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Crónicas

Os cães não querem ir à praia

Em tempos que já lá vão tive uma cadela fantástica, chamada Eva, que tinha um comportamento exemplar. Recolhida de uma paragem de autocarro em Lisboa, sabia orientar-se em todo o lado. Quando mudei para uma zona mais rural não gostou, mas adaptou-se com facilidade. Era extremamente inteligente e desembaraçada. Sabia abrir o frigorífico e a gaiola do porquinho da Índia. Dormiam juntos e era uma ternura ver aquele quadro. Enfim, qualidades únicas.

Gostava de ir à praia, mas com condições. Tinha de ter duas toalhas, uma ao sol e outra à sombra e água à disposição. Era gorda e grande, mas, quando queria, conseguia ficar com olheiras e o corpo parecia mirrar. Uma especialista do disfarce. Podíamos caminhar à vontade e afastarmo-nos que ela tomava conta de tudo. Mudava de uma toalha para a outra, bebia água e voltava ao seu dolce fare niente.

Um dia demorei mais e ela não estava. Assustei-me. Chamei por ela. Nada. Olho à volta e vejo uma família de gordos a comer pastéis de nata e bolas de Berlim. Ela, sentada nas costas de um deles, com o seu ar faminto, choramingava e eles, muito simpaticamente, davam-lhe aquelas delícias cheias de açúcar. Um must. Apesar de eu dizer que ela não passava fome, eles entendiam que estava magrinha. De facto, não se comparava aos padrões daquela família.

Mais tarde, tive um cão que teve três fases de praia. A primeira foi da construção do metro. Ao seu redor era impensável ficar, porque fazia buracos tão fundos que a areia que soltava era espalhada por tudo o que era sítio. A segunda foi a fase da educação. Tinha aprendido a dar a pata e sentava-se, em frente a todas as pessoas, estendia a pata e enquanto não o cumprimentavam não os largava. Entravam na brincadeira e faziam-lhe festas. A terceira e última foi a de nadador salvador.

Via as pessoas a entrarem na água, olhava para nós, com cara de “não fazem nada? Aquelas pessoas não estão bem!” e parecia um foguete a ir salvá-las. Vá lá que todos lhe achavam graça e nunca houve problemas. Puxava-as para terra e abanava a cauda que nem um doido!

No entanto, tudo isto era numa praia bem recatada e defendida de olhares indiscretos e faltas de respeito que são contínuas e persistentes. Agora proibir os cães de irem à praia, além de estúpido é ridículo! Podem argumentar que sujam a praia com o xixi e com o cocó. É verdade, mas os donos conscientes, que cada vez são mais, apanham os dejectos e colocam-nos nos respectivos recipientes. Os seres humanos apresentam um comportamento completamente diferente. Quando as necessidades fisiológicas apertam, entram na água, colocam as mãos na cintura, olham à volta, a disfarçar, e fazem na água por onde todos mergulham e nadam. Pensam que os outros não sabem? Quem é o porco?

Eu até entendo que as pessoas precisem de se libertar das amarras e do stress, mas ir jogar à bola para a praia é o cúmulo! Os outros não têm culpa que tenham uma casa pequena e que precisem de se expressar desse modo bárbaro e mal-educado. Levantam areia, passam por cima dos que estão deitados, dizem palavrões, insultam-se e é assim que se divertem. Selvagens é o que são! Os cães não se portam de modo igual e não ouvem a música em altos berros. Deve ser bom estar um dia inteiro a ouvir o hit do momento. É de doidos!

Igualmente não deixam brinquedos perdidos na areia, não fumam e não colocam as beatas na areia que as crianças, que brincam, de modo singelo, podem colocar na boca. Bonito. Salutar. Fino. Se for uma caca de cão, é uma javardice, não é perigosa, apenas nojento. Onde está o problema? As pessoas não gostam de marisco? Sabem o que comem aqueles bichos? As cacas dos outros. Porém, é fino comer marisco, porque é caro. Já agora os nossos amigos de quatro patas não deitam fora as latas de cerveja nem ficam acometidos das loucuras temporárias dos vapores do álcool ingerido.

E os espertos que têm a mania que são mais do que os outros? Chegam de manhã, colocam o guarda-sol a marcar o lugar, voltam para casa e regressam quando lhes apetecer, mas pensam que são os donos daquilo tudo! “Mas o que é isto?” A praia ainda é de todos e não de uns quantos. Também é engraçado ver a falta de educação e de civismo que muitos demonstram em relação aos vizinhos. Os homens deitam olhares lascivos para as boazonas que passam, imaginando filmes com guiões que nunca conseguiriam cumprir e a mulheres desdenham disto e daquilo. Ou vice-versa. Tanto faz. Não há inocentes. Todos culpados!

Querem que os cães vão para a praia com estes maus exemplos? Ao menos eles não são invejosos, não criticam, não inventam e não se deixam levar por convenções parvas e regras absurdas criadas por quem não sabe o que está a fazer. Se lhes perguntassem eles diziam logo que não, que não estão para aturar estes grupos, que não papam estas cenas e que não alinham nestas tretas.

Os que vivem na minha casa ou seja a casa deles, não querem ir à praia, no entanto, gostam de visitar castelos e museus. Sabem-nos apreciar e entendem que o ambiente é outro. Além de educados são cultos, mas isso é o resultado da educação que receberam.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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