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Onde mora a vinha? Só não há no Vaticano… mas não juro!

Um dia descobri que há videiras e que se faz vinho nas Fiji. Nas Fiji? Senti que alguma coisa parecida com o que poderá sentir uma criança ao aproximar-se da porta do quarto dos pais quando estão a fazer amor…

Hã?! O que é aquilo?

Nas Fiji? Perguntei a uma amiga, crítica de vinho, se tinha conhecimento de que se fazia vinho nas… Fiji…

Ah! Não sabes?! A videira é uma vadia, vai para todo o lado.

No mundo há 206 países… contando com os que não são reconhecidos universalmente. Não sei se há videiras em todos e se das suas uvas se faz vinho e se, caso se produza, é comercializado.Em teoria, a Vitis vinifera só medra entre os 30º e os 50º, tanto a Norte como a Sul. No entanto, faz-se vinho nas Fiji… e no Brasil no paralelo 8º – quem produz é a portuguesa Dão-Sul. A empresa orgulha-se de ter a vinha mais próxima da linha do Equador. O clima tropical causa duas frutificações, duas vindimas anuais.

JB_ondemoraavinhasonaohanovaticanomasnaojuro_11Possivelmente, a vinha do paralelo 8º é mais próxima da linha do Equador a produzir com fins comerciais. É vadia, garantiu-me a amiga. Esta trepadeira aguenta o Inverno gelado do Canadá… dá-se na Rússia… na Suécia… na Indonésia… na Birmânia… na Grã-Bretanha… na China… no Japão…Já não digo nada quanto aos certificados de residência da videira de vinho. Só não acredito que se faça vinho na Cidade do Vaticano. No entanto, o vinho é sagrado.

Não sei qual será a região vitivinícola mais pequena do mundo. Talvez fique na Borgonha: La Romanée tem 0,8 hectares – um pouco menos do que a dimensão recomendada para um campo de futebol onde se joguem partidas internacionais.

Ponto de ordem à mesa:

Um campo de futebol não equivale a um hectare!

Não sei onde nasceu este mito, quando surgiu, ou quem o afirmou pela primeira vez. Um hectare são 10.000 metros quadrados. Um campo para jogos oficiais tem, no máximo, 110 metros por 75 metros, o que dá 8.250 metros quadrados, correspondendo a 0,825 hectares. Apenas se o campo tiver as medidas máximas permitidas, 120 metros por 90 metros (10.800 metros quadrados) é que se alcança algo semelhante: 1,08 hectares.

Esta “coisa” das regiões tem muito que se lhe diga. No chamado, na gíria do vinho, Velho Mundo há a tradição de se estabelecerem regiões vitivinícolas, com as suas características naturais, castas e procedimentos.

Nem todos os terrenos permitem que se façam bons vinhos. Daí a identificação de territórios onde, teoricamente, a qualidade existe. Porém, não é bem assim. Há localizações que existem por bairrismo, ou provincianismo, para ser mais correcto. Há regiões que produzem vinhos horrorosos: não dou um cêntimo por um Beaujolais Nouveau… como não dou um cêntimo por Vinho Verde Tinto – aqui trata-se dum género dentro duma região demarcada.

JB_ondemoraavinhasonaohanovaticanomasnaojuro_3O sistema francês foi adaptado aos países. Das denominações genéricas às pentelhices – ou pintelhices. Em França, quanto mais precisa for a localização, maior será a qualidade. Os vinhos com Indicação Geográfica Protegida – os nossos Regionais – valem menos do que um com nome de aldeia. Isso, em França.Por isso, ou também por isso, o mapa da Europa vínica parece um do começo da Idade Média, com micro-territórios, cada qual com o seu senhor feudal. Contando regiões genéricas até às nano-regiões, apresento alguns exemplos:

– Espanha – 119 denominações de origem.

– França – 383 denominações de origem.

– Itália – 402 denominações de origem.

