Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!
Ciências e TecnologiaSaúde

O truque está no olhar

É através do olhar que eles nos conquistam… Não se deixem enganar pelo aspecto fofo, sedoso, cabeludo, brincalhão ou dócil. A conquista é feita por aquele olhar meloso, brilhante, de onde parecem sair unicórnios e arco-íris. Um olhar de profundidade, como quem parece que nos conhece a alma e nos lança uma flecha ao coração desmantelado com tamanha amorosidade.

O olhar de um animal doméstico é um olhar inteligente, quando falamos de gatos, cães, cavalos ou até pássaros. Há quem tenha cabras, porcos, coelhos, tartarugas ou iguanas como animais domésticos, mas hoje falemos nos mais comuns.

Conheci pessoas que se transformaram por completo desde que tiveram um animal de estimação para cuidar, e para fazer-lhes fazer companhia. Nasce, nessa relação, um senso de protecção, de cuidado e de preocupação perante outro ser, e isso é altamente curativo. Não esquecer que, principalmente quanto a cães, olhar mais meigo e cheio de amor não pode existir.

Os gatos têm aquele olhar lânguido, sensual, de desprezo velado, mas também eles são uma companhia fenomenal. Faz parte da natureza mais selvagens destes seres, não se deixarem domesticar tão facilmente, e não cederem em armadilhas de amor, afinal, são descendentes dos grandes felinos das selvas ou savanas africanas. Penso que, por vezes, eles fingem desprendimento, mas lá no fundo, vai-se a ver e são tão carentes de nós, quanto nós deles.

Mas os cães minha gente… O que dizer deles? São feitos de coração e pelo, língua de fora e rabo a abanar. As orelhas para trás e aquele sorriso jovial que nos lançam, ofegantes. Mesmo o cãozinho de senhora, petulante e irritante nos seus latidos assustadiços, quando se deita em sossego e aprazível tranquilidade, a forma com que nos olha é de uma doçura incomensurável.

Porque é que esta relação com os animais tem algo de terapêutico? Não há julgamento. Zero reprovação ou crítica e aceitação máxima. Será preciso dizer mais? Crianças ou adultos com deficiência, perturbações mentais ou outras limitações, têm tudo a ganhar. Primeiro, o calor de outro ser, o fascínio e o conforto que provoca afagar, tocar ou abraçar um animal. Esses animais não sentem incómodo, nojo, reprovação, preconceito ou estigma. Não fazem discriminação, simplesmente recebem quem seja, como seja, de que forma esteja.

Terapia assistida por animais é o nome que se dá à terapia que utiliza animais, normalmente cães ou cavalos (“hipoterapia”), para melhorar o funcionamento social, emocional ou cognitivo de indivíduos ou grupos. Especificamente, esta terapia ajuda a regular emoções, estimular a interacção e a comunicação, melhorar as habilidades motoras e o equilíbrio, aumentar a autoestima, reduzir a ansiedade, minimizar a solidão e o isolamento, etc.

Pode perceber-se claramente o porquê. Esta terapia é realizada por profissionais devidamente credenciados e pode ser parte integrante de um processo de tratamento, em casos que apresentem necessidades ou dificuldades específicas na socialização, comunicação ou aprendizagem, como o autismo ou a paralisia cerebral, por exemplo. Depressões profundas, cancro ou estados terminais, seja em crianças ou adultos, têm beneficiado desta forma de terapia, com visitas de animais ao próprio local de internamento, nomeadamente o hospital. Vários vídeos têm passado nas redes sociais com estes exemplos.

Nós conseguimos criar ligações incríveis com os animais, já vi exemplos desses com leões, porcos, vacas, patos, gatos, cães, pássaros, chimpanzés… Eu própria já senti esse tipo de ligação e fascínio por alguns animais que cruzaram na minha vida. Já vi seres humanos arriscarem a própria vida para salvarem um animal, já vi animais salvarem outros animais e pessoas, já vi pessoas com uma tristeza profunda e a chorar a morte do animal de estimação de há anos, que é como se fosse um elemento da família – e na verdade é!

Não conseguimos passar pela vida sem nos condoermos com algum animal, sem lidarmos com ou sem nos sentirmos próximos de algum, em alguma altura das nossas vidas. O sentir cura, o sentir faz bem, o sentir é necessário. E o sentir por um animal, é sentir na mesma. Temos uma capacidade fantástica de nos ligarmos com um animal, muito mais facilmente de que por uma pessoa. O animal é simples e aquilo que ali está, não há fingimento.

Sentir é terapêutico e sentir por um animal é poder sentir para toda a vida, sem decepção (não há traição ou desengano), dor (não há abandono, rejeição ou violência) ou mágoa, a não ser que ele parta. E mesmo assim, continuamos a sentir. E isso, liga-nos a algo, a algo maior que nós: a memória e o carinho por outro ser, que passou na nossa vida e deixou a sua marca e, com ela, um sentimento difícil (ou impossível) de apagar. E a isso chama-se amor (e eternidade também).

Paula Chocalhinho

Psicóloga Clínica & Hipnoterapeuta. Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde e em Psicologia Comunitária. Experiência profissional em perturbações da ansiedade (fobias, stress, pânico, ansiedade generalizada), perturbações psicossomáticas, depressão, luto, trauma, insegurança, baixa-autoestima, etc. Trabalho desenvolvido no sentido do autoconhecimento e autodesenvolvimento. Trabalha na Associação para o Planeamento da Família e em Paula Chocalhinho Consultas de Hipnoterapia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Back to top button

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: