeres sentir mais vivo.

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