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Crónicas

Os cães são anjos sem asas

A Luna chegou à minha casa num sábado de manhã, encolhida nos braços de um vizinho. Redonda e pequenina tive logo vontade de a agarrar e não mais largar. Os olhos mostravam medo e fiquei a saber que era a última duma ninhada, encerrada num terreno, que recebia alimento quando alguém se lembrava de o atirar por cima da vedação. Estava sozinha há uns dias e tremia muito. Gostei logo dela.

De focinho escuro e uma mascarilha engraçada, dava ares de menina triste que podia ser curada com facilidade. Coloquei-a no chão e escondeu-se atrás dum banco que lhe serviu de forte. Minúscula e com um brilhozinho forte cativou-me logo. Sentada no chão falei com ela e, com aquilo que se chama paciência de chinês, consegui que ela se aproximasse. Durou catorze anos, esta relação de muitos altos e baixos.

Para ela, as crianças eram inimigos da pior espécie. Fugia deles para se proteger daqueles potenciais assassinos contratados para fazerem festas a cães. Um verdadeiro perigo de lesa majestade. Demorou anos até que esse receio fosse ultrapassado, mas isso não a impediu de ter uma vida animada e cheia de gente jovem.

Já havia um outro cão que tinha ficado viúvo e por isso foi uma enorme alegria para ele ter novamente uma “cãopanheira”. Entre eles tudo correu pelo melhor e entenderam-se logo. Depois de um período conturbado ele voltou a ser o que tinha uma dama para defender. Era mesmo muito protector com os seus e tão doce que todos se deliciavam com ele. Ela nem por isso.

Foi crescendo e os barulhos continuavam a ser motivo de sobressaltos. Nunca perdeu o que estava acumulado do passado. Por mais que tentássemos, era impossível que tivesse um comportamento normal. Foi-se tornando cada vez mais meiga e chegada aos de casa. Só a esses que os outros eram sempre olhados com desconfiança e de longe.

Viver num prédio apresenta sempre vantagens e desvantagens e o facto de haver muitos sons, muitas pessoas a entrar e a sair, fazia com que esta cadela estivesse sempre em alerta. O cão era uma paz de alma, mas ela tinha imensa dificuldade em se acalmar e estar tranquila. Era um desafio para os veterinários, mas nunca desistimos. Um dia certamente que haveria uma solução.

Morava numa zona próxima de uma escola e assim o movimento constante de jovens libertava barulhos que ela não identificava, mas que acabou por se habituar. Na época de férias sentia a falta deles e entendeu a rotina escolar com mais facilidade que muitos alunos. Era um animal muito inteligente que sabia falar com os olhos e com o corpo.

Uma noite, como qualquer outra, decidiu que era chegada a hora certa para parir uma ninhada substancial de oito lindos cachorrinhos. Deu sinal, mas não foi preciso ajuda que ela deu conta do recado. Pediu para ir à rua e aproveitou para parir um no caminho regressando logo de seguida para terminar a tarefa. O cão começou a fraquejar e com vómitos. Que forte!

Foi uma mãe extremosa e sabia contar os seus filhotes. Foram criados de maneira bem livre e saudável. Quando saía para tomar um café ou dar um passeio, aproveitava e levava um dos filhotes para ver se conseguia um dono. No regresso ela ia sempre contar para ver se estavam todos. Uma ternura. E foram embora, um a um até que voltei a ficar com o silêncio onde antes estava um monte de cachorros fofinhos e gordos.

Mais tarde, mudei de casa para um local mais agitado e ela gostou logo. Penso que o que lhe fazia mais confusão era o movimento do prédio e este era bem mais tranquilo. Aprendeu a andar solta e a ser mais zen. Foi mais fácil do que se podia pensar. Entretanto começaram a chegar os gatos e ela criou-os todos como se fossem filhos dela. Um exemplo que muitos humanos deviam seguir.

As coisas nem sempre são como queremos e também o cão teve que partir para não mais voltar. Ela ficou deprimida e muito estranha. Começou a desenvolver comportamentos diferentes do que lhe conhecíamos e não se percebia qual a razão. Já com nove anos, quase dez, foi operada de urgência e sobreviveu com elegância e estilo. Foram anos de menores complicações e mais alegrias.

Quando tinha catorze anos sentiu que estava na altura de embarcar para o tal sítio onde os outros gostavam de ficar. Despediu-se da vida com uma festa, que nada tinha a ver consigo, mas ela sabia que estava na recta final. Deixou de andar e numa cadela grande é muito complicado encontrar uma solução. Recusava-se a comer e não havia mais nada a fazer.

Sabemos que há uma decisão importante a tomar quando os veterinários que a acompanharam, desde sempre, ficam com os olhos embaciados com lágrimas. Ainda se tentou mais um recurso, mas foi tudo inglório. Era quarta-feira e ela ficou a dormir para sempre numa marquesa da clínica que a conheceu desde sempre. Foi doloroso.

Viveu muito anos e teve um papel importante na vida de muitas crianças. Apesar de ter medo delas conseguiu que muitos deixassem de viver a ansiedade de se aproximar de um cão. Com os seus olhos doces soube dizer que não lhes fazia mal e que podiam estar descansados que os cães e os homens são companheiros inseparáveis.

Já passaram dez anos, mas a saudade fica sempre. Pela primeira vez, em muito tempo, vivi numa casa sem um cão. Os gatos também sentiram a sua falta e sabiam demonstrar com vocalizações especiais. Era um enorme vazio naquela casa e uma dor tão grande que teimava em ficar. Dei todos os pertences dela ao canil, mas não me conseguia libertar do enorme buraco na minha alma.

Certos animais entram na nossa vida com uma missão e depois de a terem completados partem para outras paragens. Esta ficou comigo até ao fim, o que considero uma verdadeira fortuna. Não fui somente eu que lhe dei a mão, mas acabou por ser uma joint venture que funcionou na perfeição. Chorei lágrimas de sangue internas e permiti-me sofrer o que entendi necessário. Ela merecia.

Deixei ficar a trela e o arnês. Não como recordação, mas como motivação para quando o luto estivesse mais aceite aparecesse uma outra alma canina que buscasse um lar e muito amor para receber. O seu legado estava em aberto e desejoso de ser satisfeito. No dia certo.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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