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ContosCultura

O tempo no adro

No adro a vida era lenta. Na aldeia não era menos. Mas no adro o tempo só passava duas vezes por dia, e na segunda passava no sentido contrário ao da primeira parecendo impedir a Dona Céu de chegar ao fim dos seus dias. Ela sentia-se a ir para no final do dia voltar ao mesmo ponto.

Ainda muito cedo a menina Céu foi obrigada a fazer-se mulher. A vida inóspita do campo obriga a calejar as mãos desde tenra idade. A escola, lugar distante, era um luxo para alguns que não para si. Aos 15 anos viu o pai entregar a sua mão ao filho de um vizinho da aldeia, rapaz bonito de bom coração e educado para trabalhar. Teve sorte naquele casamento que seria um grande investimento para o futuro de ambos. Herdariam vasto lote de terras de onde extrair considerável riqueza.

Assim foi.

Ainda mal terminara os anos de descoberta da adolescência e já cuidava de dois filhos. Tarefa árdua que conjugara com os afazeres doméstico e as refeições para o seu marido. Apenas se viam de manhã, ao almoço e ao jantar. Uma partida de sueca e uma aguardente faziam-no descomprimir e afastavam-no dela.

Envelheceu com o lucro da vida que os pais lhe determinaram. A riqueza das terras deu-lhes a hipótese de colocarem os filhos na escola. Aos seis anos, um primeiro depois o outro. Assim que começaram a conhecer o mundo decidiram partir e deixar aquela terra e aquelas terras. Doze anos depois, um primeiro depois o outro partiram para longe.

A Dona Céu viu-se só a estender a roupa na eira enquanto via o marido ao fundo a sulcar a terra. Tamanho esforço retirara-lhe as forças cedo demais. Ainda a Dona Céu não estava preparada para pensar em acordar só dia após dia, e teve de chorar o seu amado marido. O conforto dos filhos foi breve. Regressaram eles com os netos às suas vidas noutras paragens e deixaram a Dona Céu só, a ver a quinta a definhar lentamente. As ervas cresceram, o milho secou nas espigas, as uvas secaram nas videiras, as frutas caíram e espalharam a podridão por todo o lado.

A Dona Céu foi entregue a um lar para esperar os últimos dias. De manhã saía pela porta e sentava-se no adro logo em frente. Esperava no silêncio cantado pelos pássaros e pelas poucas saudações diárias. Esperava pacientemente o seu último dia. Esperava ver o tempo passar. Depois ouvia o rugido metálico a aproximar-se e a passar diante de si. Era uma flecha prateada que não se podia tocar a passar e a desaparecer no horizonte. Era o tempo a passar, mais uma manhã à hora certa. Regressou ao lar e cumpriu nova rotina. Ao final da tarde de novo sentou-se no adro à espera de ver o tempo a passar novamente. Ouviu o ruído a aproximar-se, a passar e a deixá-la para trás, ainda e sempre no sentido oposto ao da manhã.

Regressou de novo ao lar quando o sol já descia para o fim do rio. O dia tinha sido igual ao de ontem, o tempo passou cedo e voltou atrás no final da tarde. E assim todos os dias pareciam os mesmos, nada mudava, tudo era sempre igual e a Dona Céu sabia que assim seria até abandonar os seus ossos e subir ao desconhecido.

A linha de comboio mesmo em frente ao adro, era a única distração da Dona Céu.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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