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Os homens sempre choraram

Esta vida, em que vestimos este corpo, estamos dentro de um jogo de análise combinatória da matemática. Tão simples e tão dinâmica, quanto isto. Das probabilidades, às evidências, quando as flores que imaginamos nos são oferecidas, deixam-nos a pensar em coincidências que mais não são do que o comprovar matemático da vida que aqui temos.

Embora distraída o suficiente para me afastar do tema que pretendo abordar, a verdade é que escrevo estas palavras por uma situação vivida por mim. Do alto dos seus 8 anos, uma menina com olhos cor de infinito e interrogações questiona-me: “Chorar serve para quê? Como é que as pessoas começaram a saber chorar?” Como adivinharia ela que seria essa uma das inquietações sobre a qual os meus dedos viriam a escrever.

Na música, na literatura, na vida real, as lágrimas e o choro prendem atenções, apelando aos corações e ao debate de ideias.

 “Interrogo o infinito e às vezes choro…”

(Antero de Quental)

Mais do que um jorrar de lágrimas, mais que uma dinâmica fisiológica, o choro é motivo de autênticas maratonas de estudos ao longo da história. Parecendo tão simples e natural, a verdade é que se trata de um tema delicado e bem mais profundo, além do visível.

Atravessamos a história da humanidade com histórias e estórias de homens e mulheres com olhos alagados em lágrimas. Tristeza, desespero, raiva, ira, frustração, arrependimento, alegria, nostalgia, euforia, empatia, dor física ou psicológica, emotividade, sensibilidade, ou pelo tema que acalenta a vida, por Amor. Os motivos desdobram-se como um origami complexo, onde o choro se encaixa na perfeição e não abre alas para dúvidas.

As razões que nos levam a chorar, além de nos definirem a personalidade, provam-nos que as emoções nos dominam ao ponto de deixarmos cair lágrimas. A sós ou acompanhados, em privado ou em público, a realidade de ver alguém chorar impele uma interpretação extra-física, como um grito íntimo de nos fazermos ouvir pelo cair de uma lágrima que rola pelos contornos do rosto.

A interpretação do choro é tão colada à identidade de cada um que é o primeiro sinal interpretado por uma mãe, assim dê à luz um filho.

Que as minhas lágrimas corram assim para bem longe, para que meu amor nunca saiba que um dia chorei por ele.

(Paulo Coelho)

Tal como temos impressões digitais únicas, assim temos formas de chorar igualmente únicas.

Chorar assume-se como uma forma de expressão, revelando muito da personalidade e identidade de cada um. Ainda que seja um processo fisiológico, cabendo em qualquer tratado de Anatomo-Fisiologia, o choro, forma de chorar, o motivo por que se chora, é condicionado por um rol de factores. A cultura, a época temporal e o sexo são dos mais marcados condicionantes que influenciam as ‘choradeiras’.

Ainda que assim seja, por muitas diferenças que haja, a verdade é que chorar é, antes de mais, um mecanismo necessário de defesa do organismo. Limpa, humedece e nutre a córnea do olho mediantes situações eventualmente agressoras e nefastas à integridade do olho. Estas lágrimas lubrificantes e basais, reflexas (ricas em anticorpos), ou emocionais (ricas em proteínas e hormonas) e de felicidade são transversais a todos, caindo num automatismo do corpo humano.

Chorar requer o consumo acelerado de glicose do organismo. E compostas por gordura, muco e água, as lágrimas são produzidas nas glândulas lacrimais.

Sim, uns choram mais que outros. Uns choram declaradamente, outros escondidos dos demais. Uns choram mares e oceanos, noutros uma lágrima é suficiente.

Existe a teoria que chorar ajuda o corpo a limpar-se de toxinas, estimulando, paralelamente, o exercitar de músculos do rosto, favorecendo o retardar do envelhecimento, isto depois do desvanecer dos olhos papudos, típicos de uma valente choradeira e, ouso dizer, rejuvenescedora choradeira, mediante este credo.

Meu choro é silencioso. Sem lágrimas ou soluços. Meu choro é doloroso, vem de dentro. Quando choro, é a minha alma que grita e não os meus olhos.

(William Shakespeare)

A comunidade científica deslumbra-se por este tema. Em resultado de experiências de campo, o oftalmologista e investigador espanhol Juan Murube Del Castillo, refere que o choro surgiu como uma forma de comunicação, muito antes da linguagem, como um novo recurso de expressão além da mímica de rosto. Num dos seus estudos, em 1992, tirou curiosas conclusões. As mulheres choram em média 3 vezes por semana, os homens choram em média 2 vezes por semana. A 6ª feira e o Sábado são os dias mais escolhidos para chorar, prendendo-se esta incidência com o facto de estes dias serem aqueles em que as relações interpessoais são mais densas e prováveis.

Outra conclusão é que chora-se preferencialmente à noite, em ambos os sexos.

O choro é, acima de tudo, uma poderosa forma de comunicação com os demais”, diz Murube, dispensando palavras como forma de expressão.

Em bica ou escassas, estratégicas ou sinceras. As lágrimas, ou a falta delas, captam todas as atenções, não deixando os demais indiferentes a estes fluidos. A comunidade médica e científica não têm dúvidas, quem não chora reprime um importante canal de diálogo, além de reprimir a expressão de emoções e sensações humanas. 

