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Onde pára a fama

Ser famoso nunca foi um objectivo tão facilmente alcançável como é nos nossos dias. Como dizia a odiada e conhecida celebridade americana, Paris Hilton, “bem ou mal o que interessa é que falem de mim”. Por isso, namorar com um jogador de futebol, estar envolvido num escândalo e ter má fama são alguns exemplos de como conseguir ser uma celebridade de uma forma rápida. Outra maneira ainda mais rápida é através da exposição da sua vida quotidiana, durante 24 horas por dia – ou o objectivo será pelo menos esse. Os Reality Shows (vou referir em especial aos que transmitem a pura vivência de um grupo de pessoas), o tipo de programa que ou é odiado, ou adorado, é criticado por ser ridículo e uma perda de tempo, mas acaba por ser dos assuntos mais falados pelos portugueses que o vêem. Os concorrentes arriscam-se a deixar a simples vida em troca da concretização dos seus sonhos. Porém, será isto assim tão linear?

Portugal é sem dúvida um verdadeiro apologista dos Reality Shows. Os concorrentes são escolhidos a dedo e acabam por ser humilhados e explorados (pelos média em especial). Todos aqueles segredos e informações que apenas uma, ou outra pessoa tinham conhecimento sobre um concorrente deste tipo de programa são agora uma nota definitiva sobre a pessoa, um motivo para gostarmos do concorrente, ou para este ser motivo de escárnio. Tudo isto seria apenas puro entretimento para os telespectadores, se Portugal fosse único no Mundo, ou se fosse possível seleccionar as imagens que eram passadas para o estrangeiro – facto impossível, pois existe a Internet e as restantes novas tecnologias de comunicação. Os despautérios dos concorrentes acabam por esboçar a caricatura do nosso país, no estrangeiro. Reflectem um país composto por uma nação inculta e que poderia ser eleita palhacinha da Europa. Eu sou da opinião que Portugal é melhor que isto, mas, até que ponto isso interessa?

Vejamos o que aconteceu este ano: se formos a comparar as inscrições para participar na Casa dos Segredos 3, o Reality Show do momento em Portugal (85 mil inscrições), e o número de candidaturas para o Ensino Superior (45 mi candidatos), nota-se uma assustadora diferença. Não vale a pena censurarmos os portugueses que fazem parte da primeira contagem, nem dizer que “foi uma vergonha”, porque a situação económica da altura, não era, nem é, propriamente feliz. Por isso, convenhamos que um deles sai mais dispendioso que o outro. Quanto custa uma licenciatura hoje em dia? Ultrapassa os 1000 euros anuais, aos quais se deve juntar as despesas relativas aos transportes públicos ou gasolina, à renda para o caso dos estudantes que não moram propriamente perto da instituição de ensino, a alimentação, e ainda alguns materiais escolares (e refiro os bens essenciais para a sobrevivência do ser humano estudante). No final do mês, a pessoa já gastou pelo menos mais de 200 euros, se tiver a sorte de ser poupada. No fundo, esta é uma reacção desesperada aos retrocessos da economia. Culpem antes a comunicação social por fazer de um fenómeno tão infeliz uma notícia que em rigorosamente nada inspirou os portugueses.

Outro motivo para este dispare de candidaturas entre o ensino superior e os Reality Shows é a oportunidade, ou a esperança, de muitos concorrentes, de terem uma sorte maga, e conseguirem concretizar os seus sonhos. Para isso, e como acontece na Casa dos Segredos, os portugueses podem ver o dia-a-dia de um grupo de pessoas, fechados numa casa a sete chaves e a serem direccionados por uma voz. Uma situação que poderá tornar-se arriscada para quem a viva, pois, durante três meses, estas pessoas vão fugir à rotina das suas vidas e em troca partilham uma casa com desconhecidos que podem, ou não ter bom feitio. Com esta formula, a terceira edição do programa consegue normalmente bater as audiências da concorrência com uma diferença incrível no horário nobre. Mais informações aqui.

É nas situações decorridas dentro da casa que o espectador cria ligações com os concorrentes. “Aquela é a minha favorita, porque tem o mesmo clube do que eu!”, ou “Aquele mexe com a casa, tem de ganhar!” são instantâneos para a fama e para uma carreira no mundo da televisão, em especial. Se as pessoas gostam da novidade, o produto vende. Quando o produto deixa de vender, ou de “ter audiências”, procura-se algo novo outra vez e quiçá especializado na área – talvez dure mais tempo. Prefiro não mencionar exemplos, porque, os especialistas em Reality Shows saberão os muitos exemplos a que me refiro. Existem os casos excepcionais em que o/a ex-concorrente decide dar continuidade a essa fama, através da aposta na formação numa área na qual pretendiam fazer carreira. Esses sim souberam aproveitar e prolongar a fama. Os outros, os que ambicionavam ser natos na matéria só porque tinham fãs, continuam a ser falados, mas, é incerto que sejam lembrados por algo grandioso – porque nem a oportunidade de fazer algo grandioso se lhes foi dada.

 E a questão é posta: terá valido a pena tornarem-se conhecidos a nível nacional? Será que valerá mesmo a pena participar nestes programas? A fama é garantida, mas, não será apenas por um curto período de tempo? Aqui vai um teste para os que tenham dificuldade em responder: sem usar o Google, diga cinco concorrentes que tivessem participado num Big Brother e, já agora, expliquem o motivo da fama ainda persistir. Uma coisa é certa, com ou sem emprego, sei que não é saudável para o ser humano participar num Reality Show.

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Petra Teixeira

Licenciada com o curso de Ciências da Cultura, vertente em Comunicação na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Adora o mundo da Comunicação sendo que a escrita é uma das áreas predilectas. As áreas de interesse são sobretudo direcionadas para a moda, música, cinema, teatro, literatura, socidade, e um afim de outros assuntos que fazem a vida mais interessante.

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