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Os ídolos

O ano de 2016 está a demonstrar ser um refinado ladrão. Deixemos de lado expressões como sorte, destino ou fado (que querem dizer todas o mesmo) e sejamos racionais. O ser humano não é eterno e a morte é certa. O consolo que nos resta é saber que podemos manobrar o tempo entre o nascer, ao qual somos totalmente alheios, e o seu termo. Aqui também se podem colocar duas questões aparentemente antagónicas: será que somos donos do destino, o livre arbítrio, ou o caminho já está, previamente, traçado? Não interessa. É um acontecimento certo na lei das probabilidades.

Quando se inicia um ano há o hábito de ser fazerem promessas, deixar de fumar, ir ao ginásio, mudar a alimentação, ler muitos livros, ser melhor pessoa e tantas outras. É tudo vã porque só funciona quando queremos, se estivermos dispostos a largar aquele lastro que nos incomoda. Caso contrário é mais do mesmo e não serve de nada. Mas uma coisa é certa: não podemos controlar quem nos morre. É um sentimento de impotência, de desconforto e de dor que parece não querer desaparecer.

O ano de 2016 começou mal. Não por ter sido a uma sexta-feira, aquele dia que caminha rápido para o fim de semana, mas porque nos tem levado seres muito importantes do colectivo musical. São os ícones que nunca desaparecem, que sabemos que não poderão ser eternos, mas que não queremos, de modo algum, largar, deixar partir. Ficamos “desidolados”, inquietos, irrequietos e danados. Uma pessoa furiosa é um perigo!

Em Janeiro, ficámos sem David Bowie, o camaleão, o artista que se travestizou de multifacetado e levou milhares de pessoas a ouvir a sua música, a copiar o seu estilo, a querer ser como ele. Sempre foi uma pessoa assumida e responsável pelos seus actos. Num mundo musical certas barreiras não existem ou, então, servem para serem quebradas e derrubadas. Ele esteve sempre presente, levou-nos até Marte, explicou o que era um herói, dançou, completou-nos. O seu take final foi de mestre. Sabia que não estava bem, que o fim estava próximo e obrigou-se a continuar para completar a sua obra prima. Estava tudo lá, nós é que não quisemos ouvir. Os nossos ídolos são eternos.

Prince, o gigante de 1,57m, que não concedia entrevista a pessoas mais altas do que ele, ousou e conquistou. As suas melodias, os seus escritos, tão misteriosos como directos, foram cantados por tantos que se sentiam hipnotizados pela mensagem passada. O visual nunca foi descurado e sabendo que era visto, analisado, inspeccionado por olhos críticos, nunca falhou e acrescentou. Tanto purple que se espalhou pelo mundo e que nunca deixará de cair. As botas e a guitarra passaram à História e a sua marca pessoal nunca será esquecida. Tanto que trabalhou para outros que o simples e comum mortal desconhece. Foi um homem completo que se foi cedo, demasiado cedo.

Leonard Cohen, o discreto, influenciou tudo e todos. As versões de uma das suas músicas continuam e continuarão a encher os nossos corações, as nossas vidas que precisam de som, de luminosidade musical para avançar. A voz rouca e profunda, a escrita directa e sentida fizeram dele um autor apreciado por vários quadrantes. De imagem, invariavelmente, clássica e acompanhada de chapéu foi o progenitor de tanto som e palavras que ficaram gravadas na memória colectiva. Homem sem medo de mostrar os seus sentimentos, apresenta-nos Marianne, mulher especial, que lhe deu a mão e o orientou. A sua partida, em Julho deste ano, talvez lhe tenha trazido o vazio e a amargura da solidão. Decidiu ir ter com ela e virou-nos costas. Estava no seu direito.

O tempo, o ladrão de casaca e cartola, sorri para um lado, sorri para o outro, abre uma porta, abre outra, torna-se um cavalheiro, mas é um falso, um cínico e um bandido da mais alta estirpe. Faz-nos fechar os olhos para ouvir todas estas melodias planantes e sonhar com outros lugares onde tudo possa ser perfeito e fabuloso. Esses locais são imaginados por nós porque não existem. Aqueles homens criaram algo de maravilhoso na nossa mente: a ilusão do que queremos.

Agora sentimos que nos faz falta aquele bálsamo, aquela energia que nos levou a desejar o que não sabíamos que havia, o que estava à nossa frente e não víamos. Como vamos sobreviver sem o seu alento? Que será de nós, das nossas almas dependentes de mais e mais pautas, colcheias, semi-colcheias e ritmos? Seremos forçados a criar as nossas próprias canções, os nossos sons e cantar sozinhos?

Um dia, talvez, nos voltemos a encontrar e assim juntar todos estes génios para elaborar uma melodia sem par, que nos transporte para um outro universo, um outro local onde os bons nunca morram e que consigam estar sempre ao pé de nós. Por enquanto temos aquilo que se chama de saudades, o que é estranho, na mesma, porque nunca os conhecemos pessoalmente. Ai, o ser humano é muito complexo e a vida é tão bizarra.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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