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O vinho da minha terra

Não tenho culpa! Nasci em Lisboa e, por isso, nutro do patriotismo da cidade – não sei que nome atribuir ao que se situa entre o nacionalismo e o bairrismo. Por parentela materna, sinto-me um bom bocado alentejano. Por amizade, aconchego-me ao Douro, no vinho, e a Trás-os-Montes, no azeite. Porém, sou de Lisboa.

Por ser de Lisboa – quanto a mim é a mancha populacional que a abraça –, entendo que os vinhos das terras em seu torno são seus, sem deixarem de ser donde estão as suas videiras. Olhando há volta – reparando que a Área Metropolitana de Lisboa forma-se no modelo clássico do círculo, embora um pouco tosco –, a capital está cercada de vinhas, quer na margem direita do Tejo, quer na esquerda. De Vila Franca de Xira a Mafra e a Setúbal, mencionando agora apenas os concelhos de fronteira metropolitana. Há cinco regiões demarcadas – Bucelas, Colares, Carcavelos, Palmela e Setúbal – mas somam-se outros vinhos sem designação de origem exclusiva da Grande Lisboa.

Até tarde, Lisboa foi rural. Os lisboetas divertiam-se nas hortas, marchavam, ou iam descansadamente no eléctrico… o campo chegou a estar em Arroios, foi-se afastando. Na década de 40, as hortas ficavam no Lumiar, em Campolide, no Campo Grande – chegou a ponderar-se a construção do aeroporto na actual Cidade Universitária…

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Petiscava-se nos retiros, bebia-se e folgava-se. Um passeio giro era à Costa da Caparica, onde se piquenicava. Uma bisavó brincava, chamando-lhe “Costa da Paparica”.

Lisboa e Paris

A cidade de Lisboa é hoje toda ela urbana e foi diferente. Aconteceu o mesmo noutros locais. Em Paris, por exemplo, resta uma vinha, em Montmartre. Protegida por regulamento municipal, tem apenas 0,15 hectares e dá um vinho – contou-me quem o bebeu – horroroso. Em 2006 ou 2007, um visitante assíduo informou-me que constava terem contratado um enólogo.

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Um vinho francês, ainda por cima de Paris e dum bairro emblemático, tem forçosamente de ser caro. Queria conhecer, mas é escorregadio. Os meus agentes secretos ainda não localizaram paradeiros. Estou disposto à excentricidade de pagar muito por uma zurrapa.

Sabe-se que no século XVIII, três quartos da área de Montmartre estavam cultivados com vinha. Pelo que li, os vinhedos iam Paris ao Vale do Loire, antes da filoxera e da enorme expansão urbanística; mas não juro nem teimo. Para se ter uma ideia, Montmartre tinha 36.450 habitantes em 1856. Um número que situaria hoje, em Portugal, na 80ª posição dos municípios mais populosos, abaixo de Cantanhede e acima de Beja.

Certamente menos populosa do que Paris, Lisboa conhecia a mesma realidade. Uma pintura de Tomás da Anunciação (1818 – 1879), datada de 1857, retrata a pacata e bucólica Penha de França.

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Um outro quadro, que não consegui descobrir a data, mostra idêntico cenário. Isaías Newton foi o seu autor e pelas datas de nascimento e morte (1838 – 1921) percebe-se que a época será, mais ou menos, a mesma.

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Hoje, Lisboa tem duas vinhas, ambas a salvo – se tal fosse possível garantir – da pressão da construção imobiliária. Situado em Alcântara – na Tapada da Ajuda, um couto do Rei – o Instituto Superior de Agronomia conta com cerca de 100 hectares lavrados, dos quais perto de três são de vinha. Uma outra vinha nasceu no lado oposto da cidade, em Marvila. A Câmara Municipal de Lisboa disponibilizou cerca de três hectares, cabendo a gestão, o cultivo e o fabrico à Casa Santos Lima.

A terra da cidade

Quem já olhou para o solo de Lisboa – com atenção e curiosidade – terá reparado que se faz de barro. Não garanto que assim seja em todo o concelho. Nos cemitérios, onde me despedi dos corpos de amigos e familiares, reparei no barro – mais óbvio, quando chove e o chão se agarra aos sapatos. Os solos barrentos são normalmente ricos e produtivos. Por isso, havia muitas hortas, de Lisboa até ao Vale de Loures, num dos melhores chãos do país. As Avenidas Novas, cujo traçado se fez no final do século XIX, baseou-se nas vias rurais pré-existentes.