– Portugal, já lá chego.

JB_ondemoraavinhasonaohanovaticanomasnaojuro_7JB_ondemoraavinhasonaohanovaticanomasnaojuro_4As regiões traduzem, ou deviam, história e antropologia, em diversas facetas. Porém, alguns países quiseram aproveitar o embalo dos franceses e plantaram castas oriundas do país que – queira-se ou não, seja verdade, ou não – goza de maior prestígio.Em Itália, as variedades importadas geraram (também) grandes vinhos. São famosos os “Super Toscanos”. Em Espanha, como em Portugal, as cultivares francesas (principalmente) também se fixaram.

Hoje pode beber-se um Bairrada feito com cabernet sauvignon, merlot e petit verdot. So very typical. Apropriadamente chamado de Calda Bordalesa, por ser um vinho de Bordéus fora do sítio, este é um néctar fantástico, produzido pela casa Campolargo. É fantástico, mas será Bairrada? Por ali, mandava a baga… que é difícil e bruta… E que Luís Pato molda maravilhosamente e com que Mário Sérgio, respeitando a tradição sem cedências, cria dos melhores vinhos do país, marca Quinta das Bágeiras.

O sistema em funcionamento na Europa estabelece, com base na tradição francesa, diferentes níveis de garantia de origem. No entanto, não estabelece qualquer hierarquia quanto à qualidade. A definição dos critérios de elegibilidade é estabelecida pelas organizações de cada país, que depois são postos em forma de lei. A legislação da União Europeia tende à uniformização, mas não é uniforme. Os Vinhos Regionais designam-se em Espanha por Viños de Tierra e de Indicazione Geografica Tipica, em Itália. A Denominação de Origem Controlada (DOC) corresponde a Appellation d’Origine Controlé (AOC), em França.

Em Portugal, Vinho Regional não significa que seja pior do que um com Denominação de Origem Controlada. Por exemplo, são muitos mais os bons Vinhos Regionais Alentejanos do que os Alentejo DOC. Até a categoria mais baixa cria equívocos, embora hoje os Vinhos de Mesa já possam ter menção a castas e anos de colheita. Até há pouco tempo, o Anima, o Doda (antes foi Dado), ou os Buçaco estavam classificados como Vinho de Mesa, sem direito a indicar casta, ou ano de colheita – apesar de serem grandes vinhos, pelo que os produtores criaram estratagemas para informar o consumidor.

Regressando aos “Super-Toscanos”… a dada altura, outros vinhateiros, com outra concepção do que deve ser uma designação de origem – respeitando castas e procedimentos técnicos – levou a que fosse estabelecida uma nova prateleira: Denominazione di Origine Controllata e Garantita, distinguindo-se da Denominazione di Origine Controllata – a terminologia parece-me infeliz, mas é lá com eles.

O vinho era do “Velho Mundo”, mas hoje é também do “Novo Mundo”. O consumo per capita nos países europeus, nomeadamente os tradicionais produtores, é superior às nações doutras latitudes e longitudes.Muitos produtores portugueses garantem que o modelo europeu das regiões demarcadas faz confusão além mares, além de em alguns países, com muita população e pouca tradição, como a Alemanha. Exceptuando França e Itália, por razão óbvia, os grandes mercados europeus estão nos países mais ricos: Alemanha e Reino Unido. Lá fora, há os Estados Unidos da América, o Brasil, a China…Aí o consumidor escolhe por casta – daí a “invenção” da touriga nacional como argumento comercial (ver crónica anterior). Discordo, porque se está a vender algo que não é o país vínico.

Sim, ok…

Quanto a mim, deve haver total liberdade no cultivo da vinha e feitura do vinho. Sou é conservador quanto ao uso de topónimos, coisa inventada para sublinhar especialidades concretas, de história, gastronomia e antropologia.

