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Os donos disto tudo

Quem tem por hábito acompanhar a minha opinião escrita semanal sabe muito bem que sou um crítico acérrimo do actual estado de coisas no espaço europeu. E aqui aproveito para fazer um esclarecimento, pois já não é a primeira vez que tenho de explicar por A + B que isto de ser um crítico acérrimo do actual estado de coisas no espaço europeu é completamente diferente de estar contra o projecto europeu. Eu defendo e percebo a necessidade da existência da União Europeia e que existem regras que os estados-membros devem seguir.

Agora, não concordo é com a forma como tudo evoluiu nos últimos anos e discordo inteiramente com a aparente forma como se pretende dar continuidade a um projecto que é de todos e deve ser de todos e não somente de dois países. E não, o facto de França e Alemanha se terem apossado do poder decisório europeu por força de uma interpretação ad hoc do Tratado de Lisboa não justifica tudo. É muito por causa desta interpretação que isto esteve mal, está mal e, após um período de alguma tranquilidade, vai continuar a estar mal.

A base sob a qual assentou durante muitas décadas o projecto europeu era a de que somos todos diferentes, mas somos todos iguais. Tal foi assim até ao momento em que a Europa foi fustigada por uma tremenda crise. Crise que serviu para França e Alemanha, apoiadas pelos seus aliados económico-financeiros (Holanda, Luxemburgo, Polónia, Hungria, Bélgica, Finlândia, entre outros), implementarem a tese de que quem manda aqui somos nós e o resto é letra. A partir deste momento, deixou de haver uma União Europeia com estados-membros para passar a haver uma espécie de colete-de-forças político, cujas directrizes económicas foram determinadas, partindo do pressuposto de que na Europa existem países de 1.ª, países de 2.º e países de 3.ª.

A ideia de igualdade europeia diluiu-se por completo na ideia da governação bicéfala franco-germânica. E qual foi o preço que a Europa pagou por ter seguido cegamente tamanha barbárie? Subida generalizada das forças extremistas, criação de governos radicais, tremendas dificuldades na formação de alguns dos governos europeus (como sucedeu recentemente na Alemanha, por exemplo) e o famoso Brexit (atribuir a responsabilidade de tal somente aos britânicos é negar o óbvio).

Contudo, a Europa recentemente viveu um período de alguma acalmia e prosperidade. Isto, apesar de a França já ter um governo – aparentemente – estável liderado por um Presidente da República que tanto diz uma coisa, como diz outra. A somar a isto tivemos as alterações forçadas da política económica europeia provocadas, em parte, pelo sucesso do actual modelo económico-financeiro e governativo português e pela necessidade de o espaço europeu se precaver contra as maluqueiras comerciais da américa de Donald Trump.

Só que tudo isto pode muito bem vir a ser sol de pouca dura. E pode sê-lo, porque tudo indicia que a Sra. Merkel vai, finalmente, poder formar governo na Alemanha. E vai fazer tal em conjunto com o partido do Sr. Schulz. Partido este cujo líder (Martin Schulz) afirmou em plena campanha eleitoral (salvo erro) Europa Federada ou rua. Ou seja, embora o Sr. em questão tenha optado por não dar seguimento à possibilidade de vir a ser o próximo Ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, a sua tese de que a Alemanha – com a conivência e participação activa da França – quer, pode e manda vai vingar, porque o Ministério das Finanças vai estar na posse de alguém ligado ao seu partido.

Vamos a ver como vai tudo terminar, mas confesso que não tenho nenhuma perspectiva optimista sobre o que aí vêm. Acrescento tão-somente que é lamentável que na Europa as coisas tenham chegado ao ponto de isto mais parecer uma espécie de Império romano do ocidente. E todos sabemos como as coisas acabaram para este mesmo Império.

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Pedro Silva

"É preciso provocar sistematicamente confusão. Isso promove a criatividade. Tudo aquilo que é contraditório gera vida." (Salvador Dalí) Crítico, opinativo e com mente aberta. É isto que caracteriza um Cronista.

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