Quem tiver tempo e curiosidade compre um roteiro policial de Lisboa. Não é um cadastro de prisão, mas de ruas – o primeiro foi publicado, no início do século XX, pelo meu bisavô José Sebastião Pacheco, editor livreiro e um dos primeiros portugueses a ter automóvel. Nesses manuais de toponímia, lêem-se muitas “azinhagas”, corredores rurais entre hortas.

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Certamente, os antigos já saberiam que as videiras gostam de sofrer, preferindo chão com escoamento e pouco férteis, passando sede. Por ser alimento, a quantidade foi tradicionalmente o objectivo. Quase mesmo acontece com a oliveira, havia olivais.

O meu pai, nascido em 1924, contava que o bairro dos Olivais se edificou numa zona de… olivais. Em muita cidade viu, na sua mocidade, hortas. Muitas carroças, puxadas por cavalos, burros e mulas viu o mestre Manuel Jorge, pintor de Lisboa e meu pai (se procurarem na Internet encontram pouca coisa… e cuidado, há pintor amador e muito fraquinho e naïf com o mesmo nome). Quando o aeroporto foi construído, na “distante” Portela e aberto em 1942, pastavam ovelhas onde está a Rotunda do Relógio, o que terá acontecido até à década de 50. Até eu vi… em 2000, um pequeno rebanho alimentava-se não muito longe do Parque das Nações.

O finado

Fora desses vinhos das demarções, destacava-se o Bastardinho – Bastardinho de Azeitão, ou Vinho do Lavradio. Um vinho fortificado – definição atribuída aos vinhos cuja fermentação foi interrompida pela adição de aguardente – e com longo estágio em depósitos de madeira.

Pelo tempo verbal utilizado, percebe-se que não existe. A última vinha foi arrancada em 1983, para dar lugar a edifícios residenciais, comércios e serviços diversos: cidade. A firma José Maria da Fonseca foi o último produtor e, uma vez que as videiras estavam em solo que não lhe pertencia, mais não pôde do que resignar-se. De tempos a tempos, solta umas garrafas. Pela raridade, qualidade, memória e tempo de espera (30 anos em casco e uns tantos recolhidos em garrafa) custa uns euros valentes – cerca de 80 euros por meio litro.

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Sei que restam alguns pés de vinha, em quintais. Um senhor idoso – não estou autorizado a revelar o nome – percorre todos os anos os caminhos que a elas vão dar. Compra as uvas e na sua adega – numa anacrónica casa rural – produz o seu Vinho do Lavradio. Não posso também dizer da localização, a pedido do próprio, para que não lhe batam à porta para comprar a obra, coisa repetida sempre sai uma notícia num jornal. Falei com ele, quando escrevi o livro Grande Reserva, mas nada me quis dizer além da solicitação para manter o anonimato.

A firma José Maria da Fonseca plantou, há pouquíssimos anos, uma pequena vinha da casta bastardo, nome que se dá, em Portugal, à trousseau – natural da região francesa de Jura. Está cá há tantos anos que há autorização para o seu uso no fabrico de Vinho do Porto. Parece que a maior área fica neste rectângulo do Ocidente ibérico. A localização dessa jovem plantação não é comparável à que era comum, está no sítio possível. Além de que toda a Península de Setúbal foi agricultada com parreiras. Todavia, vão passar anos até que um novo Bastardinho chegue ao público.

O vinho de Palmela não sofre qualquer ameaça. A região tem muitos pequenos produtores, que vendem à porta da adega, embora possam não certificar. Em Azeitão, situam-se duas grandes firmas de dimensão nacional: José Maria da Fonseca e Bacalhôa. Na Península de Setúbal – não no apêndice alentejano litoral, uma aberração burocrática –, somam-se a Adega Cooperativa de Palmela, a Cooperativa Agrícola de Santo Isidro de Pegões, a Casa Ermelinda Freitas e, de menor tamanho, Horácio Simões, Venâncio da Costa Lima, Xavier Santana… estabelecimentos de pequena dimensão, que na zona dão nas vistas.