Reconheço que a minha argumentação conservadora tem lacunas, ou pontos fracos. Após a hecatombe da filoxera, no século XIX, plantaram-se em Portugal, de Norte a Sul, castas estrangeiras. Cento e tal anos depois, têm direito a passaporte português? Até no – felizmente – conservador Douro há semillon e syrah, com muitas dezenas de anos. A cabernet sauvignon, que me abespinha na Bairrada, está por ali e deu fruta para dezenas de vindimas.

Por outro lado, o que dizer das castas inventadas? Os franceses criaram a cabernet sauvignon a partir da cabernet franc (verdadeira) e da sauvignon blanc – uma tinta e outra branca. A cabernet sauvignon é sinónimo de Bordéus e é a variedade mais plantada no mundo.

O senhor Henry Bouschet modificou geneticamente – a agricultura é toda resultado de modificações genéticas – as castas grenache e a petit bouschet, esta também da sua autoria. Deu-lhe o nome de alicante bouschet… e… e é uma porcaria. Em França, não vale nada, no Norte de África, outrora colonizado por franceses, vale pouco, mas… mas… no Alentejo é fantástica. A alicante bouschet é a alma dum dos maiores vinhos portugueses, o Mouchão.

No – graça a Deus – conservador Douro, a casta mais plantada é a touriga franca. No entanto, não é “franca”– verdadeira, como cabernet franc. Originalmente, chamava-se touriga francesa, mas acharam que desviaria a atenção, sendo-lhe atribuída outra nacionalidade. A touriga franca – a minha casta tinta predilecta – é um híbrido. Chamaram-lhe francesa, porque era à moda de França, onde havia uma grande criatividade em experiências desta natureza. Contou-me um engenheiro viticultor que nasceu da junção duma casta boa no campo e má na adega (mourisco) com uma boa na adega e má na vinha (touriga – que ganhou o apelido “nacional”).

Já chega?!

Os franceses são rebuscadamente sublimes. Nhoquices, mariquices, manias, taras… mas muito ciosos do que é seu – sempre o “melhor do mundo” – e preocupados com a identificação do que se come, para que gato não seja vendido por lebre.O modelo, que pode parecer confuso, é muito fácil. Do geral para o particular, em que o mínimo vale mais do que o máximo. Como se não bastasse, puseram em prática outro mecanismo para informar o gastrónomo acerca da qualidade.

JB_ondemoraavinhasonaohanovaticanomasnaojuro_2Às denominações de origem, os franceses adicionaram uma pauta de classificação. O pecado está em não serem uniformes as designações, variando com o lugar. Citando apenas uma das 17 regiões genéricas, em Bordéus, exceptuando Sauternes e Saint-Émilion, o topo é designado por Premier Cru e a escala vai até ao quinto nível. Em Sauternes, à cabeça está Premier Cru Supérieur e vai até ao Deuxième Cru, que é um terceiro piso (idiossincrasias). Em Saint-Émilion, há três estádios e a chefia é designada por Premier Gran Cru Classé A.

A haver confusão só nas diferentes terminologias entre regiões. Quem tem um Bordéus, ou outro, na mão só precisa de saber ler. Cá nada disto se passa. Para não haver susceptibilidades, exemplifico com vinhos da mesma firma, o Esteva tem um selo igual ao Barca Velha. O primeiro custa 2,49 euros num hipermercado e o segundo tem um valor de partida de 100 euros… a última edição posta à venda, em 2013, foi a colheita de 2004, que custa agora à volta dos 350 euros.

Em crónica anterior, escrevi acerca da mais antiga região demarcada do mundo… Tokaji, Chianti, ou Douro. Seja, os portugueses inventaram o conceito de “denominação de origem controlada”, mas os franceses é que a lapidaram, apararam, esculpiram e poliram.Para ser justo, o Douro não é todo igual e existem classificações que indicam a qualidade das localizações. A classificação é funcional para os homens do sector, não ajuda nada o consumidor comum. A escala vai do “A” (melhor) ao“F” (pior). A pontuação vai determinar o valor do “benefício” a pagar – o sistema baseia-se na produção e no armazenado. Na verdade, a escala vai até ao “I”, mas abaixo do “F” não há admissão para Vinho do Porto.

