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HistóriaSociedade

Os “Borgonhas” ainda perduram na imagem de Portugal

É suposto a escola ensinar verdades. Sabe-se que, ao longo dos tempos e até ao presente, os Governos a têm utilizado com finalidades de propaganda. Numa democracia, tal não deveria acontecer, mas acontece. Em Portugal, o Ministério da Educação manda ensinar o significado dos símbolos nacionais. Porém, o que é transmitido é um pensamento tortuoso herdado da Primeira República e que, provavelmente, nem os responsáveis dos programas educativos questionaram, nem têm conhecimento.

Por um lado, compreendo, porque a ladainha tem décadas. Por outro, não devia acontecer, pois é suposto os responsáveis educativos saberem as matérias que ensinam. E tal verifica-se com a bandeira e o brasão de Portugal – não as armas completas.

Já com o hino “A Portuguesa” há quem explique que a sua origem é anterior ao regime saído da Revolução de 5 de Outubro de 1910 e que instaurou a República. Originalmente, foi uma música patriótica para exaltação das massas contra a Monarquia, pela afronta do ultimato britânico, quanto aos territórios coloniais africanos que ambos os estados pretendiam. A versão actual é um terço menor do que a original, mas mantém o cariz belicista. Porém, quando agora se canta “Contra os canhões, marchar, marchar”, na versão original era “Contra os bretões, marchar, marchar”.

O que importa agora é a justificação – errada – do que o Ministério da Educação manda ensinar.

O errado e o certo na bandeira

Os argumentos da bandeira são os mais fáceis de desmontar. Desde a instauração da República, que se afirma que o verde simboliza “A Esperança” e o vermelho “O Sangue dos Portugueses Mortos em Combate”. Errado! As cores da bandeira nacional são exactamente as mesmas utilizadas pelo Partido Republicano. Exagerando um bocado, é como se hoje a bandeira fosse cor-de-laranja e azul, do PSD e do CDS.Os símbolos representam os Estados, pelo que tem uma importância maior do que um amontoado de cores, com ou sem outros elementos representativos. Embora tenha apanhado a boleia doutras forças republicanas, o Partido Republicano conseguiu agarrar o poder. Daí alguma naturalidade na escolha das cores.

A questão da bandeira não foi nada pacífica. Dum lado estavam os tradicionalistas, defendendo o azul e o branco, e doutro os próximos do Partido Republicano, que pretendiam o verde e o encarnado. A polémica foi tão grande que uns espirituosos inventaram uma paródia, que apresentaram a concurso.A designação não foi menos risível (aos olhos da época): “Projecto Racional de Reconciliação”.

JB_sborgonhasaindaperduramnaimagemdeortugal_47Dez dias após a Revolução Republicana, foi constituída uma comissão de júri para avaliar as propostas que os cidadãos iriam apresentar. A nova bandeira deveria ser hasteada, pela primeira vez, a 19 de Junho de 1911. No entanto, só a 30 desse mês é que tal aconteceu.O júri era constituído por Abel Botelho (escritor), Afonso Palla (oficial do Exército), Columbano Bordallo Pinheiro (pintor), Ladislau Parreira (oficial da Armada) e João Chagas (jornalista e político). Os jurados avaliaram 27 propostas, incluindo a de pagode, e escolheram… NENHUMA!

Na verdade, ainda bem, porque eram de gosto miserável. Com uma estética próxima dos emblemas de clubes de futebol de bairro. As propostas dividiam-se nos grupos “azul e branco”, “verde e vermelho” e “mistos”. Com inspiração na Union Jack e na simbologia da República Francesa. Estrelas, esfera armilar (símbolo pessoal de Dom Manuel I e evocação imperial) e barrete frígio – cobertura usada por escravos libertos, durante o Império Romano – também usado por republicanos franceses.

Perante a tragédia dos projectos, os dirigentes do jovem regime entregaram a Abel Botelho, a Columbano Bordallo Pinheiro e João Chagas a tarefa de produzirem um símbolo que não envergonhasse o país.

JB_sborgonhasaindaperduramnaimagemdeortugal_2Hoje, muita gente (incluindo eu) pragueja contra a estética da bandeira. Porém, foi literalmente o que se pôde arranjar e num tempo recorde. Com bom ou mau gosto, a bandeira da República apresenta um erro de “forma”.

A vexilologia – disciplina que estabelece e estuda bandeiras – está abaixo da heráldica – disciplina que estabelece as armas dos países. Atenção: a heráldica é uma ciência-arte europeia. No mundo, existem muitas outras formas de representação. A heráldica remonta à Idade Média e cinge-se a quase toda a Europa. Apenas o Japão tem uma organização simbólica estruturada, a que se costuma designar por “heráldica japonesa”, mas que nada tem de ligação com a europeia.

As armas heráldicas são a base e a bandeira a ela se submete. É assim desde que se queira. Do ponto de vista tradicional, a bandeira portuguesa está incorrecta, pois junta dois esmaltes – cores, com excepção do branco e do amarelo, que se designam por metais, por simbolizarem, respectivamente, a prata e o ouro. Contrariamente, a bandeira nacional usada no final da Monarquia estava numa forma correcta.

JB_sborgonhasaindaperduramnaimagemdeortugal_1As cores da bandeira devem reflectir as cores e os metais do escudo. No entanto, Portugal não é caso único dessa incorrecção. Por exemplo: o escudo da Finlândia é de vermelho, ouro e prata, mas a bandeira é branca e azul.  Quanto à junção, lado a lado, de esmaltes, o nosso símbolo não está sozinho. Por exemplo: Alemanha, embora respeite o uso das cores heráldicas, tem o vermelho junto ao negro.

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Já quanto às armas, a jovem República conheceu um consensual modo de interpretar o que deveria ser o símbolo. A esfera armilar evoca a época áurea do país e o brasão vem desde a Idade Média.

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A asneira que se conta acerca do brasão – como o simples se torna muito complicado

Conta-se que as cinco quinas – escudetes, em linguagem heráldica – simbolizam os cinco reis mouros que Dom Afonso Henriques venceu na Batalha de Ourique. Afirma-se que os círculos brancos – besantes – evocam as cinco chagas de Cristo, por Jesus ter surgido ao nosso primeiro rei e dito que: “Com este sinal vencerás!” Depois, adianta-se que se contam os círculos brancos e duas vezes os do meio que significam os 30 dinheiros da traição de Judas Iscariotes. Os castelos representam os sete castelos que Dom Afonso Henriques conquistou aos mouros.Pois, os disparates não faltam. Aliás, toda a justificação é uma asneira colossal! COLOSSAL!

Não se sabe ao certo o que significam os escudetes e os besantes. Sabe-se que o conde Dom Henrique usava um brasão de prata com uma cruz de azul. Uma hipótese dá conta que a cruz não estaria pintada e que seria de pano, estando segura por pregos – o que explicaria os besantes e a manutenção duma forma cruciforme.Não passa duma hipótese. Sabe-se que, no início de Portugal, não havia escudetes com cinco besantes. Na maioria das vezes – creio –, são 11, conforme se atesta nos símbolos heráldicos dos primeiros concelhos sob a alçada de Portugal, como o de Guimarães.

JB_sborgonhasaindaperduramnaimagemdeortugal_29Estes 11 besantes destroem a hipótese das chagas de Cristo. Já quanto à verba que Judas Iscariotes recebeu dos Romanos… é uma afirmação tão retorcida, tão absurda e tão estúpida… a que propósito viria o Judas à baila?

No que respeita aos castelos, a asneira prossegue. Em primeiro lugar, porque o brasão original não tinha um único castelo. Os castelos só surgem com Dom Afonso III, com uma explicação simples, do ponto de vista heráldico. Além de que, o número de castelos nunca foi o mesmo ao longo dos tempos. Na Dinastia de Avis usaram-se 12.Aliás, há uma outra variante, igualmente errada, para justificar os castelos. Essa lenda afirma que foram as sete últimas praças do Algarve a caírem para Dom Afonso III, que assim pôs termo à Reconquista no Ocidente peninsular.

Ir atrás para explicar a questão dos castelos

A utilização de símbolos na guerra é muito antiga, usada como forma de reconhecimento e de sinalização de manobras. Porém, a heráldica acontece com a tomada do poder das tribos germânicas e constituição de Estados – uns solidificaram-se e outros desvaneceram-se –, onde existia o Império Romano e noutras terras.

Ao contrário do exército de Roma, que se baseava na infantaria, os germânicos preferiam a cavalaria. Usavam uma protecção de cabeça, primeiro em cabedal e depois em metal. A evolução da protecção conduziu a que a cara do cavaleiro ficasse cada vez mais escondida.Com uma viseira à frente, era complicada a identificação do companheiro, ou do adversário. Para resolver a situação, os guerreiros adoptaram símbolos pessoais, pintando-os na estrutura com maior área: o escudo. Daí manter-se até ao presente essa designação na generalidade das armas dos países europeus. Aliás, o facto de se apelidarem de “armas” é significativo.

Assim, os primeiros brasões eram símbolos pessoais e de reconhecimento. Com o tempo, transformaram-se em emblemas familiares. O tempo colou-lhes um bocado de terra, significando senhorios, feudos, reinos, etc.

A heráldica tem regras universais – embora com algumas pequenas variantes – nomeadamente quanto aos “pigmentos”. Os medievais estabeleceram que, preferencialmente, os esmaltes – azul, vermelho, verde, negro e púrpura – não se conjugassem directamente, ficando separados por metais – prata (branco) e ouro (amarelo).Ou seja, a heráldica é o que hoje chamamos de design de comunicação – ou uma forma de design “primitivo”.

Por serem símbolos pessoais eram intransmissíveis. Tudo muda e na Baixa Idade Média – entre os séculos X e XV – o escudo passou a ser herdado pelo filho primogénito, após a morte do chefe da família. Desde então que assim acontece.Por mais que possa ser descendente de Dom Afonso Henrique, não posso usar o brasão de Barbosa. Nem eu, nem outro do mesmo apelido, visto que a linha varonil e primogénita se diluiu, passando a chefia para uma outra família – julgo que Mesquita, sem certeza.

JB_sborgonhasaindaperduramnaimagemdeortugal_17É pois por uma razão de ordem de direito que Afonso de Portugal, segundo filho do rei Dom Afonso II, não usava as armas de seu pai. Com a morte desse monarca subiu ao trono Dom Sancho II, que as passou a usar.Irmão e sucessor de Dom Sancho II, Afonso usava o símbolo da sua família paterna conjugado com a linhagem de sua mãe. Dona Urraca era infanta de Castela, pelo que os castelos do escudo de Portugal mais não são do que uma repetição da peça heráldica usada pelo avô materno.

Dom Sancho II guerreou com o seu irmão. Embora tivesse sido exilado, Sancho II foi considerado como monarca por Dom Afonso, que só se proclamou rei de Portugal, após a morte do antecessor, a 4 de Janeiro de 1248, visto não haver descendência.

Já como rei de Portugal, Dom Afonso III podia ter abdicado dos castelos, em maior número do que hoje. No entanto, preservou as suas armas. Desde 4 de Janeiro de 1248, que Portugal mantém as fortalezas no seu escudo, variando a sua quantidade.

Dom Sancho II guerreou com o seu irmão. Embora tivesse sido exilado, Sancho II foi considerado como monarca por Dom Afonso, que só se proclamou rei de Portugal, após a morte do antecessor, a 4 de Janeiro de 1248, visto não haver descendência.Já como rei de Portugal, Dom Afonso III podia ter abdicado dos castelos, em maior número do que hoje. No entanto, preservou as suas armas. Desde 4 de Janeiro de 1248, que Portugal mantém as fortalezas no seu escudo, variando a sua quantidade.

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Com a crise dinástica do final do século XIV, subiu ao trono Dom João, mestre da Ordem de Avis.

A sucessão após a crise dinástica

Dom Fernando I era filho de Dom Pedro I e de Dona Constança Manuel, filha de Dom João Manuel – filho do infante Dom Manuel de Castela, irmão mais novo do rei Afonso X de Castela. A sua morte, a 22 de Outubro de 1383, conduziu a uma guerra pela sucessão, muitas vezes considerada como a primeira guerra nacionalista da Europa.

