CinemaCultura

Os actores-fetiche

Comecemos por um dito popular – ‘‘no melhor pano cai a nódoa’’. Aplicar-se-á este provérbio ao mundo da sétima arte e às inúmeras parcerias fixas entre realizadores e actores? Ou poder-se-á garantir que o melhor pano também pode permanecer incólume? Na gíria, aquilo que se entende por actor-fetiche, na óptica de um realizador, não é mais do que um amuleto indispensável, um corpo capaz de qualquer representação, com paixão pelo limite, porfiante pelo inimaginável.

Não levamos muito tempo a recordar-nos de ligações realizador-actor que ficaram para a história. Lá para trás, nos anos 60, a dupla Pollack e Redford foi uma das primeiras a criar esta tendência, confirmada, uma década mais tarde, por Martin Scorsese e Robert de Niro que, até aos dias de hoje, estiveram juntos em verdadeiros clássicos do cinema, bastando apontar sucessos como Taxi Driver (1976) ou Goodfellas (1990) como pontos principais de uma colaboração feliz. ‘‘Nós temos tido uma excelente relação ao longos dos anos. (…) não precisamos de dizer muita coisa e confiamos muito um no outro, especialmente depois do Taxi Driver’’, disse Scorsese sobre a sua ligação com De Niro ao Ellen DeGeneres Show.

A dependência mútua entre um realizador e um actor surge, naturalmente, reforçada, quando, enquanto espectadores – cinéfilos ou não -, nos apercebemos de uma sequência, de um projecto contínuo, observando que uma determinada dupla não é um conceito isolado para um filme, mas é antes uma expectativa do prolongamento dessa união. Pode ser visto como um casamento, na realidade.

Foi quase literalmente o que aconteceu a Woody Allen, pelos anos 80. Cruzou-se com Mia Farrow e, rapidamente,  a norte-americana tornou-se a musa dos seus filmes, para lá da relação afectiva que mantiveram por mais de uma década. Já nos últimos anos, Scarlett Johansson pareceu ser a sua nova fixação, protagonizando três filmes seus no espaço de três anos – Matchpoint (2005); Scoop (2006) e Vicky Cristina Barcelona (2008). Na apresentação deste último filme, Allen referiu que Scarlett era uma das grandes actrizes americanas, mas que não era, de todo, a sua nova musa. O certo é que, depois das suas palavras, não mais voltaram a colaborar.

Um caminho trilhado a dois, quando a companhia é escolhida, é, à partida, sempre mais seguro do que quando feito sozinho. É esta segurança que marca as parcerias mais notáveis no cinema. Quando se pensa em Tim Burton, o mais difícil é não se pensar em Johnny Depp. Pedro Almodóvar? Sim, o mais provável é ter nele o perfume de Penélope Cruz. “Quando não me sinto bem sei que ela, não sei por que motivo, me aparece sempre à porta disposta a cuidar de mim”, retratou Almodóvar sobre a sua relação Penélope.

Por Portugal também há casos assim. Rita Blanco assumiu já ser ‘‘uma das actrizes de João Canijo’’. O  último filme do realizador português, Sangue do meu Sangue (2011), também um dos mais premiados de sempre, é o culminar de uma relação cinematográfica de mais de vinte anos. O realizador escreveu, desde o início, o guião com a actriz e os restantes protagonistas. Dois desses protagonistas são igualmente duas mulheres, marcantes no trabalho de Canijo – Anabela Moreira e Cleia Almeida -, também elas indissociáveis ao trabalho do cineasta que, em 2011, disse, sobre a relação realizador-actor, que ‘‘não se dirigem actores, trabalha-se com eles. (…) Prefiro trabalhar com actrizes porque gosto dessa capacidade de entrega e de disponibilidade que é biologicamente inerente à mulher.’’

O El Pais considera, nesta matéria, que a linha é ténue entre a glória e a maldição: ‘‘o teu melhor aliado pode ser também o teu pior inimigo’’. Talvez , a haver remédio santo para esta causa e para bem destas intocáveis duplas, o melhor será sempre surpreender quem está do outro lado, ansioso, num dia de estreia de um filme daquele realizador preferido. O mais fácil, quando os protagonistas da trama são sistematicamente os mesmos é cair no lugar-comum. Ainda para mais se se notar, numa qualquer dupla, por alguma razão, a superfluidade.

No ecrã, aceita-se bem a amizade que se sabe entre o tal actor e o tal realizador. Convive-se naturalmente com a empatia ali existente. Contudo, não é simpático se se vir comodismo. Acabemos com outro dito popular, em jeito de reflexão, que diz – ‘‘mais vale cair em graça do que ser engraçado’’.

Tags
Show More

Vítor Teixeira

Gosta de letras e do que se pode fazer com as mesmas. Interessa-se por compreender e comunicar tudo o que se passa à sua volta, exactamente um género de repórter-sombra, solto, por aí.

Related Articles

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Check Also

Close

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: