Desporto

Orgulho no Texas, Senhores na NBA

Os San Antonio Spurs são, a par dos LA Lakers, a equipa que mais tem dominado o novo milénio, na liga de basquetebol mais espectacular do mundo. O franchise nasceu em 1967, com o nome de Dallas Chaparrals, evoluindo, depois, para Texas Chaparrals, até que, em 1973, encontraram o nome por que são conhecidos até hoje, San Antonio Spurs.

Desde a sua data de fundação, até ao primeiro título conquistado, passaram-se 32 anos. Três décadas a presenciar o poderio mais ou menos constante dos Boston Celtics, dos LA Lakers e, claro, de Michael Jordan e dos seus Chicago Bulls. Se David Robinson é um nome incontornável na história da liga e da equipa, foi apenas com a entrada de Tim Duncan, em 1997, que os Spurs puderam cogitar a possibilidade de auferir o tão ambicionado anel de campeão. O primeiro acabaria por ser celebrado em 1999, as “Twin Towers“, David Robinson e Tim Duncan, mudaram a dinâmica existente entre um Poste Alto e um Poste Baixo, acabando por dominar qualquer defesa adversária. Porém, para além de Duncan, existia outra peça comum aos cinco títulos dos Spurs. Essa peça fundamental é o treinador da equipa desde 1996 e chama-se Gregg Popovich.

Desde então, nunca mais assistimos a uns Playoffs (fase final da NBA) sem vislumbrar os Spurs como participantes cativos. A aura desde o título em 99 manteve-se, ou melhor, começou a ser arquitectada. Os Spurs eram aquela equipa repleta de jogadores europeus, eram aquela equipa que, com um trabalho impressionante de scouting, conseguiam adquirir atletas medianos e torná-los em jogadores realmente úteis e dinâmicos para a equipa. Os Spurs não eram, eles ainda o são.

Já com o francês, Tony Parker e o argentino, Manu Ginobili, na equipa, San Antonio voltou a vencer o título de campeão da NBA, em 2003, frente aos New Jersey Nets. Duncan foi eleito o MVP das finais, mas a parceria com Parker e Ginobili foi fundamental para que tudo se tornasse numa máquina extremamente bem oleada pelo comandante Popovich. Por esta altura, os Spurs eram acusados de praticar um basquetebol chato, com poucos pontos e um ritmo ofensivo ineficiente. A equipa respondia com a máxima, “o ataque ganha jogos, mas a defesa vence campeonatos”. Na verdade, por muito que a formação texana conquistasse vitórias e provasse o seu nível de jogo, nunca existiu, por motivos racionais e coerentes, ou não, uma unanimidade no que diz respeito ao seu nível de competitividade e às suas candidaturas ao título.

Ano após ano, ouvíamos analistas da NBA, ESPN ou de qualquer outro órgão de comunicação, fosse ele americano ou até português, afirmar que o plantel comandado por Popovich precisava de uma renovação. Líamos que o trio Duncan, Parker e Ginobili já não era suficiente, eram essenciais novos líderes, uma troca, uma restruturação. A equipa respondia aos críticos da melhor forma possível: com estabilidade e com títulos. Em 2005, surgia mais um, desta vez frente aos Detroit Pistons, numa final decidida em sete jogos e onde Tim Duncan conquistou pela terceira vez o troféu de MVP das finais. Feito só igualado pelas lendas Michael Jordan, Shaquille O’ Neal e Magic Johnson.

Talvez por nunca terem conseguido vencer dois campeonatos seguidos, a história repetiu-se. Mais artigos a antecipar o fim da dinastia de San Antonio, mais vídeos a assegurar que Duncan precisava de mais ajuda à medida que se ia tornando mais velho. E, novamente, em 2007, a resposta foi categórica, mais um troféu de campeão, frente aos Cleveland Cavaliers do fenómeno Lebron James. Tony Parker tornou-se o primeiro jogador europeu da história da liga a ser considerado MVP das finais.

Mais uma lição de que fazer diferente é, por vezes, fazer melhor. A humildade de Tim Duncan, a classe de Manu Ginobili e as boas decisões do base Tony Parker, juntamente com uma quantidade de colegas com as funções bem definidas, continuaram a levar os Spurs a outro nível, a uma estabilidade invejada por todos, quer sejam jogadores ou treinadores, a um grau de preponderância da liga a que muito poucos chegaram. E, claro, não esquecer Gregg Popovich, destacadamente o melhor treinador a exercer funções da NBA, desde a saída do “Zen Master”, Phil Jackson.

A cultura, táctica e disciplinar, incutida em todos os jogadores que vestem a camisola preta e cinzenta dos Spurs é ímpar. São muitos os casos de jogadores que não tinham sequer espaço na liga e que, depois de ingressarem na equipa de San Antonio, tiveram uma nova carreira, uma oportunidade para brilhar nas funções que lhes eram atribuídas. Como exemplos, temos jogadores como: Rasho Nesterovic, Devin Brown, Fabricio Oberto, Matt Bonner, Patrick Mills, ou Tiago Splitter. Qualquer vislumbre de talento que entre no balneário de San Antonio, é potenciado e transformado numa autêntica arma desportiva para cumprir e ajudar nos objectivos do colectivo.

Repito, colectivo. Os Spurs são isso, sempre o foram e continuam, hoje em dia a ser. Foi com essa tendência que, em 2013, chegaram novamente à final da NBA, mas acabaram por perder diante dos Miami Heat. E, foi com essa tendência redobrada, que voltaram à final em 2014, frente aos mesmos Miami Heat, mas com um desfecho completamente diferente. Desta vez, a formação texana aniquilou o adversário com uns esclarecedores 4-1, ao mesmo tempo que oficializaram mais uma estrela na liga, Kawhi Leonard, de 22 anos, foi consagrado MVP das Finais, distinção que, com essa idade, só Tim Duncan e Magic Johnson tinham tido.

Se a pergunta que está nas vossas mentes é: Duncan, Parker e Ginobili continuavam nos Spurs, durante esse título, e, continuam, agora, nesta época que decorre? A resposta é afirmativa. Na NBA, estes atletas não conhecem outras cores, não conhecem outra equipa, dedicaram a vida a San Antonio e recolheram cinco grandes frutos dessa dedicação, cinco anéis de campeão e um lugar mais do que demarcado na história da liga. O treinador também é o mesmo, Popovich. E, adivinhem, a cavaqueira de que San Antonio não vai vencer outro campeonato tão cedo também é a mesma. Na verdade, a época não está, neste momento, a correr de feição, mas, se há coisa a que estes jogadores já nos habituaram, é a nunca sobrestimar o coração de um campeão. Nesta equipa, existem pelo menos quatro dos melhores campeões que a NBA já teve o privilégio de presenciar e apresentar ao resto do mundo.

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Filipe Pardal

Licenciado em Ciências da Comunicação e mestre em Jornalismo. É assim que o meu currículo académico se define. Quanto às origens: 90% alentejano e 10% algarvio, ambas com um orgulho desmedido ainda que por motivos diferentes. As minhas temáticas preferidas vão desde a política ao desporto, com passagem pela música e literatura. A mistura parece abrangente mas a paixão é bem concreta: escrever e investigar.

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One Comment

  1. Pop é Deus no basket, vai-se retirar como um dos melhores treinadores de todos os tempos, para mim é o melhor. Excelente artigo Pardal.

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