Os Setúbal – moscatel de alexandria e moscatel roxo – são infelizmente pouco conhecidos, consumidos, sobretudo, na região. Infelizmente, apenas a José Maria da Fonseca tem uma frasqueira com edições muito antigas, colheitas excelentes e lotes de várias vindimas fazem néctares fabulosos. Lamentavelmente, há quem faça xarope abusado em caramelo, em vez de explorar a frescura e o requinte da moscatel de alexandria. Os moscatéis da Bacalhôa são de grande qualidade, muito frescos. A companhia foi fundada em 1922, mas a genica só na década de 1970, pelo que há pouca história nas caves. O que hoje faz… tenhamos mais 100 anos de vida para que nos iluminem o olhar.

Na margem Norte, a realidade é diferente. Em Colares, restam cerca de 20 hectares. O cimento e o pinhal atraem mais do que o rendimento das vinhas, em pequenas áreas. Há muitas parcelas abandonadas, mas, quando o Fisco começar a cobrar esse património, logo se verá.

As vinhas de Colares têm características únicas. As videiras serpenteiam deitadas na areia e partilham o campo com macieiras reineta, anãs que quase rastejam. A brisa marítima baixa-lhe o açúcar e sobe-lhe o carácter. O ar não basta, sob os ramos têm de se colocar pequenos suportes de cana, para que as uvas não se consumam na areia ardente. As parcelas dividem-se com paliçadas de cana, produção comum naquela zona, amortecedores para o vento. O homem está obrigado a trabalhar de cócoras, ou vergando as costas. Os idosos podem pouco e a mão-de-obra disponível para sofrer não é muita. A que aparece é cara. As vindimas fazem-se por amor, pois o rendimento não será grande.

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A natureza fala e as videiras sentem, ouvem e contam o ambiente em que estão. Os Colares apresentam-se com notas de maçã reineta e de sal. É um vinho pouco alcoólico, fora de moda e anacrónico. Precisa de tempo para ser bebido e quase ninguém tem paciência para esperar, pelo menos, dez anos. Consta que Eça de Queiroz, assumido amante por este vinho de Sintra, terá dito uma vez:

– Este vinho está estragado ou é um Colares novo.

Quando em Janeiro de 2014 provei o jovem 2013, percebi a afirmação. Colares novo é detestável, abaixo de zurrapa. Como o patinho feio, será belo e grande, enorme. Um vinho fabuloso que vive décadas. Na melhor gaveta da memória, tenho um Visconde de Salreu 1933 e um Viúva Gomes Reserva 1974. Mais se pode contar dos Colares. Chega por agora, quem quiser pode ler-me no blogue joaoamesa.blogspot.com, onde há uma etiqueta própria para esta região, ou no Grande Reserva, editado pela Oficina do Livro.

Em Colares, há apenas dois produtores: Adega Regional de Colares (cooperativa), com a marca Arenae, e a Fundação Oriente, com a MJC Colares. António Bernardino Paulo da Silva, marca Chitas, compra à cooperativa e faz depois o processamento, assim como a marca Viúva Gomes e o Casal de Santa Maria. Os etno-enólogos da empresa Monte Cascas compram uvas e trabalham o vinho na adega Viúva Gomes.

Em Bucelas, a situação é muitíssimo menos grave, mas apenas com seis produtores. Só a vinha da Quinta da Murta é maior do que a soma das de Colares: 27 hectares. As firmas restantes são as Caves Velhas, Chão do Prado, Quinta da Romeira, Casa d’Além e Quinta do Avelar.

Os Bucelas são obrigatoriamente brancos. Embora espalhada pelo país, a arinto – para mim a melhor casta branca portuguesa – brilha ali como sol. O fabrico modernizou-se para se adaptar ao “novo gosto”. Tradicionalmente vivia anos em garrafa e a idade prova a sua grandeza. Dentro desses, o Bucellas Garrafeira 1998 foi a minha mais recente alegria.

Dividida entre os concelhos de Cascais e Oeiras, a demarcação de Carcavelos está no limite, apenas o poder político a aguenta, com políticas públicas comparáveis às de protecção da natureza, ou dos sítios arqueológicos.