E se tirassem daí as mãozinhas?

O tuga é um ser engraçado, quase uma subespécie do Homo sapiens sapiens… o mesmo grau de inteligência, mas com comportamento sui generis, caótico do seu pensamento. Por isso, há o desenrascanço, o chegar atrasado, o atravessar a pé a rua, quando o sinal encarnado acabou de se acender, as muitas contradições, a bipolaridade, a mania sistemática de mudar os nomes das coisas.

JB_ondemoraavinhasonaohanovaticanomasnaojuro_8Os nossos vinhateiros passam horas, dias, semanas, meses e anos a garantir que temos denominações a mais, que é preciso simplificar, para facilitar a leitura ao cliente estrangeiro…

Se houve uma coisa de boa – única, aliás – no período em que Jaime Silva foi ministro foi o empenho em agregar as regiões. Menos Comissões Vitivinícolas Regionais – entidades que gerem o sector num determinado território – menos custos, menos encargos com estruturas.Tudo muito bem até os vitivinicultores começarem a confundir uma unidade de gestão com uma denominação de origem. Até podia haver um só organismo a zelar pela qualidade e autenticidade dos vinhos de cada região… outra coisa é a especificidade do que é produzido.Assim, longe de minguar para simplificar… inventou-se e há mais confusão. Onde antes havia um Vinho Regional Beiras, Bairrada DOC, Dão DOC e Beira Interior DOC, passou a existir Beira Atlântico – qué?! Terras do Dão – qué? E Terras da Beira – qué?

Enquanto isso, mantiveram-se “coisas” que têm identidade, ou especificidade próprias, quiçá nem qualidade. Contudo, a flor da transcendência – não é nova – é a Península de Setúbal. Uma parte fica na… Península de Setúbal e outra no Alentejo.Por que razão os produtores de Alcácer do Sal, Grândola, Santiago do Cacém e Sines não produzem vinho alentejano? Disseram-me que era porque, como ficam junto ao mar, não se assemelhavam ao “Alentejo”.

Hã, hã…

O Concelho de Odemira fica onde? No Baixo Alentejo e com costa atlântica. Quase com as raízes na água salgada, uma vinha em Vila Nova de Milfontes produz Vinho Regional Alentejano, mas uma no Torrão, a 65 quilómetros do oceano, gera Vinho Regional Península de Setúbal – apesar de lá não se situar… é geografia física.

Ora, o litoral alentejano não faz parte do Alentejo, porque é diferente… uma vinha em Milfontes e outra em Mértola, ambas no Distrito de Beja, são idênticas? Uma vinha na Vidigueira é comparável a outra na infernal Granja-Amareleja, ou a outra na mais fresca Portalegre?

Tenho uma cabecinha muito pequenina. Não percebo, mas compreendo o modelo francês. Devo ser Neandertal.

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João Barbosa

Comecei no Diário Económico em 1990 e isso só é importante porque me apaixonei pela profissão e porque aprendi a escrever – a explicação seria longa.

Informar que escrevi um livro sobre vinho (Grande Reserva – Oficina do Livro) não diz nada acerca de quem sou. Revelar que sou co-autor de um programa de história na televisão (Estórias da História – RTP 2) já soma qualquer coisa. Para se ter um retrato mais próximo digo que vejo o vinho como quem bebe cinema. Interessa-me a alma das artes, os fundamentos das coisas, as explicações dos factos e os resultados finais.

Olha-se para o meu perfil e vê-se um vampiro, com o rosto do actor Max Schreck. Porquê? Não porque o vinho é o sangue de Cristo, bebida sagrada dos judeus e promessa celestial dos muçulmanos. É um vampiro porque sou trágico e romântico.

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