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O Tempo que se Esvai

Vivemos acelerados e sem tempo, com a sensação constante que o tempo mudou, que se tornou mais rápido. No entanto, sabemos que os minutos, os segundos ou as horas mantêm-se inalterados na sua cadência, e tal deixa-nos ainda mais confusos. A reacção humana é a de tentar alterar o tempo, torná-lo mais eficiente, ajustá-lo ao ritmo de vida, e para tal temos agendas, computadores, criamos listas de tarefas, todos eles mecanismos válidos e preciosos, mas que, com o fluir dos dias, começam a dar sinais e a mostrar brechas e falhas. A razão é a mesma de sempre, o ser humano no seu melhor, a tentar controlar tudo e a inverter a natureza das coisas.

Desde a Revolução Industrial que temos vindo a tornar tudo mais rápido e a encurtar distâncias. Um caminho que se fazia em dias, fazemos em horas. Uma mensagem que demorava dias ou horas a chegar ao destinatário, agora leva segundos. O mesmo para uma notícia, para um acontecimento e um pouco para tudo o que nos rodeia, até coisas mais simples, como alimentos. Se isto é errado? Não, de todo, bem pelo contrário. No entanto, esquecemo-nos de um pequeno pormenor, a meu ver estrutural, e todos os dias somos consumidos por ele, pois moldar o tempo não é gratuito, não é só divertido e interessante, tem um custo.

Quando olhamos o mundo lá fora, que nada mais reflecte do que o mundo que existe dentro de cada um de nós, percebemos que tornámo-nos consumidores de fast food, não só de alimentos, como de vida. Não temos tempo para nada, porque temos de o dedicar a algumas coisas que gostamos, ainda que acabemos por, também para elas, não ter tempo. Face a essa realidade, começamos a activar os nossos mecanismos de controlo. Ajustamos as nossas agendas, tentamos manipular os factores, retiramos daqui, tentamos colocar ali, mas ao fim de algum tempo estamos esgotados, cilindrados, aniquilados, e o tempo não esticou nem se tornou mais útil.

Ao reflectirmos sobre a vida, nomeadamente sobre a nossa própria vida, percebemos que vivemos num paradoxo muito pouco simples de se resolver. Vivemos nos extremos, dum lado o que realmente precisamos, do outro o que queremos e desejamos, oscilando entre eles, pendendo mais para um ou para o outro consoante as situações. Acredito que uma vida tem um propósito, um caminho, e que cada parte deste caminho tem um sentido, quer seja algo maravilhoso, quer destruidor. Acredito que cada pessoa que se cruza connosco, e da mesma forma nós nos cruzamos com outros, traz-nos algo para viver, compreender, aprender.

No entanto, quando encurtámos o tempo, quando mexemos nos ritmos, criámos necessidades, dependências, colocámos, colectivamente, um peso maior sobre o prato do querer e do desejar. Não que haja algum mal em pretender algo, em desejar chegar a um patamar, pelo contrário, até acho, e talvez seja mais um paradoxo, que falta ambição nas vidas das pessoas, mas a verdade é que hoje não desejamos algo para cumprir um caminho, para levar aos outros o que temos de melhor, os nossos dons e capacidades. Desejamos posses, estruturas, pessoas e mascaramos o desejo com uma capa de necessidade, mesmo sem nos percebermos de tal atitude, pois já estamos tão embrenhados no mecanismo que nem sequer temos consciência dele.

O problema amplifica quando aliamos este paradoxo ao conceito que criámos de tempo e tornamo-nos impacientes. Já não comemos para nos alimentarmos, tornou-se uma rotina de necessidade física, levando-nos a comer às pressas, em pé ou à frente do computador, para não perder muito tempo. Quando temos um pouco mais de tempo para comer melhor, com a família, ou até mesmo sozinhos, ou estamos cansados demais para produzir algo que nos traga felicidade, ou comemos em frente a uma televisão, às pressas. Não damos tempo para que os frutos amadureçam, nem os que vamos comer, nem os resultantes das sementes plantadas nas nossas vidas. Tentamos acelerar tudo, viver tudo no ontem, pedimos tudo rápido, porque não temos tempo para nada, mas ao chegar ao final de um dia, sentimos que não o aproveitámos devidamente, que o dia passou por nós e não o agarrámos

