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O Tempo e o Modo de uma Nova Ordem Mundial

Vandana Shiva tem hoje 61 anos e dedicou mais de 30 anos à defesa da biodiversidade na Terra e à defesa da criatividade da natureza, aliando-a à defesa dos direitos humanos.

As empresas da Indústria Química, que actualmente se auto-denomina de Indústria das Ciências da Vida, está a patentear recorrentemente as culturas, que sejam resistentes ao sal, à seca e às cheias, como se fossem um produto inventado pela engenharia química, quando tal não corresponde à verdade, porquanto devido às catástrofes naturais ocorridas por toda a Índia, os próprios agricultores as desenvolveram, para que pudessem sobreviver e os próprios agricultores, que desenvolveram estas sementes resistentes ao clima adverso, as doaram a populações que sofreram torrenciais chuvadas ou ciclones, que tornaram as terras impróprias para cultivo, excepto pelo uso de sementes altamente resistentes a extremos ecológicos.

Além do mais, para Shavana, o padrão de crescimento, que tem sido definido como padrão de crescimento, visto como criador de acumulação de capital, tão típico dos tempos modernos, fracassou nos países em que foi inventado e fomentado. Shavana prevê que, iremos assistir ao declínio económico do Ocidente, pela utilização excessiva deste padrão de suposto desenvolvimento e crescimento, o que já se pode verificar no pedido de ajuda económica pedida pela Europa à China e porque esta última ainda tem excedentes comerciais, assistiremos ao desempenhar do seu papel de potência económica e financeira internacional e este factor irá alterar positivamente o balanço entre Sul e Norte e entre o Ocidente e o Oriente. Mas, porque o modelo económico é intrinsecamente injusto e insustentável na sua essência, os países do Oriente que estão a ajudar o Ocidente, através da sua sobre-exploração de recursos, marginalizando a sua população, criarão internamente instabilidade ambiental, económica e política, já se podendo verificar tais sinais, pelas milhares de revoltas e manifestações, que acontecem todos os anos nas super-potências da Índia e da China. Na China todos os anos, há 100 mil manifestações por causa da terra e na Índia o número deverá ser semelhante.

Porque o processo pelo qual se criou este pseudo-desenvolvimento é tão injusto que as pessoas se estão a revoltar.

Haverá um ponto em que para além dele, a revolta não será mais possível de conter e controlar pelas forças armadas, porque um crescimento artificial interno de 9% não trará de volta os rios, os alimentos, os recursos e a sustentabilidade da gestão dos alimentos dentro desses países. Assistimos ao crescimento económico e com ele, ao crescimento da fome, o que basicamente quer dizer que se desperdiçará metade do futuro da Índia, pois a água está a desaparecer e a terra cultivável e produtiva está a desaparecer.

Se a Índia desejar sobreviver, só o poderá conseguir através de duas formas, o respeito pela mãe-terra, sabendo respeitar o equilíbrio da natureza e usando o pouco de que necessitamos para conceber uma vida feliz, sem que isso passe pela exploração da terra.

No final das contas não serão as alterações climáticas a auto-destruição da civilização? Não será a extinção das espécies, o esgotamento da água, ou a poluição tóxica, senão a auto-destruição? Segundo Shavana, está a acontecer bem à frente dos nossos olhos.

No que diz respeito ao tão publicitado conforto material de que supostamente todos necessitamos, as afirmações de que é necessário produzir mais comida através do uso de produtos tóxicos, ou que se usará necessariamente a engenharia genética para ser possível produzir mais alimentos, mas na realidade o que temos de facto são mil milhões de pessoas esfomeadas e dois mil milhões de obesos. Nem uns nem outros se sentem confortáveis, posto que um obeso não se sente confortável no seu corpo, tal qual uma pessoa esfomeada também não se sente confortável. Veja-se o disparar do crescimento de sem-abrigos nos EUA ou, nas ruas da Índia.

Shavana conclui que tudo o que proclamou criar habitação, criou sem-abrigos, o que proclamou proporcionar comida criou fome, o que prometeu criar emprego criou desemprego. Se este fracasso material, que é também um fracasso espiritual da humanidade não chega para ver que, esta incapacidade de pensar o desenvolvimento e o crescimento de outras formas, esta incapacidade de pensar a nossa evolução espiritual leva-nos à conclusão de que, o crescimento actual se baseia na forma de pensar baseada no consumismo, na ganância e na competição, como se de uma fé se tratasse, em que é necessário lucrar a qualquer custo, para a qual é necessário educar a sociedade tornando-a uma sociedade de consumo, onde se faz crer que necessitamos de todos estes produtos, de toda esta cultura tóxica do plástico para que se leve as pessoas a acreditar que necessitam de tudo isto para viver melhor. Assim, a sociedade de consumo torna-se estupidificada pela educação para o consumo, anestesiando a nossa dimensão da consciência espiritual. No fundo é para isto que os monopólios comerciais servem e nunca para uma cultura da partilha e do cuidar do próximo. Criaram-se sociedades de seres humanos autómatos, que não são felizes e estão deprimidos, olhe-se para a quantidade de Prozac vendida mundialmente para sustentar o actual sistema económico.

Se olharmos para o mundo hoje, basicamente o que vemos é uma tendência recente, com umas poucas centenas de anos, onde podemos observar o mundo sendo moldado de acordo com uma visão masculina, onde também a economia foi redefinida para um modelo de termos transaccionáveis. Quando cozinhar para os nossos filhos, ir buscar água para a nossa família ou, cuidar de um membro idoso, isso não é trabalho, isso não é produtivo, isso não contribui para a economia. É quando se compra algo e se vende o que se produz, isso é economia, isso levará ao crescimento económico do mercado e para o mercado, nos termos definidos actualmente, o que apagou totalmente a ideia de inteligência da natureza.

Vamos simplesmente, ter de encontrar outro caminho.

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Filipa Mar

Neste sítio vindo do nada e do aqui constroem-se sonhos, distraem-se sensações mais fortes, dizem-se no som do búzio ao ouvido, as coisas jamais ditas por vós.

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