O rei Dom Fernando I teve quatro filhos, dois varões e duas filhas. Os mais velhos, Dom Pedro e Dom Afonso morreram jovens. Assim, a linhagem passaria para Dona Isabel. Porém, pelo Tratado de Santarém, Dom João I de Castela casar-se-ia com a outra infanta, Dona Beatriz, através da qual teria acesso à coroa portuguesa.

Fernando I foi o terceiro filho do segundo casamento de Dom Pedro I – a primeira noiva foi repudiada. Da união com Dona Constança Manuel, os dois primeiros filhos faleceram antes do pai.Da sua ligação a Dona Inês de Castro, teve quatro filhos – Dom Afonso, que morreu em criança, Dona Beatriz, Dom João e Dom Dinis. Da relação com Teresa Lourenço nasceu o futuro Dom João I.

Rezam as crónicas que os dois Joões tinham uma boa e saudável relação. Com a crise dinástica a decorrer, poderia ser Dom João (Inês de Castro) quem herdaria o Reino de Portugal. Todavia, encontrava-se preso em Castela. Terá passado o seu direito ao seu irmão João (Avis), que é uma hipótese defendida por alguns. Outros dizem que o Mestre de Avis só aceitou a coroa, após consentimento do detido.

Por seu turno, Dom Dinis (Inês de Castro) ainda tentou reivindicar o país, mas a investida militar, em 1398, correu-lhe muito mal e desistiu da sua vontade.

O partido do mestre de Avis era formado pelo povo, burguesia e por parte da nobreza, nomeadamente filhos que nada herdariam e nada teriam a ganhar caso Castela ficasse com o país. Algumas casas fidalgas, de segunda linha, viram em Dom João uma oportunidade de ascender socialmente.Dom Nuno Álvares Pereira era um desses nobres sem herança, oriundo duma família importante que escolheu o outro lado. O génio militar tornou-o condestável – algo semelhante a chefe do Estado Maior das Forças Armadas.

Tal como fizera Dom Afonso III, Dom João mestre de Avis optou por não mudar de armas. Assim, ao seu escudo apresentava, como acrescento, a cruz da Ordem de Avis. Este símbolo perdurou até Dom João II.

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Dom Manuel I, sobrinho e herdeiro de Dom João II, retomou as armas de Dom Fernando I. Assim, continuaram, após a morte de Dom António, prior do Crato, último rei da Segunda Dinastia.O direito à coroa coube a Filipe II de Espanha, visto ser filho de Carlos V – imperador do Sacro Império Romano-Germânico e rei de Espanha, onde foi Carlos I – e de Dona Isabel de Portugal, filha de Dom Manuel I.

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As armas de Dom Filipe I de Portugal (II de Espanha) são mais complexas, derivado dos vários territórios de que era senhor. Embora desleixando os territórios ultramarinos portugueses, os Habsburgos davam elevada importância a Portugal, facto que se comprova no ordenamento heráldico das armas.

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No primeiro quadrante (o mais importante), estão as armas compostas da união dos Reinos de Castela e de Leão. No segundo, apresentam-se as dos Reinos de Aragão e da Sicília. Em baixo, num espaço pequenino, está o brasão do Reino de Granada (nome comum dados a romã, em vários idiomas). No terceiro, estão Áustria e Borgonha. No quarto, Valois e Brabante. Sobre os dois quadrantes superiores, encontra-se (dominando) Portugal, nos inferiores, fica o escudo partido de Flandres e Tirol.

Essas foram as armas até Dom Carlos II (Espanha). Dom Filipe V de Espanha, sobrinho-bisneto do anterior, reconheceu heraldicamente o abandono da reivindicação à coroa portuguesa – reinou de 1700 a 1724 –, cuja Guerra da Restauração findara em 1668.

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A expulsão dos Habsburgos guindou para o trono o oitavo duque de Bragança, que viria a ser Dom João IV.Está na hora de parar, fumar um cigarro, beber dois cafés e fumar outro cigarro. Agora é difícil! Como chegam os Braganças ao trono? O oitavo duque de Bragança foi trineto de Dom Manuel I.

Dom Duarte, décimo filho do “Venturoso”, foi o quarto duque de Guimarães, título que passou à sua filha Dona Catarina, que se casou com Dom João, sexto duque de Bragança – eram primos. Desse enlace nasceu Dom Teodósio, pai de Dom João, futuro IV desse nome a reinar no país.Ao contrário dos antecessores que ascenderam ao trono na sequência de crise dinástica, Dom João IV assumiu as armas reais anteriores à Terceira Dinastia. O brasão dos Bragança manteve-se na esfera familiar.

