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Os 12 anos de Vida de Boyhood

É raro encontrar um filme que nos agrade totalmente, que nos puxe para a sua história e que nos envolva na sua simples complexidade. É raro, mas não é impossível. Boyhood, como poucos outros, sabe muito bem fazê-lo.

A mais recente obra de Richard Linklater (Before Sunrise, Before Sunset, Before Midnight) apresenta a receita perfeita (e quase irrepetível) para a construção de um magnífico filme, não deixando nenhum elemento essencial de lado, seja ele a construção cinematográfica, o argumento, ou a construção das personagens. Filmado durante um período de 12 anos, Boyhood reflecte toda a calma e paciência envolvidas na sua composição, mostrando perante os nossos olhos o crescimento das personagens, dos actores e da vida sem si. Tecnicamente, Linklater permite que a câmara se mantenha sobre os actores, durante algum tempo, dando-lhes a oportunidade de utilizar o tempo cedido para criar uma emoção visual por vezes impossível de expressar por palavras. Isto é sem dúvida uma óptima estratégia nos primeiros episódios do filme, mas, à medida que os atores vão crescendo, essa certeza diminui.

Como o próprio título insiste em indicar, o filme desenha a história de crescimento de um rapaz, Mason (Ellar Coltrane), desde os seus 5 anos até aos 18. Ao ter a sorte de contar com os mesmos actores, durante um período de tempo tão longo, Linklater tem a oportunidade de construir uma história coesa, real e, acima de tudo, honesta. Para marcar o passar o tempo e para situar o espectador, o realizador e argumentista salpica vários elementos pop no decorrer da história, criando leves leitmotiv, que criam uma agradável sensação circular, numa outra forma linear narrativa. Com o avançar do tempo, as referências passam a ser mais esporádicas, aproveitando assim a sua natureza – afinal, as referências populares ganham a sua importância por perdurarem no tempo.

Para além da ponderada e paciente técnica cinematográfica do realizador, Richard Linklater volta a não descurar as suas habilidades de escritor. Com um forte e profundo argumento, Linklater cria um guião único que se transforma, até certo ponto, na antítese do padrão de Hollywood (ou de qualquer outra história, na verdade). No argumento de Boyhood, não é procurado o clímax da narrativa. Sendo que este é estruturado em episódios separados por saltos de tempo (uma forma bastante italiana, mas menos evidente), em que nenhum deles procura incessantemente um auge de emoção, estando a evolução da história e das personagens dependente não de apenas alguns segundos fulcrais, mas sim de todos os momentos. Consequentemente, Boyhood não apresenta uma estrutura típica, que coloca o protagonista na posição de ultrapassar um obstáculo exacto e definido, aproximando-se, assim, à vida real. Neste filme, a criação de ligações entre pessoas, a construção de relações entre família e amigos e todo o processo normal de uma vida são celebrados, tendo em consideração todas as barreiras e percalços que aparecem perante qualquer um.

Como referi anteriormente, ao poder trabalhar com o mesmo elenco, durante um período de tempo tão alargado, o realizador de Boyhood tem a oportunidade de explorar os seus actores, nunca impossibilitando a mudança física (voluntária, certamente) dos mesmos. Na representação de Patricia Arquette, é difícil encontrar qualquer erro, assim como na de Ethan Hawke – ainda que uma inexplicável e irracional falta de empatia sempre me tenha dificultado a apreciação do trabalho do actor. Quanto aos actores mais novos, o protagonista e a sua irmã, outra reflexão é necessária fazer. Enquanto crianças, não existe muito a que se lhes possa apontar o dedo. Devido à ainda presente inocência e liberdade, as representações são fluidas e agradavelmente profissionais. No entanto, após a passagem à adolescência, as normais inseguranças deste período de vida são decoladas da vida real para o ecrã. Ainda que se possa argumentar que isso contribuí para a autenticidade do filme, isto implica uma quase que automática perda de qualidade de acção dos actores perante a câmara. Os diálogos passam a ser mais robóticos e debitados, em certas ocasiões monocórdicos e pouco credíveis, quase amadores. Em várias cenas de episódios finais, Ellar Coltrane não está ao nível que lhe é exigido, principalmente tendo em conta a qualidade geral do filme. Felizmente, o argumento e a realização conseguem muito bem compensar o erro.

Ainda que uma avaliação geral de Boyhood acabe por ser sempre positiva, alguns (muito pequenos) defeitos – como o anterior – podem ser encontrados. Afinal, nada é perfeito. Em específico, desagradou-me que grande parte da culpa da separação dos pais de Mason e Samantha (Lorelei Linklater) e o consequente abandono da família por parte do pai caia sobre a personagem interpretada por Patricia Arquette. É certo que o pai das duas crianças é apresentado como o clássico caso de jovem irresponsável, que, por não conseguir arcar com as consequências dos seus actos, larga a sua família e foge egoisticamente, sendo também muito interessante e muito bem construída a sua história de reaproximação e redenção perante os filhos. No entanto, devido à recorrente má escolha de parceiros por parte da mãe do protagonista e, em especial, devido à conversa entre Mason e o seu pai na sala de concertos, após a sua festa de graduação, uma estranha sensação de culpa fica a pairar no ar, recaindo esta sobre a personagem da mãe. Para além disso, a história desta mãe solteira desenvolve-se bastante longe dos nossos olhos. Ainda que seja possível acompanhar a sua progressão e a sua luta, existe sempre uma separação inapagável entre a sua personagem e o espectador, facto que parece não acontecer com o pai do protagonista. Neste caso, é sem dúvida Patricia Arquette que consegue colmatar as falhas apresentadas pelo argumentista, acabando por alcançar uma incrível interpretação sempre que aparece em cena.

Por fim, é apenas importante voltar a louvar a obra criada por Richard Linklater, ressalvando que as críticas mais duras que se possam fazer não passam de pequenos detalhes de pouca importância. Boyhood é, com certeza, um dos melhores filmes do ano, capaz de nos prender a atenção desde o início até ao fim, sem nunca recorrer a exageros e mantendo sempre uma grande honestidade, característica central de todo o filme. De resto, não há mais nada a dizer. Boyhood é responsável por um argumento magnífico e único, representações espantosas e uma realização de perder o fôlego. Que mais se pode pedir?

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André Ferreira

“Political junkie”, europeísta convicto e keynesiano por natureza. Ocupa todo o tempo que consegue com séries, filmes, música, livros, podcasts e qualquer outra fonte de entretenimento que consiga encontrar.

Licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas pela FLUL-UL e pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela FCSH-UNL.

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