Os homens sempre choraram

Admirem-se. A história da humanidade é pautada de choros públicos no masculino. Transversalmente no tempo, chorar era uma “tarefa” digna do sexo masculino, sendo reprimida esta forma de expressão às mulheres.

A par de toda a modernidade, a substituição de valores no mundo ocidental veio reprimir o choro nos homens. Homens que ousam chorar são rotulados de lamechas e altos graus de sensibilidade que, se aprovam, sim, mas no sexo oposto.

Queiram saber que, no mundo Helénico, ao homem era permitido e aceite chorar. Por seu lado, o sexo feminino não era bem visto se o fizesse. Para os gregos, tratava-se de uma forma de expressão de sentimentos, digno da virilidade masculina. No século XVIII, em França, nos recitais de romance, dada a densidade emotiva, era permitido chorar livremente para ambos os sexos.

Ainda nos dias de hoje, tribos indígenas aprovam o choro nos homens guerreiros e combatentes. Nos dias que vivemos, os países islâmicos aprovam a expressão do choro nos homens, sendo algo pouco aprovado no sexo oposto.

Aproximando-se a nossa época histórica, vemos o choro ser cada vez mais reprimido no mundo ocidental e conotado a definições inversas. Hoje em dia, é comovente ver um homem chorar. Chorar passou a ser quase uma tarefa aceite para o sexo feminino. Piegas, sensíveis e até fracos, são conceitos enraizados no mundo ocidental perante as lágrimas de um homem.

No entanto, a história é feita de ciclos e até este conceito está de novo a mudar. A partir do momento que chefes de estado se deixam cair em lágrimas, as massas rendem-se aos seus motivos e começam a aplaudir a atitude, carregando-a de valentia e coragem.

Embora de forma mais inibida, a verdade é que os homens também choram. Os Homens sempre choraram. Os Homens sempre chorarão. Por todos e pelos mais variados motivos.

Hormonas à parte, na realidade, chorar é uma questão de higiene psico-emocional repleta de benefícios. Renova emoções tóxicas, pensamentos pesados, sensações negativas.

Por outro lado, chorar de plenitude, chorar de alegria e vontade de viver, tem um poder avassalador. De uma forma ou de outra, chorar é digno não só dos homens, mas do ser humano.

Não precisamos de ir mais longe, vejamos os mais premiados filmes de Hollywood e constataremos que são carregados de emoções que fazem chorar os mais teimosos na matéria. Mais que isso, o verdadeiro poder emocional encontra o expoente máximo, quando aparece num rosto masculino.

Tom Lutz, investigador da Universidade de Iowa (EUA), sublinha que problemas psicossomáticos e episódios de depressão têm origem na repressão do choro, sendo este um mecanismo de auto-cura. O choro, além de digno, é fundamental.

“Um bom choro vale mais que doses de tranquilizantes.”

(Guilhermo Ruben – psicólogo)

E é mesmo verdade, os homens também choram.

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Ana Cláudia Domingos

Talvez por ter nascido na Guarda, a cidade mais alta de Portugal, vivo com a cabeça nas nuvens (quase) a tempo inteiro. Para quem vive na cabeça nas nuvens, só isso, não chega. Falta o charme de exprimir emoções e sensações. Enquanto escolha, foi na saúde a minha aposta de vida. Na escrita e outras artes, como na música, encontro aconchego e pó mágico para esta vida. Longe de ser perfeita, enfim.... sou eu!

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One Comment

  1. DE facto a expresso ” CHORO” ou “CHORAR”, que provêm respectivamente do latim PLORO e PLORARE é a primeira expressão do ser humano ao ser nascer para o mundo, vindo de outro mundo, o interior materno. è por si só um acto que exprime vida, manifesta-a como um sinal de liberdade mas também de confronto com outros ou outros ambientes, afinal, o mundo, este, o terreno.
    O Choro acompanha na morte todos os que nutrem sentimento de afecto seja ele de amizade, fraternidade ou ligação familiar intensa.
    O Choro liberta da cadeia os sentimentos mais estranhos e íntimos que se possam imaginar e que muitas vezes se acumulam no ímo de cada um. É como que o jorrar de um manancial que esteve retido.
    Ha quem diga ( e eu talvez acredite mesmo) que as árvores e as plantas também choram. DE facyo sendo vivas têm sentimentos ( veja-se como as plantas de nosso jardim são mais joviais se com elas falarmos, conversarmos). E veja-se a tristeza se delas nos afastarmos.
    Os animais choram. Todos sabemos. T~em sentimos e por vezes mais produndos que os dos humanos. Exemplos? são tantos como o do cão fiel que chora a perda de seu dono, a ausência,
    Mas o Choro foi comércio também. As “Carpideiras” a quem era encomendado o “choro” vertiam suas lágrimas para um pequeno vaso e conforme a quantidade assim seriam pagas.
    Chora-se sim de tristeza, de alegria, chora-se quando é intenso o sentimento, como que o extravasar dele mesmo que já não cabe no limite do corpo.
    Os homens choram sim. Não é vergonha alguma. Para algumas civilizações ou culturas significava fraqueza, falta de dureza de carácter ou de resistência à dor, fosse ela física ou emocional. Mas os homens choram. Eu mesmo chorei e choro. Por mais que se queiram prender essas expressões fisiológicas jamais podem calar-se e ser entendidas como algo que é particular do feminino ou do masculino. É transversal.
    Gostei do texto, francamente gostei porque não é vulgar abordar assim este tema.
    José Domingos
    Jornalista e investigador

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