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Onde é que ele está?

Há quem diga que trabalhar apenas com mulheres, quando se é mulher, é horrível. Que são mesmo más colegas umas para as outras. Que o ambiente é insuportável. Que agradecem que haja um homem, ou dois por perto. Sempre o ouvi dizer. Agora, se é mesmo pela melhoria do ambiente, ou se é para potenciar tentativas de procriação e alguma diversão, não sei. Obviamente, não tenho essa perspectiva, mas sempre me entristeceu a conotação das mulheres como más colegas de trabalho para com as suas pares. Espero que seja errada, ou que mude.

Quando comprovamos que os nossos próprios companheiros de género, de profissão, de causas, de partido, seja do que for, estão contra nós, algo é revelado. Diria que algum mau carácter, algum mau perder e alguma mediocridade é desmascarada, quando essa facadinha nas costas nos atinge.

Isto tudo para chegar à última publicidade do Zoo de Lisboa, que pergunta “Onde está o Lince Ibérico?” e apresenta uma paisagem vazia de animais. A meu ver, este outdoor publicitário não podia ter sido mais infeliz. Por ter sido lançado antes do Natal, teria uma óbvia oportunidade temática para um apelo positivo ao espaço do Zoo. No entanto, ao invés, denigre um projecto meritório e muito mais importante que o seu próprio, com o qual se deveria solidarizar e não antagonizar – a reintrodução do Lince Ibérico em parte do seu habitat de origem, no território continental português. Já que também acolhe um casal de linces, desde Dezembro, porque não mostrar os animais, em vez de publicitar o vazio? Obviamente, o Lince, no habitat natural, não está a posar para a fotografia.

Custa repetir, mas parece que há pessoas que ainda vivem no século XX. Os animais não são para estar fechados em jaulas, ou num perímetro reduzido, mas sim no seu habitat natural. Quer para os respeitarmos, enquanto seres vivos, quer para promovermos a sustentabilidade dos ecossistemas. O Jardim Zoológico deve ter hoje um papel didáctico e de suporte à cura e reprodução de animais selvagens, ou em perigo de extinção e, como tal, é importante e deve ser encarado com um mal menor. Em vez de ser apenas um catálogo, ou um mostruário.

O que o Jardim Zoológico poderia publicitar seria o trabalho de organismos e associações que protegem os mesmos interesses, como a Carnívora, por exemplo, e não tentar vender os seus Linces como melhores que todos os outros. Prefiro nunca mais ver nenhum Lince, do que vê-lo atrás de grades. Seria sinal que a sua espécie estaria em liberdade e fora de perigo.

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Ricardo Jorge

Lisboa, 1978. Licenciado e mestre em Arquitectura pela Universidade de Lisboa, estudou também Design e Ensino das Artes. Paralelamente a estas áreas desenvolve trabalho em Ilustração e Desenho com exposições regulares em Portugal.

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