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Possivelmente para sacudir o sangue espanhol, durante a vigência da Dinastia de Bragança surgiram representações heráldicas incorrectas. Não foram acasos, ou distracções. Ninguém se atreveria a mudar o brasão do rei.

O estratagema foi simples, mantendo uma aparência, sem que fosse o mesmo. Tratou-se da substituição dos castelos por torres. Desde então, por confusão, desleixo ou ignorância, surgem abastardamentos das armas de Portugal.Desde bandeiras (República) em gabinetes ministeriais e outras usadas publicamente, são inúmeros os casos em que surgem torres na vez dos castelos. Todos repararam nas coisas escaganifobéticas que espetaram nas bandeiras, durante o Euro 2004, nomeadamente com parecenças pagodes chineses – é o que dá o Made in China. No entanto, a tristeza aconteceu na cerimónia da passagem da soberania do território de Macau para a China.

O general Rocha Vieira, 112º governador de Macau, passou o testemunho. Desceu a “verde e rubra” e subiram as da República Popular da China e a nova a ser usada no território.

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Dois erros omnipresentes são o do formato das bandeiras e a sua proporcionalidade. Isso acontece em Portugal, mas desconheço se o problema se alarga a outros países.As bandeiras não são todas iguais. Há duas grandes famílias: as de “um por dois”, como as britânicas, ou com ligações, e as de “dois por três”, na qual a nossa se enquadra. A da Suíça é de “um por um”.

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A relação simbólica entre Monarquias e Repúblicas

Portugal não é um caso isolado na utilização de símbolos usados pelos monarcas que o regeram. Aliás, essa é uma característica comum. Tanto Estados, como regiões administrativas e/ou federativas, como é o caso da Baviera.

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Do Oceano Atlântico até aos Urais, Rio Ural, Mar Cáspio e Cáucaso, há 50 Estados – 38 Repúblicas – e mais 13 em situação ambígua. A maioria recorre ao modo europeu ancestral da heráldica. Todavia, há os que romperam com a regra, como a Bielorrússia, que voltou à estética soviética, França e Itália.

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Porém, na Europa Ocidental – até à Rússia – a regra é a do uso das representações seculares. A Alemanha, por exemplo, mantém o escudo dos imperadores do Sacro Império Romano-Germânico, herdado da simbologia do Império Romano, do qual foi, por via do direito, sem sucedâneo, após disputa com o Papado. Em alguns casos, países onde vigora um regime republicano preservam a coroa real. É o caso da Hungria.

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Conforme Espanha preservou o brasão de Portugal, mesmo depois de ter perdido a sua posse, hoje tal ainda acontece. O Reino Unido ainda não abdicou do brasão da Irlanda, mantendo-o nas suas armas, no terceiro quadrante.

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Outras apresentações

Conforme os reis foram adquirindo territórios e consolidada que estava uma associação heráldica, as armas começaram a complicar-se. A interpretação torna-se, por vezes, difícil. Dispensados de uso militar, por força da imposição das armas de fogo nos campos de batalha. A representação múltipla traduz riqueza, poder, vaidade e política – mantendo símbolos de terras a que se pretende ter direito.

No final do século XVIII, o Sacro Império Romano-Germânico, mais vasto que a soma da Alemanha e da Áustria, comportava mais de 400 Estados, de vários tamanhos, chegando a condomínios. Este mapa traduz a realidade de 1789, governava o imperador José II.

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Uma bizarria antiga é o brasão do Reino de Jerusalém, que viola a regra de não junção directa dos dois metais, o ouro e a prata.

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Um nobre britânico decidiu “escrever” a sua árvore genealógica, através da heráldica. Percebem-se as linhagens primordiais e continuadas, pela repetição dos símbolos, mostram-se casamentos intra-familiares. Sinceramente, acho que o tipo estava no gozo.

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O leque de “coisas” que se podem meter num escudo é “infinito”. A única regra é a não representação realista, obrigando a estilização e simplificação das peças. As mais correntes são o leão (com diferentes posições), a águia, a cruz, a flor-de-lis e, menos, dragão e parentelas.Porém, há delícias, como a estranha “figura” da Ilha de Man, ou o brasão que representou a Islândia entre o século XVI e 1903 – um bacalhau.

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A União Europeia não tem brasão. Contudo, acaba por o ter. A representação simbólica da comunidade dos 28 é a bandeira: azul com 12 estrelas – foi sempre uma dúzia – postas em círculo. Não só traduz o que seria uma excelente representação de escudo.

Fiz o exercício de desenrascar o que seria o brasão da União Europeia. Porém, alguém mais versado na arte de desenhar heráldica no computador inventou um brasão impossível, mas que vale a pena ver como exercício. O brasão composto tem dois erros. Um é o de assumir como brasões símbolos não heráldicos. O outro é a disposição. É que existem regras de hierarquização dos símbolos, pelo que nenhum país aceitaria ficar em posição desfavorável.

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A questão da apresentação de bandeiras, ou de formação de precedências – quem chega primeiro, que país figura primeiro num enunciado – era complicada, por causa de susceptibilidades compreensíveis. No entanto, um(a) pragmático resolveu a questão duma forma simples: ordem alfabética, sendo que a letra correspondente está situada posição que tem na sua língua. É o caso da Grécia, que se apresenta como “H”, de Helénica, ou se Espanha, que surgiria no “S”, relativo a Spain, se houvesse uma regra em inglês.

Sei onde fica, porque sei ler. A maioria das pessoas – 99% de certeza – não sabe ler um brasão, aliás, é de interesse quase nulo para a sociedade. Porém, muitas vezes, os brasões das cidades, ou regiões identificam o local (país) a que pertencem, ou pertenceram.

O facto de haver objectos muito usados pode dificultar a identificação. Ainda assim consegue-se lá chegar. Vejam-se alguns casos: as quinas de Braga, a bordadura dupla de flores-de-lis da Escócia/cidade de Aberdeen, a pele de arminho da Bretanha e a cidade de Moncontour e o leão de duas caudas da Boémia e a cidade de Litomerice.

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Portugal, desde a origem, é um Estado uno. Contudo, uma fracção ficou como Reino do Algarve – não se confunda com Algarves, que não foi bem a mesma coisa, já que o “outro” situava-se em Marrocos, o Algarve de Além-Mar, em contraposição ao Algarve de Aquém-Mar. Uma designação meramente honorífica, sem qualquer estatuto político independente, ou autónomo.Ainda assim, o Algarve teve direito a Rei de Armas próprio, responsável pela heráldica desse território. É quase desconhecido o brasão do Algarve. No entanto, encontra-se espelhado nos brasões dos Municípios da região. Apenas três dos 16 Concelhos não fazem referência ao brasão do Reino do Algarve – como o de Portimão.

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A expansão criou um Império global e, desde 1975, a democracia recentrou o país na Europa. Do apropriado e tomado, restam os arquipélagos dos Açores e da Madeira, cujo estatuto autonómico vem com a Terceira República.

Constituídos como Regiões Autónomas, ambos os arquipélagos adoptaram a simbologia correcta, do ponto de vista heráldico e vexilológico. Para o meu gosto, o brasão dos Açores é bem mais bonito. Só uma nota: o brasão e a bandeira da Madeira que se apresentam foram por mim retocados, visto não ter encontrado nenhum exemplar correcto com qualidade. Estes surgiam com um azul não heráldico e, no lugar do ouro (amarelo), tinham cor-de-laranja.

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Usando como pretexto o brasão dos Açores regresse-se ao ponto inicial – o significado das armas de Portugal. O símbolo açoriano é uma arma-falante – já se explica – o açor e nove estrelas, cada representando uma ilha. À parte do brasão, dois touros seguram o escudo, sublinhando a importância da bovinicultura na economia, cada um com um estandarte evocativo: o Espírito Santo e a cruz da Ordem de Cristo, que alegadamente descobriu as ilhas e as juntou ao Reino.

Ao contrário da heráldica, a vexilologia admite objectos em pose naturalista, ou realista. Assim, a posição do açor não torna a bandeira incorrecta.

Ora, quanto às armas-falantes,são as que têm um significado, narram história, lenda, ou um episódio. Não têm de ter uma peça específica, podendo ser abstractas. É o caso do castelo de Castela.

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Ora bem, se alguma coisa fala no brasão de Portugal são os castelos, mas nada de mouros, antes indicadores da linhagem materna – Castela e seu castelo.Até que surja um documento medieval que explique algum significado para o escudo de prata e seus escudetes de azul, qualquer afirmação é especulativa. Atendendo ao número variável de besantes, o que se depreende é uma ausência de significado.

Mais complicações

As armas heráldicas complicaram-se. Algumas dos acrescentos são medievais, como o elmo, o paquife (um pano que os cavaleiros colocavam sobre o elmo para os protegerem do calor do Sol, mostrado em verso e reverso), o virol (paquife enrolado, mostrando os dois matizes), a coroa (correspondente ao título de nobreza correspondente) e o timbre (peça que poderia estabelecer ligações de parentesco ou reafirmar a “força” do mostrado no escudo).

Somaram-se tenentes e suportes – os primeiros reportando-se a figuras humanas, ou humanizadas (anjos) e os segundos “objectos” doutra ordem – segurando estandartes. Com o Renascimento, veio a moda dos motes, pelo que sob o escudo se colocaram tarjas com dizeres, normalmente em latim. Acima, puseram o “grito de guerra”. Os mantos vieram depois, sendo o seu uso alargado com os regimes constitucionais e apresentados pelos senadores – pares-do-Reino.

Nas armas de Portugal, desde a Primeira Dinastia, o paquife e o virol são de azul e branco – aqui não há metais. O timbre escolhido foi uma serpe-alada, que é um dragão sem patas. É curioso que o Futebol Clube do Porto tenha ido buscar a serpe-alada, que é confundida com um dragão.

Em alternativa, provavelmente a partir da Segunda Dinastia, o escudo passou a ser segurado por dois Arcanjos, mas a serpe-alada não foi completamente abandonada. Em que se fica? Serpe-alada, ou Arcanjos?

Dois dos mais reputados artistas heráldicos portugueses, do século XX, adoptaram os Arcanjos. Toda a disposição é quase idêntica a João Paulo de Abreu Lima e a Eduardo Teixeira Coelho – conhecido pelo “Et cetra”, por assinar “ETC”, ou “ETCoelho” e desenhador de banda desenhada.João Paulo de Abreu Lima coloca os Arcanjos segurando estandartes, cujos motivos são iguais objectos que seguram na versão de Eduardo Teixeira Coelho. Quer um, quer outro colocaram a antiga coroa aberta e não a usada no final da Monarquia.

Estes dois desenhadores colocaram o mesmo lema, mas com uma nuance – “Pela Lei e pela Grei”, em Eduardo Teixeira Coelho, e “Pola Lei e pola Grei”, em João Paulo de Abreu Lima. Nas duas versões, surge o “Grande-Colar da Ordem de Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito”.A versão foi colorida por mim, em suporte de papel… já sei – é óbvio – que a fotografia tem uma qualidade deplorável. Este é o desenho de Eduardo Teixeira Coelho.

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Nenhum dos dois colocou o manto. Contudo, essa peça fez parte da simbologia nacional.

Resumindo e baralhando: Não se acredite em tudo o que se ensina nas escolas… incluindo universidades.

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João Barbosa

Comecei no Diário Económico em 1990 e isso só é importante porque me apaixonei pela profissão e porque aprendi a escrever – a explicação seria longa. Informar que escrevi um livro sobre vinho (Grande Reserva – Oficina do Livro) não diz nada acerca de quem sou. Revelar que sou co-autor de um programa de história na televisão (Estórias da História – RTP 2) já soma qualquer coisa. Para se ter um retrato mais próximo digo que vejo o vinho como quem bebe cinema. Interessa-me a alma das artes, os fundamentos das coisas, as explicações dos factos e os resultados finais. Olha-se para o meu perfil e vê-se um vampiro, com o rosto do actor Max Schreck. Porquê? Não porque o vinho é o sangue de Cristo, bebida sagrada dos judeus e promessa celestial dos muçulmanos. É um vampiro porque sou trágico e romântico.

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