Passámos a trabalhar para ganhar dinheiro, primeiro porque temos gastos, depois, como nascem os filhos, porque temos de lhes dar condições, temos de ter uma casa assim, um carro com determinadas características. Para o atingir, nem que tenha dois empregos ou fontes de rendimento. Tornámo-nos escravos dos nossos próprios desejos, sem sequer nos apercebermos, e esquecemo-nos que a vida é perfeita, que nos mostra em cada momento o caminho, o que necessitamos, ainda que isso implique largar alguns desses desejos, compreender até que não precisamos deles para nada.

Deixámos de viver para nós, para o nosso crescimento e desenvolvimento, para a amplificação do nosso ser, e passámos a viver para pagar uma casa em 30 ou 40 anos, que durante todo esse tempo não é verdadeiramente nossa, para um carro, para um emprego onde passamos maior parte do nosso dia útil. Esquecemo-nos de quem somos, vivemos embrenhados em conceitos que nos foram incutidos, em necessidades que nos foram impostas. Revoltamo-nos contra o mundo, mas pouco ou nada fazemos onde realmente podemos mudar alguma coisa, em nós, na nossa atitude, na nossa forma de estar, nos nossos conceitos, crenças e ideais.

Pode até parecer utópico ou irrealista, mas a verdade é esta, simples, dura e directa. Invertemos o processo e deixámos de permitir que o tempo nos definisse, nos mostrasse os caminhos, as razões, nos orientasse. Pelo contrário, decidimos tentar controlar os factores, manipular a vida, tentar contornar o tempo. Procuramos envelhecer mais lentamente, nem que seja exteriormente, continuamos com a velha ideia de criar uma máquina do tempo, vivemos presos em situações do passado, porque não conseguimos libertar-nos delas, porque não conseguimos perdoar, e projectamo-nos no futuro, tentando sabê-lo antecipadamente, tentando prever o que irá acontecer. Damos-lhes o nome pomposo de forecast ou tendência, mas esquecemo-nos da verdadeira natureza dessa noção e desse caminho, que nós somos o que construímos em nós, em cada momento.

Quando vejo o mundo em conflito, a degradar-se, penso no que dentro de nós, humanidade, se degrada em cada segundo, penso na quantidade de pessoas que vivem oprimidas, não só pelas armas, mas por si mesmas, em depressões, em ansiedades, em medos, penso nas soluções imediatas que se procuram, que nos levam a dar poder a quem não tem sequer capacidade para amar os outros, pois apenas se amam a eles mesmos, e ainda esperamos que nos amem de tal forma que nos façam o bem. Penso no tempo que se esvai, que perdemos em cada segundo que deixamos de viver, que deixamos de dizer o que pensamos, de exprimir os nossos sentimentos, de sermos pura e simplesmente nós mesmos.

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Leonardo Mansinhos

Nasci em Lisboa em 1980 sob o signo de Virgem e com Ascendente Capricórnio. Quando era pequeno descobri uma paixão por música, livros e por escrever. Licenciei-me em Organização e Gestão de Empresas pelo ISCTE e trabalhei durante quase uma década nas áreas de comércio, gestão e, principalmente, Marketing, mas desde muito cedo interessei-me pelo desenvolvimento espiritual. Comecei como autodidacta há mais de uma década em diversos temas esotéricos, nomeadamente em Astrologia, e, mais tarde, descobri no Tarot uma verdadeira paixão. Hoje dedico-me a esta paixão através das consultas de Tarot e Astrologia, assim como de formação, palestras e artigos nas mesmas áreas. Em 2009 co-fundei a Sopro d'Alma, um espaço de terapias holísticas e complementares, dedicado ao ser humano e onde dou as minhas consultas, cursos e palestras. Procuro, acima de tudo, ser um Ser todos os dias melhor, pondo-me ao serviço da sociedade através de tudo o que sou.

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