Em Colares, a Quinta das Vinhas de Areia – o instrumento da Fundação Oriente – nasceu como resposta ao desafio e pedido de ajuda de Edite Estrela, presidente da Câmara de Sintra, entre 1994 e 2002. Em Carcavelos, o Ministério da Agricultura cede terreno da Quinta do Marquês (de Pombal) e a Câmara Municipal de Oeiras trata da vinha e de produzir o vinho. Os técnicos camarários contaram-me que uma dificuldade, antes de começarem, foi a de encontrar um padrão. Em Carcavelos, não há retrato-robô. Provaram-se muitos vinhos, de diferentes épocas e produtores – alguns desaparecidos – e chegou-se à conclusão que cada casa tinha o seu estilo, do muito doce até ao seco. A preocupação do Governo e do município de Oeiras não parece existir em Cascais, vila que se limita a ver passar a procissão da Confraria dos Enófilos do Vinho de Carcavelos. Talvez esteja enganado, mas não vi, nem ouvi eco do seu contrário. Se estiver errado, que me informem e comprovem.

Além da Quinta do Marquês, há um número incerto de produtores. Desconhecido, mas que se estima ser cinco, ou seis. A razão é que há vinhas e, embora se apanhe a fruta e faça vinho, este não é certificado. O vinho de missa do Seminário de Caparide vem da sua quinta. Porém, os clérigos não se chegam ao campo. A função compete a um senhor, que trabalha também nas restantes propriedades e que é duma antipatia que roça a má-educação.

Na Quinta do Marquês, fazem-se dois néctares, um com a chancela do Ministério da Agricultura e outro comercializado pela edilidade. Até há pouco tempo, o município vendia-o com a marca Conde de Oeiras.

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Acontece que o actual marquês de Pombal e conde de Oeiras não quer que um dos seus títulos seja usado. Sebastião José de Carvalho Daun e Lorena venceu no Tribunal da Relação de Lisboa, em 2014, tendo a autarquia recorrido para o Supremo Tribunal de Justiça. Não há sentença transitada em julgado, mas, por precaução, a edilidade está a rotular Villa de Oeiras.

A questão do uso dos títulos de nobreza divide os juristas. A Primeira República não os extinguiu, considerando-os património e permitindo o seu uso, desde que devidamente autenticados por documentação. Na última revisão da Constituição da República Portuguesa, em 2005, o direito ao reconhecimento de títulos de nobreza foi revogado, argumentando-se com o princípio da igualdade. Porém, há quem entenda que se atenta ao direito ao nome e bom nome, nas designações antigas referentes a família.

Uma situação não igual, mas com parecenças, acontece com o produtor João Portugal Ramos, com a marca Marquês de Borba. Este empresário e enólogo paga ao seu tio para usar o título. Aproveitando a boleia, o vitivinicultor Marcolino Sebo lançou o Visconde de Borba – um título inexistente, mas que deve irritar o marquês e o seu sobrinho.

Seja qual for a opinião, a verdade é que 12º conde de Oeiras e 9º marquês de Pombal usa o brasão pleno da família Carvalho – direito exclusivo do chefe do apelido (pleno significa que não se usa acompanhador por outros ou apresente com marca distintiva). Contudo, no brasão de Oeiras é óbvia a menção ao nome.

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No entanto, coloca-se uma questão de moral. O famoso Sebastião José de Carvalho e Melo (1699 – 1782) terá decidido assumir as armas plenas. Contudo, julga-se terem pertencido a uma outra família nobre com apelido Carvalho, entretanto, desaparecida, sem parentela. Ao apelido estava agregado o morgadio de Carvalho e, acerca da sua posse, já li que nascera morgado, que teria direito reconhecido e que tentar obtê-lo sem sucesso. Ora, se o actual marquês considera usurpação o uso do título do vinho, não deveria abdicar de usar o brasão pleno?

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A história não se pode julgar, ou é de difícil julgamento. Não se pode usar os olhos de hoje para avaliar “anteontem”. Esse grande estadista do século XVIII foi um homem do seu tempo. Aproveitar-se da posição política para benefícios próprios era corrente e pouco, ou nada repreendido, ou mesmo censurado.

Da sua quinta em Oeiras e da Quinta do Gradil (Cadaval) saiu muito vinho em direcção ao Douro, vendendo-se como se lá tivesse nascido. O mesmo marquês que mandou arrancar vinhas no centro do país para defender a demarcação e que proibiu que à região chegassem vinhos doutras regiões.

Uma cintura de vinhas

A Herdade de Rio Frio – abrangendo áreas dos concelhos de Alcochete e Palmela – é uma das maiores propriedades rurais do país, com 4.000 hectares. Tem história, a vinha foi a maior da Europa e para escoar a produção construiu-se um canal para as fragatas, mulas fluviais do Tejo, carregarem as pipas que entregavam em Lisboa.

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Recorro à heráldica – sem grandes explicações – para demonstrar a dimensão e a importância do vinho na zona de Lisboa. Normalmente, pede-se que o brasão conte história, ou uma estória, ou que retrate uma realidade. Nem sempre foi assim, nem tem de ser assim. Por ser o modelo secular de identificação na Europa, de pessoas e territórios, mantém-se o escudo de armas nas representações municipais. Olhando para os 19 concelhos da Área Metropolitana de Lisboa, o vinho é presença assídua.

São 18 os concelhos, cada margem do Tejo com nove. Guardo Lisboa para o fim, devido ao carácter iminentemente urbano mais antigo e fundacional. A Norte: Amadora, Cascais, [Lisboa], Loures, Mafra, Odivelas, Oeiras, Sintra e Vila Franca de Xira. A Sul: Almada, Alcochete, Barreiro, Moita, Montijo, Palmela, Seixal, Sesimbra e Setúbal.

À primeira vista, o vinho é quase ignorado na heráldica cívica da região. Na margem esquerda, apenas três concelhos têm uvas no brasão: Alcochete, Barreiro e Moita. Na margem direita, apenas Oeiras mostra um cacho.

Uma observação ao microscópio mostra melhor a importância da viticultura. Em 2012, foi realizada uma alteração à legislação do poder local, visando a redução do número de freguesias. Uma vez que a generalidade das novas freguesias, resultantes das fusões, ainda não adoptou novos emblemas heráldicos – só identifiquei um caso em que se fez a alteração –, recorro à realidade anterior às eleições de 2013.

Há 37 freguesias na margem esquerda e havia 69, há 81 na margem direita e havia 153 (53 eram de Lisboa). Esquecendo Lisboa, das 169 freguesias 19 têm cachos, uma tem videira e outra apresenta um barril. Não será muito, mas deixa ver o quão espalhado estava o vinho.

Na margem Sul, apenas Moita (tem no brasão do município), Sesimbra e Setúbal não têm qualquer freguesia cujo emblema heráldico se ligue ao vinho – contudo, neste último caso poderá não ser inteiramente verdade, pois das antigas nove freguesias setubalenses apenas encontrei dois escudos.

Na margem direita, apenas a Amadora não conta com qualquer freguesia com motivos vínicos. Curiosamente, neste pequeno e populoso concelho – o nono num total de 308 – as romãs são omnipresentes. Chegou a altura de referir concretamente Lisboa… uma freguesia da capital tem um cacho no seu brasão. É precisamente a “bucólica” Penha de França.

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João Barbosa

Comecei no Diário Económico em 1990 e isso só é importante porque me apaixonei pela profissão e porque aprendi a escrever – a explicação seria longa.

Informar que escrevi um livro sobre vinho (Grande Reserva – Oficina do Livro) não diz nada acerca de quem sou. Revelar que sou co-autor de um programa de história na televisão (Estórias da História – RTP 2) já soma qualquer coisa. Para se ter um retrato mais próximo digo que vejo o vinho como quem bebe cinema. Interessa-me a alma das artes, os fundamentos das coisas, as explicações dos factos e os resultados finais.

Olha-se para o meu perfil e vê-se um vampiro, com o rosto do actor Max Schreck. Porquê? Não porque o vinho é o sangue de Cristo, bebida sagrada dos judeus e promessa celestial dos muçulmanos. É um vampiro porque sou trágico e romântico.

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