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CulturaMúsica

O Tempo de Prince

2016 começou apressado a convocar banda sonora para terrenos etéreos. Desta vez, um príncipe.

Quando em Janeiro nos despedimos com incredulidade do imortal David Bowie, não podíamos supor que em poucos meses estaríamos a dizer adeus a outro grande. Em comum a genialidade, a excentricidade e uma aura de mistério que parece gravitar em torno de almas inquietas.

Prince Rogers Nelson brindou-nos com cerca de quatro décadas de uma carreira que o consagrou como um dos mais talentosos músicos e ‘performers’ que o mundo já conheceu. Cantor e compositor de eleição, multi-instrumentista prodigioso, bailarino, estas são apenas algumas das competências do artista que exorcizava em palco a timidez e dava à aparente fragilidade física uma força que o impôs como “one of a kind” na constelação de estrelas globais.

Este gigante de 1,58 m, excêntrico, rebelde e provocador, cultivou deliberadamente uma androgenia libidinosa e exibicionista, da qual tirou partido como complemento importante para o inegável talento musical, fintando a desconfiança inicial que via o jovem negro como inapropriado na cena artística da ainda estreita América dos anos 70, década em que surgiu.

Workaholic, o que explica 39 álbuns de estúdio, 4 álbuns ao vivo e 6 compilações, para além de mais de 130 vídeos de musica em 40 anos de carreira, gravitou entre estilos como o funk, o soul, o rock, o jazz e até hip-hop. Perfeccionista e obstinado, foi ele a escrever, compor, produzir e gravar todos os instrumentos do seu álbum de estreia, “For You”, de 1978, o que é demostrativo do total controlo artístico que conseguiu negociar com a editora – Warner Brothers, algo raro para um novo artista.

A década de 80 foi a fase de consolidação quando, em 1984, lança o álbum “Purple Rain” e se converte definitivamente numa estrela global. Para além da faixa que deu título a este álbum, sucessos como “When doves cry”, “Kiss”, “Let’s go crazy”, “Cream”, “Batdance”, “Raspberry beret”, “U got the look”, “The most beautiful girl in the world”, entre outros, fazem parte do catálogo do músico e ficarão para sempre na lista das incontornáveis da cena musical.

Apesar do sucesso global, Prince manteve sempre alguma resistência em relação à exposição pública, sendo um protector feroz da sua intimidade e resistindo a conceder entrevistas, já que as considerava ‘dolorosas’. No inicio da carreira, a sua teimosia em lidar com as editoras e com as exigências promocionais que as mesmas lhe impunham, fez quase tanto ruído como a música que produzia. Em 1993, por litígios com a antiga editora, deixou de poder usar o seu nome artístico para qualquer acção comercial, o que o levou a alterar o seu nome para ‘O Artista anteriormente conhecido como Prince’ e posteriormente para um símbolo impronunciável.

Determinado e obstinado, ao longo dos anos nunca abdicou da sua autonomia criativa nem da gestão da carreira e aparições públicas, dando os concertos que queria e no modelo que desejava, sempre acompanhado de um leque irrepreensível de músicos e cantores de apoio. Quem com ele trabalhou conheceu-lhe de perto o talento, mas também a exigência, sendo frequente rever com a banda os vídeos das actuações e apontar as falhas encontradas, pouco depois dos concertos.

Esta mesma obstinação fez com que olhasse com desconfiança para a Internet, tendo por isso proibido o YouTube e o iTunes de utilizarem a sua música. Nem os 7 Grammys, 1 Oscar e 1 Globo de Ouro arrecadados o fizeram baixar a guarda perante o ‘sistema’, com o qual foi interagindo sem nunca ter sido engolido pelo mesmo.

Prince foi sempre atento à musica que se ia produzindo no resto do mundo, era obcecado pelo talento e louco por grandes vozes. Foi contudo por acaso, num processo de mudança de casa, que ‘tropeçou’ num CD de Ana Moura, por cuja voz se apaixonou e de quem se tornou amigo, tendo surpreendido tudo e todos ao tocar com a fadista na edição de 2010 do Festival Super Bock Super Rock.

Dos palcos portugueses despediu-se em 2013, num concerto electrizante no Coliseu dos Recreios, onde demonstrou o seu lado mais rockeiro e se reconfirmou como um dos maiores performers no nosso tempo. Dos palcos do mundo despediu-se a 14 de Abril, em Atlanta, apenas uma semana antes da morte.

Num momento em que as múltiplas homenagens ao artista convivem com a exploração feroz das causas da morte dita prematura, importa lembrar o que Prince afirmou um dia:

“O tempo é uma construção da mente. Não é real.”

Tinha razão.

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Telma Santos

Licenciada em Direito e apaixonada pela comunicação. Entendo que o olhar para o mundo e para a actualidade deve ser feito, sempre que possível, por dentro.

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